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Mês do Orgulho LGBTQ+

João Silvério Trevisan: "Bolsonaro é uma aula de como nasce a homofobia"

Autor de um dos livros mais emblemáticos sobre a história da população LGBT no país, João Silvério Trevisan prepara novo livro em que trata de masculinidade e homofobia - Reprodução/Facebook
Autor de um dos livros mais emblemáticos sobre a história da população LGBT no país, João Silvério Trevisan prepara novo livro em que trata de masculinidade e homofobia Imagem: Reprodução/Facebook

Camila Brandalise

De Universa

24/06/2020 04h00Atualizada em 26/06/2020 11h28

Ativista, escritor, dramaturgo e autor do livro clássico sobre a população LGBT no Brasil, "Devassos no Paraíso" (editora Objetiva), publicado em 1986 e relançado em 2018, João Silvério Trevisan está agora debruçado sobre a segunda edição de outra de suas obras. Em "Seis Balas Num Buraco Só", de 1998, que deve voltar às livrarias no ano que vem, Trevisan discute a "crise do masculino". Na nova versão, pretende amparar seu debate no comportamento dos políticos que tomaram o poder nas eleições de 2018.

"A crise do masculino tomou Brasília. Me impressiona muito porque todos os pontos que analiso no livro estão estampados lá. Jair Bolsonaro [presidente] e o bolsonarismo têm um problema seríssimo com a sexualidade, como quando, ainda no início do seu governo, ele chega para um homem que tem olhos puxados e diz: 'E aí, é pequenininho?'. Ele acha que ter o falo lhe dá todo o poder possível, e daí vêm suas atitudes agressivas, inclusive a homofobia", diz, em entrevista a Universa.

Trevisan, 75, foi um dos fundadores do primeiro grupo em defesa dos direitos da população LGBT no Brasil, o Somos, em 1978. Desde então, é considerado uma das grandes referências no assunto. Além de pesquisador da história da homossexualidade no país, é, ele próprio, a história viva: ex-seminarista, assumiu ser gay em plena vigência do Ato Institucional nº 5, período mais persecutório e violento da ditadura militar (1964-1985). Tem 14 livros publicados e ganhou três vezes os prêmios Jabuti e APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes).

Leia mais trechos da conversa em que ele fala sobre homofobia, política, avanços dos direitos LGBTs no Brasil e militância.

"Homofóbicos são ratos que saíram do buraco"

"Nós estamos realmente vivendo um embate muito claro e muito cruel no sentido de que os ratos saíram dos buracos, e nós estamos diante dos ratos que já existiam. Eles representam a homofobia, o machismo, o sexismo e o racismo. As pessoas estão se sentindo confortáveis para serem homofóbicas.

O que as move para serem homofóbicas? Estamos vendo, com o governo de Jair Bolsonaro, uma aula de como nascem a homofobia, o ressentimento e a repressão. Bolsonaro e o bolsonarismo têm um problema seríssimo com a sexualidade. Não estou inventando nada, todos os dias temos comprovações novas. O próprio Queiroz [Fabrício Queiroz, preso recentemente e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente] disse que o Ministério Público tem uma 'pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente', está ligado a fantasias fálicas e anais. O falo é brandido como uma força porque eles vivem uma masculinidade que acha que ter falo lhe dá todo o poder possível. Essa é a base do problema da crise do masculino que está estampada em Brasília."

Religião é empecilho para avanço dos direitos

"A sexualidade é tolerada enquanto tem um objetivo controlável, que é a reprodução. Quando esse objetivo perde o foco, a tendência é que haja repressão. Isso está sob o guarda-chuva religioso, que é essa cultura que se formou em anos de cristandade, veio sendo permeada por dominação e repressão promovida pelas igrejas, protestantes e católicas, durante séculos.

Com certeza, a bancada religiosa no Congresso é um empecilho para o avanço dos direitos. Em 1978, quando criamos o Somos [primeiro grupo em defesa dos direitos LGBTs do Brasil do qual Trevisan foi um dos fundadores], não tínhamos uma série de leis que existem hoje em relação aos homossexuais. Não havia nem condições de se formarem tantos grupos como há hoje, havia muita perseguição. Mas não havia, por exemplo, uma bancada evangélica.

A mentalidade do ponto de vista de uma cultura heteronormativa mudou muito pouco de lá para cá. Percebemos isso atualmente desde fatores educacionais, que começam na escola. Esse receio de debater questões de gênero em sala de aula já é muito emblemático. Se temos hoje toda uma questão sobre gêneros muito mais avançada, uma conquista extraordinária para analisarmos a relação que temos com nossos corpos, por outro lado tivemos a chamada ideologia de gênero, que é a maneira de se contrapor aos avanços e de criar uma questão que incomoda extremamente essa mentalidade conservadora que ainda permeia nossa sociedade."

LGBTQIA+: "Tantas letras tornam movimento incompreensível"

"Essa questão me preocupa muito. Quanto mais lutamos para firmar nossa identidade, mais parece que essas letrinhas estão se tornando enigmáticas, escondendo as identidades. É um embate de baixíssimo resultado. Estamos gastando forças porque, ao mesmo tempo em que lutamos por uma coisa, a visibilidade, estamos puxando o tapete dessa mesma luta.

As letrinhas, em vez de explicitar o cerne da luta, estão ocultando. Cada vez mais, esse ajuntamento está se tornando misterioso e incompreensível a não ser pelas pequenas bolhas que entendem do que se trata. E não é o caso de nos fecharmos em guetos. Nós temos que nos comunicar com toda a população desse país, e não só com a população que mais imediatamente nos interessa."

Militância está politizada e conhece seus direitos

"A comunidade LGBT mudou muito e para melhor. No passado, muitas vezes escrevi artigos criticando a falta ou a baixa consciência política desse grupo. Mas não posso falar mais isso. Há um envolvimento político e, sobretudo, a consciência de que tenho direito ao meu desejo, de que eu sou dono ou dona do meu corpo. O que me encanta é como a comunidade está muito, muitíssimo mais preparada.

Eu nunca ouvia ninguém da comunidade homossexual fora do grupo Somos falar dos seus direitos. Hoje não precisa nem ser gay para falar do assunto. Entrou em um embate tão intenso que você encontra na internet jovens, homossexuais, uma quantidade enorme blogueiros, videomakers e formadores de opinião falando de uma maneira muito precisa e discutindo situações do seu entorno com uma acuidade que fico de boca aberta e cheio de felicidade, porque acompanhei essa mudança."

Mortes de travestis e trans: "Tragédia perdura há muito tempo"

"É fundamental analisarmos toda a questão transgênera não apenas do ponto de vista conceitual mas também do social. Nossas travestis ainda estão, assim como décadas atrás, marginalizadas na sociedade. São botadas para fora de casa aos 13 anos, têm que se prostituir, acabam se drogando e continuam à margem desse país, como se não existissem

Isso é uma tragédia que já perdura há muito tempo e para a qual o país ainda não despertou. É tão importante e severa como outras que já conseguimos encarar, como é o caso da violência contra a mulher.

É muito bonito ficar analisando a questão da identidade de gênero na teoria, traz à tona uma discussão de uma maneira deslumbrante. Mas é um problema que deve ser enfrentado também socialmente. No jornal O Lampião da Esquina [primeira publicação LGBT do país, fundada em 1978, do qual Trevisan fazia parte], a gente denunciava a perseguição que travestis sofriam pela polícia, os assassinatos, a crueldade exercida contra elas. Infelizmente, vemos exatamente essas mesmas coisas acontecendo com elas até hoje."

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