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Elas que lutem: o que aprendi em um curso de defesa pessoal para mulheres

No chão: no curso, aprendi golpes e movimentos, mas o principal é o controle emocional - Marianna Oliveira/AKM Comunicação/Divulgação
No chão: no curso, aprendi golpes e movimentos, mas o principal é o controle emocional Imagem: Marianna Oliveira/AKM Comunicação/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

18/12/2019 04h00

Uma amiga que mora no centro de São Paulo me fez franzir a testa quando contou que anda sozinha, de madrugada, por ruas em que eu, apavorada que sou, não passo nem perto à noite. Perguntei se ela já havia sido roubada, assaltada ou sofrido violência sexual. "Não", ela me respondeu, calmamente. "Acho que saber me defender afugenta um pouco. É outra postura."

A tal amiga é faixa vermelha de kung fu (o quarto nível de sete). Tem 14 centímetros e 17 kg a menos do que eu. Mas ganha, de longe, em coragem. Claro que não é garantia de segurança, e a amiga sabe bem do perigo que corre. Mas faz algum sentido. De alguma maneira, isso transparece.

Fiquei com o que ela me disse na cabeça e decidi experimentar um curso de defesa pessoal para mulheres. Em um dos encontros, ouvi uma das colegas contando que deu um empurrão no namorado quando ele levantou a voz pra ela e lhe disse, certeira: "Pode parar que agora eu sei me defender".

Encaixei uma história na outra. Elas resumem o maior ensinamento do que aprendi nas aulas até agora: mais do que técnicas e golpes, é preciso saber lidar com as próprias emoções quando elas emergem em um momento de conflito. Mas como fazer isso?

Na hora do combate, tentamos nos defender em uma simulação de ataque por um minuto - Amanda Paulo/AKM Comunicação
Na hora do combate, tentamos nos defender em uma simulação de ataque por um minuto
Imagem: Amanda Paulo/AKM Comunicação

O projeto Segunda Força, criado pelo tenente da Polícia Militar Henrique Velozo e voltado à prevenção de crimes contra mulheres, tenta dar a resposta para essa pergunta. Com duração de quatro sábados, com oito horas cada, as aulas começaram no dia 30 de novembro e vão até o sábado (21). Faltei a primeira e participei da segunda e da terceira, nos dias 7 e 14 de dezembro. O curso é gratuito e realizado em parceria com a Defenda PM (Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar), na Escola de Educação Física da Polícia Militar.

Cerca de dez alunas participaram dessa primeira edição. Mulheres na faixa dos 30 anos, interessadas em aprender a se defender de agressões nas ruas e em ambiente doméstico — pelo menos duas relataram ter vivido uma situação de ameaça ou abuso.

Especialista em defesa pessoal e em proteção de gênero e violência doméstica, Velozo, com 1,90m e 94kg, soube tocar nos meus pontos frágeis: morro de medo de ser atacada. Diante de uma situação de perigo, minha reação é sair correndo. No máximo, golpearia o agressor daquele jeito destrambelhado que lembra o Lango-Lango. "Mais do que treinar o corpo, é preciso condicionar a mente para lidar com as situações. Não adianta ter o conhecimento técnico se o emocional estiver abalado. No momento de utilizar as técnicas em uma situação real, a sua mente pode te sabotar", diz Velozo.

Abaixo, um pouco mais sobre o que aprendi nos encontros.

Inteligência emocional ocupa metade das aulas

Quando cheguei para meu primeiro dia de aula pensei que já fosse começar no tatame. Mas não. O ambiente é uma sala com carteiras posicionadas lado a lado, e o professor apresenta os conceitos teóricos em uma apresentação do Power Point. Metade das oito horas de curso foram dedicadas à aula teórica sobre inteligência emocional, autossabotagem, controle psicológico e importância do autoconhecimento: você precisa saber o que sente e como age em uma situação de tensão para conseguir ter controle sobre sua reação.

Falamos, as alunas, sobre nossas reações e se já havíamos sido atacadas. Uma das minhas colegas conta que presenciou um caso de violência doméstica na família. Não quis se aprofundar no assunto, mas deixou evidente o trauma de saber que uma mulher próxima a ela foi espancada. Na minha vez de participar, comentei que tenho consciência de que sou forte, mas que não sei usar a minha força. Por quê?

Basicamente, por causa dos "sequestros emocionais". Segundo Velozo, é uma falha no controle do cérebro que desencadeia reações rápidas, impulsivas e "inapropriadas". "Cada uma de vocês precisa identificar quais são os gatilhos que vão desencadear o sequestro emocional. Se é uma ansiedade, uma situação específica. Por que sentir medo, tudo bem, mas a ansiedade exagerada te paralisa e não te deixa se defender", explica.

No combate, quanto menos ansiedade e desespero e mais sangue frio, melhor. E isso eu aprendi tomando algumas porradas no tatame.

No segundo encontro, o mesmo esquema se repete: aula teórica sobre ansiedade e autocontrole, conversa e, depois, aulas práticas.

