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Débora Lamm sobre sua mulher: "Em época de caça às bruxas, falamos de amor"

Debora Lamm, a Miranda de Amor de Mãe - Divulgação/TV Globo
Debora Lamm, a Miranda de Amor de Mãe Imagem: Divulgação/TV Globo

Manuela Aquino

Colaboração para Universa

14/03/2020 04h00

Em uma novela das nove com grande repercussão, é comum que nem todos os personagens se destacam. Mas tem aqueles que... "bum!": estouram, ganham popularidade e, consequentemente, mais espaço na trama. Foi o que aconteceu com o casal Miranda e Matias de "Amor de Mãe", interpretado por Débora Lamm e Milhen Cortaz.

Depois de uma traição do marido, a dona de casa, feita com muita delicadeza pela atriz de 41 anos, pediu a ele um vale-night. Débora passou a ser parada nas ruas por pessoas que gostaram da atitude e queriam saber mais. "Compus a personagem, inclusive a caracterização, de forma que ela parecesse uma amiga, alguém que você conhece ou que poderia ser você, uma pessoa comum com os mesmos dilemas de todos", afirma ela.

A infidelidade, no caso da personagem, foi capaz de uma transformação em sua vida: Miranda acabou encontrando outras oportunidades de affair e ainda passou a buscar sua independência financeira. Débora conta que levou muito de seu casamento de 10 anos, com a diretora teatral Inez Viana, para a personagem no que diz respeito àquela ideia de regar a planta todo dia e de haver diálogos e acordos. Neste papo com Universa, a atriz fala sobre o sucesso na novela, o casamento e padrões de beleza.

A que você credita o sucesso da Miranda?
Ela e o Matias representam a realidade de casais que estão juntos há muito tempo. No caso dela, por mais de 15 anos. Sei como é, sou casada há 15 anos e meu casamento vai muito bem, mas é preciso aquele investimento diário. No caso da Miranda e do Matias, chegou uma hora em que ela percebeu que ele não era o príncipe que ela sempre achou. Aí entende o quanto o universo masculino não está preparado para os mesmos direitos mesmo quando a pessoa está errada. Ele não quer perder certos privilégios e ela se dá conta de que ele não é um cara 100%, que tem suas limitações. Ela tentou jogar de igual para igual quando propôs o vale-night, não foi vingança.

Débora Lamm em cena de "Amor de Mãe" - Divulgação/TV Globo
Débora Lamm em cena de "Amor de Mãe"
Imagem: Divulgação/TV Globo

Com uma mulher como a Miranda, que não é independente financeiramente, essa conversa pode não ser de igual para igual por o cara achar que manda na relação?
Muito provavelmente a questão de não trabalhar a deixava acomodada na relação. A traição fez com que ela pudesse rever isso também, sair de uma situação de dependência. Ela coloca para fora os talentos que anulou no casamento. Acabou se tornando uma personagem que poderia ser sua amiga que trouxe discussões urgentes e fundamentais, mas com leveza.

Ela é uma feminista sem saber?
Ela muito consciente da condição dela e de seus direitos como mulher. Os argumentos dela sobre igualdade deixam o outro sem reação. O vocabulário simples e direto ajudou as mulheres que assistem a perceber que ela teve uma atitude de igual para igual -- e que a reação dele foi machista. É sobre perda de privilégios, pois o privilegiado não quer abrir mão.

As discussões sobre o movimento feminista passam por um momento de visibilidade. Como você vê isso?
Hoje, a mulher que souber exatamente o que significa o feminismo, que não é o contrário do machismo, que é por direitos iguais, vai se declarar feminista. O conceito básico do que significa o movimento, do que o identifica precisa ser falado cada vez mais. Pois a essência da mulher é feminista, mesmo que ainda ela não entenda o que é.

Você é parada na rua por causa do vale-night. Acha que é possível um relacionamento em que seja liberado ficar com uma pessoa de vez em quando?
Isso depende de ser algo acordado ou não, da importância que isso teria na relação e também se as pessoas envolvidas são capazes de lidar, de suportar isso. Também tem que ver a relação de cada um com a questão da monogamia, se encaram um amor mais plural como algo libertador. Tudo tem que ser conversado e vai de casal para casal. Se houver um acordo, sem julgamento da minha parte, quem sou eu. O amor que vocês escolheram para viver compete somente a vocês.

