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Mãe com sintoma psicótico: "Pensei em tirar minha vida e de meu filho"

Depressão pós-parto  - iStock
Depressão pós-parto Imagem: iStock

Luiza Souto

De Universa

07/02/2020 04h00Atualizada em 11/02/2020 09h39

Nilcea*, 35 anos, teve seu primeiro filho há quatro. Embora a gravidez tenha sido esperada e planejada por ela e pelo marido, com quem vive há 10 anos, ela enfrenta até hoje uma severa depressão pós-parto, com sintomas psicóticos. E tenta, nas palavras dela, se esforçar para ter uma relação saudável com a criança.

Os sentimentos começaram a aparecer no sétimo mês de gestação, junto com o medo de que a vida mudaria completamente, incluindo o afastamento do trabalho — ela é comerciante.

Nilcea fez aulas de dança e seguiu a dieta à risca para ter um parto humanizado, mas a experiência foi frustrante, porque ela acabou passando por uma episiotomia, quando é preciso ampliar o canal de parto.

"Isso me abalou demais. E quando olhei para meu filho, falei: 'Meu Deus do céu, esse neném tem muito pelo na cara'. Fiquei revoltada porque ela era muito feia", conta.

Em casa após três dias do parto, veio o que ela chama de "pesadelo". "Não sei explicar, mas não quis meu filho no meu quarto. Só falava o quanto o neném parecia um parasita para mim, que sugava a minha alma", confessa, corajosa. "A tristeza tomou conta de mim e 26 dias após o parto voltei para o hospital, com febre, magra. Dizia para doarem o bebê ou deixarem na pracinha, que não me importava. Foi quando me mandaram para tratamento psiquiátrico."

Acompanhamento 24 horas

Ela foi diagnosticada com episódio depressivo grave, com sintomas psicóticos. A recomendação médica foi acompanhamento 24 horas devido a risco de injúria materno e neonatal. Ou seja: ela podia se machucar ou machucar seu filho. No desespero, tentou entregar a criança para a madrinha e, a partir desse episódio, sua mãe, o marido e essa amiga revezaram-se para vigiá-la.

"Esquecia meu filho, deixava ele largado no canto, sentia raiva. Um dia, fugi de carro porque pensei em tirar a vida dos dois — mas não tentei de fato. Quando ele chorava, dizia que colocaria um travesseiro na cabeça dele para ninguém ouvir, ou dar um chacoalhão. Uma vez, ele apareceu com um galo na cabeça e não soube dizer a causa", relata.

Como parte da terapia, Nilcea passou a escrever seus sentimentos em grupos de ajuda na internet, mas foi julgada e bloqueada, inclusive por parentes, que chamavam-na de "cruel", entre outros adjetivos. Também recebeu visitas de assistentes sociais, mas desenvolveu medo de sequestro e passou a se trancar em casa.

Passados quatro anos, ela diz que hoje se sente melhor e segue tomando quatro diferentes medicamentos. O menino, hoje com 4 anos, tem preferência por ficar com o pai.

"Eu posso dizer que hoje me esforço a ter uma relação saudável com meu filho. Sinto culpa por não ter capacidade de amar um ser que todo o mundo praticamente te obriga a amar."

O que é a psicose pós-parto?

O período do parto até o resguardo — ou puerpério — é considerado de risco para a saúde mental da mulher devido às diversas mudanças vividas por ela. Dependendo da sua estrutura, a mãe pode desenvolver a depressão pós-parto (DPP), doença que acomete até 20% delas.

A doença pode desencadear mesmo em quem não tem histórico familiar. E, sem cuidado adequado, o tratamento pode levar a vida inteira, conforme atenta a psicanalista Vera Iaconelli. Entre os sintomas estão irritabilidade, mudanças bruscas de humor e tristeza profunda.

Há ainda casos mais graves, e raros, como a psicose pós-parto, que acomete 0,2% das mães. Nela, há perda do senso de realidade, delírios e alucinações, conforme o diagnóstico de Nilcea. Em alguns casos, especialistas podem optar pelo afastamento da mãe e do filho durante o tratamento, para segurança dos dois.

Há também a recomendação de não amamentar a criança, principalmente por causa do uso de remédios. Mas, de novo, é o especialista que precisa avaliar o caso e decidir o quanto essa experiência pode ser traumática para a mãe, explica Vera.

O ideal é o rápido diagnóstico e a formação de uma rede de apoio, apontada como essencial por Nilcea para não colocar em prática pensamentos contra sua família.

"A mulher não pode ficar sozinha, em nenhuma circunstância, de saúde ou doença, no cuidado com o bebê. Isso é uma aberração que a gente só vai ver em situações extremas. O bebê é para ser criado em equipe: família e estado. Ela ficar sozinha já é de se adoecer", frisa Vera, que é coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal.

*A personagem pediu para preservar a identidade e a da família por sua segurança

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