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Uma taça de vinho para aguentar: isolamento pode levar ao alcoolismo?

Beber durante a pandemia tem sido uma escolha de muitas pessoas: quais são os riscos do hábito? - iStock
Beber durante a pandemia tem sido uma escolha de muitas pessoas: quais são os riscos do hábito? Imagem: iStock

Cristiane Capuchinho

Colaboração para Universa

11/04/2020 14h53

Seguimos com boa parte da população confinada em casa, tentando se proteger do inimigo invisível que mata milhares de pessoas e afunda um pouco a economia a cada dia. A pandemia do coronavírus impôs um cenário de medo e incerteza sem prazo para terminar. Some a esse cenário o tédio de não pode sair e pronto: tomar uma cervejinha ou uma(s) taça(s) de vinho no final do dia surge como uma possibilidade de relaxar a mente e fugir da realidade no meio dessa loucura.

Mas como saber os limites saudáveis desse hábito?

Alcoolismo e quarentena

"Em um primeiro momento parece que o álcool ajuda a tranquilizar, pois afeta o sistema nervoso central. Mas não se pode esquecer que causa dependência e também reduz a imunidade", sublinha Zila Sanchez, professora de medicina preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e pesquisadora do consumo de álcool.

Não é uma taça de vinho ou uma cerveja aqui e ali que farão de você um alcoólatra, dizem os médicos. No entanto, criar uma rotina que envolve álcool - seja para acompanhar as refeições seja uma cervejinha ao lado do computador para facilitar o trabalho — é um comportamento de risco.

Apesar da sensação de relaxamento proporcionada, não se pode perder de vista que o álcool é uma substância tóxica e viciante para o corpo, e quanto maior a quantidade e a frequência em que se bebe, maiores os problemas.

"Há uma adaptação neuronal ao álcool que acontece quando bebemos com frequência. O que você achava que era só um hábito no momento de exceção, quando terminar a quarentena, virou físico. Você fez com que seu corpo se acostumasse biologicamente, e ele vai sentir alguma falta, que varia de pessoa para pessoa e conforme a quantidade", explica Sanchez.

Todo dia ela não faz tudo sempre igual

As associações médicas indicam como limite máximo de consumo a quantidade de álcool que o corpo é capaz de metabolizar em 24 horas: uma dose de álcool por dia, para mulheres, e duas doses por dia, para homens.

O tamanho desse drinque depende da relação entre o teor alcoólico e o volume da bebida. Para facilitar a referência, uma dose seria equivalente a uma lata de cerveja (330 ml), uma taça de vinho (100 ml) ou um shot de um destilado (25 ml).

Um dia de bebedeira queima os créditos da semana. Mulheres não devem beber mais do que sete doses semanalmente, e homens, 14. Ou seja, para uma mulher, beber uma garrafa de vinho ao longo de dois dias com happy hours virtuais significa cruzar a linha do razoável.

Além da quantidade, a frequência importa. É importante deixar dois dias por semana livres de álcool, enfatiza o endocrinologista Francisco Tostes, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia: "beber todo dia é sempre uma preocupação, independentemente de quarentena ou não".

Uma taça por dia não faz bem para a saúde, é mito

A ideia de que uma taça de vinho tinto por dia faz bem para a saúde foi desbancada por estudos recentes. Apesar de haver indicações de que o vinho tinto em quantidades moderadas tenha efeito protetor do coração, os prejuízos para outras partes do corpo ligados ao consumo de álcool fazem com que nenhuma dose de álcool seja considerada segura para a saúde.

"Ninguém precisa beber, nem em pequenas doses", crava Luiz Renato Carazzai, chefe de psiquiatria do Hospital das Clínicas da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Um estudo epidemiológico publicado em 2018 na revista Lancet, e considerado a pesquisa mais abrangente feita sobre o assunto, mostrou que mesmo quem bebe moderadamente aumenta seu risco de desenvolver câncer, sobretudo na boca, esôfago, laringe, bexiga e estômago.

O uso de álcool também é relacionado a doenças no fígado, a hipertensão, derrames, problemas de saúde mental, perda de memória e diminuição da fertilidade.

Para quem já tem alguma doença crônica, como cardíacas, doenças hepáticas, gastrite e refluxo, o consumo frequente de álcool aumenta mais os riscos.

O cuidado é especialmente importante para quem tem diabetes -9% da população brasileira—, o álcool tem um metabolismo diferenciado no fígado e seu consumo é acompanhado na sequência por uma "queda brusca nos níveis de glicose no sangue (hipoglicemia)", alerta a nutricionista Silvia Ramos, coordenadora de nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Em meio a pandemia, os quatro especialistas reforçam que o consumo frequente de álcool reduz a imunidade, deixando assim a pessoa mais vulnerável em caso de contágio do coronavírus.

Escapar sem se perder

Para boa parte dos 46 milhões de brasileiros que bebe esporadicamente, um drinque durante uma festa por teleconferência ou para acompanhar o jantar não deve causar dependência. Mas, em tempos normais, o álcool já é um problema para 2,3 milhões de pessoas no Brasil, segundo pesquisa da Fiocruz.

Se você está buscando refúgio para se livrar do estresse e da ansiedade, é importante ter outras soluções. Assistir a filmes ou séries, ler um livro, fazer uma conversa (mesmo que à distância) com a família ou amigos, descobrir uma nova receita ou fazer qualquer coisa que lhe dê prazer deveria ajudar.

Se o alívio vem só com a bebida ou se está difícil ficar sem, é hora de ligar o alerta e buscar ajudar.

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