Aprendendo a dar a cabeçada certa, com o topo da cabeça e no nariz do agressor, consegui derrubar o boneco - Amanda Paulo/AKM Comunicação/Divulgação
Aprendendo a dar a cabeçada certa, com o topo da cabeça e no nariz do agressor, consegui derrubar o boneco
Imagem: Amanda Paulo/AKM Comunicação/Divulgação

No tatame

A parte prática é animada. Vamos para uma sala de tamanho médio, em que as dez alunas conseguem se movimentar lado a lado sem bater umas nas outras. Aprendemos golpes básicos de artes marciais, especialidade não apenas de Velozo, mas das outras duas instrutoras do curso, as tenentes Camila Fernandes e Ana Rejani.

Há duas máximas que os ouço repetir: na defesa pessoal não há regras, mas não se trata de violência gratuita. Se pensarmos que estamos lidando com situações hipotéticas em que um homem ataca uma mulher, há grandes chances de o agressor ser maior do que a vítima. Por isso, o objetivo não é começar uma luta. "Você vai se defender. Vai atacá-lo para conseguir se desvencilhar e, depois, corre."

Se te seguram pelo braço, a técnica é a da "carona": com o dedão pra cima, puxe o braço no sentido do polegar da mão que te segura - Amanda Paulo/AKM Comunicação
Se te seguram pelo braço, a técnica é a da "carona": com o dedão pra cima, puxe o braço no sentido do polegar da mão que te segura
Imagem: Amanda Paulo/AKM Comunicação

Esse ataque precisa ser certeiro. A ideia é que pensemos antes de agir. Mas essa é uma habilidade que requer treino, muito treino. Mais do que quatro encontros de oitos horas. Precisamos praticar essa capacidade de raciocínio em situações de tensão para poder localizar, quase que automaticamente, uma parte vulnerável do corpo da outra pessoa. Aprendo, usando um boneco, a dar uma "mãozada" no nariz do agressor —como um soco, mas com a parte de dentro da mão espalmada e, por isso, menos dolorido para quem bate—, a dar cabeçada, que deve ser com o topo da cabeça em direção ao nariz, a usar o que se chama de "faca da mão" (com a mão reta, o lado contrário ao do polegar) para atingir a traqueia da pessoa, e a me desvencilhar de um aperto no pulso e de uma puxada de cabelo.

Amanda Paulo/AKM Comunicação/Divulgação
Imagem: Amanda Paulo/AKM Comunicação/Divulgação

Também aprendo técnicas para dar uma cotovelada se um homem me agredir sexualmente no metrô ou no ônibus. Uma que pode servir para várias situações: se ele estiver ao seu lado, gire o tronco para acertar o rosto dele com o seu cotovelo. Uma caneta também pode ser usada para se defender. "Se fura papel, imagina nosso corpo", diz Velozo, após dar uma canetada em um papelão com um desenho de um perfil de um homem.

"Tudo pode virar uma arma", diz Velozo, ao mostrar o que a mulher pode fazer em uma simulação de encoxada (crime de importunação sexual) no transporte público: empurrar a cabeça do agressor contra a barra de metal usada para se segurar quando estiver de pé no veículo.

Aprendo a dar mata leão e me surpreendo com o quão intuitivo é o golpe — além de rápido: basta uma pressão leve para a minha dupla bater no meu braço pedindo para parar. Somos apresentadas a outras duas técnicas de enforcamento, para o caso do agressor estar em cima da vítima, ambos deitados. Um dos movimentos que acho mais úteis, e que poderia ser usado em uma tentativa de estupro, é o que faz dos braços duas alavancas, causando um estrangulamento ao segurar com força a gola da camiseta. Segundo o tenente, a pessoa apaga em, no máximo, 30 segundos. "Aí é tchau: sai correndo e vai pedir ajuda."

Levanto o braço para fazer uma pergunta: "E se eu exagerar? Se meu golpe for mais grave do que o inicial, do agressor, ou se, pior, for fatal?"

"Legítima defesa", responde Velozo, taxativo. "Você está se defendendo, protegendo a sua integridade física." Em outro momento, ao aprendermos o golpe com a caneta, outra aluna faz uma pergunta parecida. "Nunca vi um processo contra uma mulher que agrediu um homem para se defender. Não existe", diz o tenente. "Você pode até ter que responder na Justiça, mas, ainda assim, tenho certeza que não acontecerá nada. É a sua vida em jogo."

Saldo positivo

Não dá para dizer que aprendi a me defender em duas aulas de curso. Defesa pessoal envolve diversas técnicas e, mais, um treinamento mental que eu ainda não atingi. Mas percebi que posso, sim, aprender a me defender. O professor avisa que o curso é introdutório, e a ideia é que saiamos dele dispostas a treinar alguma luta com mais dedicação.

A evolução de uma aula para outra foi mais de autoconfiança. Se, no primeiro combate com Velozo, um homem muito maior do que eu, ri de nervoso e fiz piada para relaxar, no segundo dia, fui séria, pensando que, ok, vou apanhar, mas vou bater também. Porém, ainda não me arrisco a acompanhar a amiga faixa vermelha de kung fu pelas ruas do centro de São Paulo à noite.

A próxima turma do curso deve ocorrer em março, e as inscrições serão abertas a partir de fevereiro. As informações sobre datas são publicadas na conta de Instagram do projeto Segunda Força.

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