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Youtuber ajuda brasileiras a escapar de golpes e cárcere privado na Turquia

Daniele Boggione, a Danny, youtuber brasileira na Turquia - Reprodução/YouTube
Daniele Boggione, a Danny, youtuber brasileira na Turquia Imagem: Reprodução/YouTube

Julia Flores

De Universa

02/06/2020 04h00

Quem acompanha o canal "SobreVivendo na Turquia" sabe em que tom a autora, Daniele Boggione, costuma conduzir as conversas. "Você é uma besta quadrada que não sabe o que está fazendo com a sua vida", diz em um dos vídeos.

Vivendo no país que faz fronteira entre Europa e Ásia há 20 anos, a mineira produz conteúdo para alertar e ajudar outras brasileiras que mantêm relacionamentos com homens do Oriente Médio a lidar com as diferenças culturais e, principalmente, a não cair em golpes.

Do começo do canal até hoje, Danny estima ter ajudado milhares de mulheres. Ela conta que a ideia surgiu depois de sua separação — Danny foi casada por cerca de 10 anos com um turco e, segundo a própria, o relacionamento não deu certo por causa de algumas "divergências irreconciliáveis". Após muitas brasileiras pedirem sua ajuda em questões complicadas, como a manutenção da guarda dos filhos, ela decidiu criar o "Sobrevivendo na Turquia".

"Com o tempo, passei a receber e-mails de mulheres vítimas de abuso, expressando o desejo de se libertar. Mulheres muito fragilizadas, sem reservas econômicas, educacionais ou emocionais. Muitas sem perspectiva de 'escape' dos relacionamentos abusivos, já que a maioria é impedida de trabalhar pelos parceiros ou de ter alguma renda particular", conta.

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Imagem: Reprodução/YouTube

"Então formei um time de advogadas, psicólogas e assistentes sociais que trabalha com essas mulheres gratuitamente e sigilosamente, até que elas consigam se libertar — quando conseguem. Em casos mais graves, como de cárceres privados na Turquia, se necessário, tenho o apoio da polícia turca, que sempre foi excelente conosco", conta para Universa.

As séries da Dannyflix

Atualmente, o canal de Danny tem mais de 220 mil inscritos e muitas fãs. Através de referências de novelas da Globo (como "O Clone", por exemplo), a influencer explica a sociedade árabe de um jeito criativo e didático.

Em cada vídeo, Daniele compartilha depoimentos que recebe das seguidoras via inbox ou no e-mail — com histórias e personagens que mais parecem ter sido retirados de Hollywood, o canal ganhou até o apelido de "DannyFlix".

Apesar de tudo, Daniele deixa claro que ama a Turquia, onde ainda mora, e não se imagina vivendo longe de lá. Atualmente é casada com um inglês. Os dois vivem em Ancara com o filho de 13 anos do primeiro casamento da youtuber.

Os vários tipos de golpes

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Imagem: Reprodução/YouTube

Danny costuma diferenciar os crimes entre presenciais e online. Ela ajuda nos dois. Os golpes virtuais são previsíveis: homens com perfis falsos mentem ser ricos para atrair as vítimas até que recebem nudes e informações sensíveis e chantageiam as mulheres com esse conteúdo. Inventam ser soldados presos por terroristas e pedem uma quantia em dinheiro para pagar o resgate.

Tem também homens pobres que vivem em zonas politicamente instáveis e buscam um "passaporte" para deixar a região — quando chegam ao Brasil, se tornam violentos e abusivos com as novas esposas.

Um tipo de golpe, em específico, é tão curioso que Danny resolveu apelidá-lo de "golpe do amor: versão tesouro em Guarulhos". Nesse caso, depois de algum tempo de romance online, o homem diz que enviou um presente para a vítima mas, por causa da Receita Federal, o agrado ficou preso no aeroporto. Para conseguir que o objeto seja liberado, eles pedem o empréstimo de uma quantia em dinheiro — que, depois, não é devolvida. Inocentes, muitas mulheres fazem isso sem questionar.

Já a lista de casos presenciais tem crimes graves, que vão de abuso doméstico a tráfico humano e cárcere privado. Neste último, Danny conta que a mulher é trancada dentro de casa e monitorada pelo marido e familiares dele. Muitas perdem o passaporte e nem chip de telefone têm.

Quarentena piora cenário

Danny print 2 - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Print de conversa de brasileira pedindo ajuda para Danny
Imagem: Arquivo Pessoal

Depois de alguns dias de pandemia, as denúncias aumentaram tanto que Danny decidiu criar o quadro "Quarentena da Fuleiragem". Com o lockdown, golpistas e vítimas passam mais tempo online. A situação também ficou mais complicada para mulheres em cárcere privado, que ficam mais tempo em contato com os criminosos.

Em abril, Danny ajudou uma brasileira a escapar de uma situação assim. A jovem socorrida tinha 20 anos e era de classe média alta, que conheceu o marido turco na Rússia, onde estudava. Apaixonada, ela largou tudo e se mudou para a Turquia, onde era mantida em cárcere havia meses pelo homem e pela sogra. Não tinha chip para ligações e conseguiu falar com Danny pelo Instagram.