Débora Lamm, Tais Araujo e Clarissa Kiste: irmãs na novela - Reprodução
Débora Lamm, Tais Araujo e Clarissa Kiste: irmãs na novela
Imagem: Reprodução

Suas irmãs na trama formam uma rede de apoio. Qual a importância de ter isso na vida, principalmente com mulheres?
Precisa existir, e gosto que a gente deu um nome para isso. Quando você nomeia algo, parece que fica mais vivo e real, mais fácil de saber que aquilo existe e dá uma importância para aquilo. Eu tenho essa rede de apoio na família: minhas duas irmãs são muito próximas. Mas a rede vai além delas: tenho amizades que são fundamentais na minha caminhada diária, um outro tipo de casamento.

Você está casada há dez anos com a Inez Viana, diretora e atriz, e ano passado vocês fizeram uma peça para comemorar a relação. Como foi o encontro de vocês?
Eu e a Inez nos conhecemos no teatro, mas nunca contracenamos na vida antes da peça. Mesmo trabalhando juntas na minha companhia de teatro, a OmondÉ, nunca havíamos dividido o palco, porque ela era diretora. Quando completamos dez anos, por coincidência, ganhamos um edital. Passamos por um momento muito delicado da cultura, uma caça às bruxas, e aí resolvemos falar de amor. Em um momento tão violento tínhamos que trazer algo que não é aceito por todos -- ser um casal de mulheres -- e aumentar esse debate. Foi bom, porque o debate está cada vez melhor, as pessoas se posicionam e há um movimento impossível de ser freado. Um movimento de liberdade e de diversas formas de casamento. Nosso encontro foi no teatro e foi lá que comemoramos.

Como fazer para um casamento durar dez anos com as duas cheias de projetos e rotinas puxadas?
Trabalhamos muito, muito mesmo, mas há duas coisas fundamentais que seguram tudo: confiança e admiração. A gente ri muito juntas. É aquilo de cada dia ter que acordar e regar a plantinha, um cultivo diário. Ralo pra caramba, mas tenho que ter tempo para me dedicar à minha relação. Tem que estar a fim de ficar junto. Existem muitas coisas legais na vida a dois. Amo ir ao teatro ou ao cinema com a Inez. É tão lindo e tão legal ter com quem conversar depois. A vida fica ampla a quatro olhos, o outro vira um espelho do mundo. A gente nasce e morre sozinha, pô, a vida faz muito mais sentido quando é compartilhada.

Muitos atores estão se sentindo mais à vontade para falar que são gays. Você acha que há uma maior liberdade?
Eu particularmente não falo de mim por aí. Nunca falei nem agora nem em outros relacionamentos com mulheres e homens. Nunca senti essa necessidade. Mas acho que toda essa violência e preconceito que vêm sendo praticados fez com que as pessoas se posicionassem. Isso faz com que tirem os relacionamentos de um lugar excêntrico. Qualquer tipo de relacionamento e sentimento que seja próspero precisa ser respeitado. Isso é simples e óbvio. Precisamos tratar o que é fundamental, que é uma existência respeitosa. Quem bom que a capa de revista dá espaço para isso. Não tem que limitar o amor.

As pessoas estão ainda muito preocupadas com que os outros fazem na cama?
Estão. E isso não faz sentido porque é algo muito particular. O jeito da pessoa amar, se ela é feliz, não importa. Ninguém tem o direito de achar que pode dar permissão para que o outro viva o seu amor. Isso é um absurdo.

Como você enxerga essa padronização do corpo e do rosto da mulher? Está faltando falar celebrar a diversidade da beleza feminina?
A questão é que as mulheres estão cada vez mais parecidas umas com as outras. E temos que ficar atentas a isso, pois é um reflexo forte do machismo. Essa cobrança por beleza é muito mais tranquila para o homem que envelhece e "fica mais bonito". As mulheres acabam ficando reféns de uma forma de beleza. Mas eu queria ir além nesta questão para falar sobre nosso ofício, sobre a arte. A gente que trabalha na televisão é muito visto, e quem está do outro lado precisa ser representado naquilo que está vendo. Quanto mais pessoas diversas possamos ter na televisão, quem está do outro lado vai se sentir mais confortável e representado. Arte é sobre isso: o encontro de quem está fazendo com quem está assistindo. Fazer arte é debater o mundo. Tem uma frase que eu amo: "Se a gente der sorte, a gente muda o mundo".

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