Antes de entrar em contato com a youtuber, a brasileira já tinha tentado fugir, mas foi pega pelo marido e ficou dois dias sem água nem comida, como punição.

"Nesses casos de cárcere privado matrimonial, com o agressor presente, preciso agir com muita calma e muita frieza, porque é altamente perigoso para a vítima. Ficou mais difícil de ajudar, porque o marido/agressor estava mais em casa que de costume devido ao lockdown, portanto nossa comunicação era muito escassa", relata ela.

"Pedia para ela entrar no banheiro e ligar a torneira, para podermos nos falar e colocar nosso plano em ação. Eu tinha no máximo dois minutos. É um jogo de nervos e tento acalmar a vítima o máximo possível, porque preciso que ela trabalhe comigo para poder dar certo", diz a influencer. Segundo Danny, a jovem conseguiu escapar e já voltou para o Brasil, onde está com a família. A vítima não entrou em contato com a embaixada brasileira na Turquia, que diz não ter consciência do fato.

Por que as brasileiras?

O trabalho da youtuber abrange, principalmente, o Oriente Médio, alguns países da Ásia e a região do norte da África. Daniele diz que, por fazer um trabalho de alerta e não algo presencial, não sente medo nem recebe ameaças, mas conta que se emociona com cada relato que recebe.

Chora quando a história acaba bem, chora quando acaba mal. Ela já teve a oportunidade de conversar com alguns golpistas e um deles disse (em português!) que "as brasileiras são românticas e acreditam em qualquer coisa que dizemos. São muito fáceis de enganar. São carentes de amor e eu dou o que elas querem — palavras doces e companhia [online]. Eu acho justo".

Não existe perfil de vítima para o crime. Danny já recebeu relatos de brasileiras que mal sabiam escrever, mas também de médicas e juízas. Em comum, elas costumam ter carência afetiva e inocência. A idade também não é padrão e a experiência de mulheres mais velhas de nada serve quando elas se apaixonam por esses criminosos.

Por isso Danny tem outro quadro que se chama "Tias fogosas", em que lê relatos de vítimas com mais idade. "Aqui não existe 'namoro' como conhecemos na cultura ocidental, muito menos entre mulheres mais maduras com homens mais novos", conta ela.

"O alerta do 'Tias Fogosas' explica que o Oriente Médio é uma região com regras sociais um pouco mais rígidas, e o namoro que se inicia online é mal visto e utilizado praticamente só para o golpe. Essa é a cultura local, milenar, e não sou eu ou elas que vão mudar isso. Quem teima em desafiar ou acha-se uma 'exceção à regra' acaba pagando um preço muito alto."

As histórias nem sempre acabam bem e algumas vezes a própria Daniele é hostilizada pelas mulheres que tenta ajudar. "Não espero retribuição pelo meu trabalho. Nem das vítimas ou de ninguém. A maior retribuição para mim é quando consigo evitar uma tragédia, como impedir alguém de embarcar, literalmente, para um provável cárcere ou outra relação claramente perigosa", diz a mineira, que se considera feminista "no sentido raiz da palavra, sem legenda nem pauta partidária".

Como se prevenir de golpes online

Mesmo que realize um trabalho independente, muitas vezes sem ajuda do Itamaraty, a influencer apela para que o governo realize mais campanhas de conscientização em nível nacional e internacional sobre relacionamentos online e os riscos que as mulheres se submetem ao se envolver em um namoro intercultural.

Ela alerta para os cuidados que as vítimas precisam ter na internet: "As informações pessoais que você divulga ou grupos que você participa são palcos de ação para o golpista. Ele vai montar uma personagem à altura dos seus gostos e desgostos e irá se aproximar de você com um pedido de amizade, como quem não quer nada, mas já com um roteiro pronto para aplicar o golpe".

Danny também deixa um recado para as mulheres que estão em um relacionamento com homens que conheceram nas redes sociais: "Nunca subestime os riscos de estar online. Criminosos virtuais são ótimos investigadores e ainda melhores atores. Cabe a você ser mais astuta e menos disponível às investidas. Menos fígado e mais cérebro."

Resposta da Embaixada

Questionada sobre o aumento da ocorrência de casos de cárcere privado ou outros golpes online durante a pandemia, a embaixada do Brasil em Ancara disse que não há como ter certeza do fato.

"As fronteiras estão fechadas há dois meses. Os casos que porventura aconteçam deviam estar acontecendo antes. Ou será que alguém vivia uma vida normal antes e por causa da quarentena começou a apanhar? Pode ser? Pode, mas não dá para saber com certeza", disse Marcio Eduardo Gayoso, chefe do setor consular, para Universa.

Em nota, a embaixada também reforçou que existem várias cartilhas sobre o assunto nos sites do Ministério da Justiça e um guia do Ministério das Relações Exteriores. Segundo Marcio, a estimativa é a de que existam de 10 a 15 casos de cárcere privado por ano envolvendo brasileiras na Turquia, um número bem mais baixo do que relatados em países como a Alemanha, Itália e Espanha.

O Itamaraty, por sua vez, declarou em nota que "a rede consular brasileira não registrou, até o momento, aumento de violência domestica. Os postos no exterior estão atentos à questão e à disposição dos nacionais brasileiros para prestar assistência consular sempre que necessário".

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