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Violência contra a mulher


No século 19, mulheres modernas tinham arma contra assédio oculta no chapéu

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Imagem: Reprodução

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

28/06/2019 04h00

No final do século 19, quando ainda nem votavam, as mulheres eram obrigadas a se proteger dos homens com o que havia de disponível --o que incluía improvisar como arma de defesa pessoal até um acessório de se usar na cabeça.

No final do século 19, alfinetes de chapéu viraram armas eficazes contra assédio - Divulgação
No final do século 19, alfinetes de chapéu viraram armas eficazes contra assédio
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O alfinete de chapéu, que lembrava uma lança escondida no acessório, era indispensável às "novas mulheres" --jovens feministas, intelectuais e de carreira independente na Europa e nos Estados Unidos que confrontavam as imposições da sociedade machista. Elas estiveram em alta durante a Belle Époque (Bela Época, em francês), que se estendeu do final do século 19, com o final da Guerra Franco-Prussiana, em 1871, até o início da Primeira Guerra, em 1914.

Arma era longa, pontiaguda e pesada

Nessa época, com o surgimento das primeiras revistas femininas, as mulheres também passaram a ter acesso às últimas tendências da moda. Além de vestidos longos, luvas e meias decoradas, os chapéus se popularizaram como itens obrigatórios nas aparições públicas. Eram considerados, assim como as cabeleiras altas e fartas, meios para uma "coroação gloriosa".

"A aba geralmente era grande e voltada para cima e era símbolo de status incorporar plumas e até pássaros inteiros em um chapéu da moda", informam as pesquisadoras e historiadoras Valerie Mendes e Amy de la Haye no livro "A Moda do Século 20".

Além desses enfeites, as mulheres também desfilavam sobre suas cabeças fitas, laçarotes, véus, flores e até frutas artificiais. Tudo era preso por um longo, pontiagudo e pesado alfinete, que traspassava o acessório e ainda se entrelaçava aos cabelos, atados em coque. A peça, que era feita de metal, podia alcançar mais de 30 centímetros de comprimento e ter em uma das extremidades uma cabeça pesada feita de marfim, joias ou pedras encrustadas.

Elas precisavam se defender

Contar com essa "arma" era necessário, pois, mesmo com tantas camadas de roupas (o que prova que vestimenta não tem a ver com assédio), as mulheres eram vulneráveis a ataques dos homens. No livro "Direitos Tardios", Albertina de Oliveira Costa, socióloga e pesquisadora na Fundação Carlos Chagas expõe o relato de uma mulher do século 19: "Percebi o que seus olhos diziam. Ele se aproximou de mim, falando com a voz aveludada. Não havia ninguém por perto na loja e eu sentei em uma cadeira tremendo de medo".

Até mesmo quem deveria defendê-las, como juízes e médicos legistas, demonstravam estar contra essas mulheres. Em sua obra "Crime Sexual: Um Manual de Referência", Caryn E. Neumann, doutora em história e professora da Universidade de Miami, explica que acusar e punir algum homem por assédio ou crime sexual era tão difícil como nos séculos anteriores. "Os homens suspeitavam de mulheres que levavam esse tipo de acusação à Justiça. Algumas autoridades legais insistiam que mulheres acusavam homens de estupro para chantageá-los no casamento, obter dinheiro ou se vingar --e apenas homens serviam em júris no século 19", diz.

Até manual de defesa pessoal explicando como usar os alfinetões foi criado, na época - Divulgação
Até manual de defesa pessoal explicando como usar os alfinetões foi criado, na época
Imagem: Divulgação

As que ousavam se defender por conta própria terminavam expostas nos jornais da época. Em 1903, Leoti Baker estampou o New York World por ter rasgado com seu alfinete os braços de um homem que tentou agarrá-la dentro de uma diligência. "Se as mulheres de Nova York toleram tarados, as do Kansas, não!", disse. Já Sadie Williams, que era de Chicago, em 1898, também usou um alfinete de chapéu para afugentar dois assaltantes num bonde em que estava. "Agarrando seu longo alfinete de chapéu, ela atacou o ladrão mais próximo, que gritou. Então, atingiu o outro no rosto e os dois fugiram", relata o historiador Kerry Segrave no livro "A Ameaça do Alfinete de Chapéu: Mulheres Americanas Armadas e na Moda".Guerra aposentou alfinetes

Mulheres como Leoti e Sadie encorajaram outras a se defenderem e até manuais de defesa pessoal passaram a incorporar os alfinetes de chapéu como armas eficazes. Por parte das sufragistas (mulheres que defendiam o direito feminino de votar), os alfinetes longos e pontudos também foram usados como símbolos de resistência e até contra policiais que tentavam censurá-las durante atos políticos nas ruas.

As sufragistas elegeram os alfinites de chapéu símbolos de resistência ao machismo - Divulgação
As sufragistas elegeram os alfinites de chapéu símbolos de resistência ao machismo
Imagem: Divulgação
"Se os homens de Chicago querem tirar nossos alfinetes, primeiro devem deixar as ruas seguras. Nenhum homem tem o direito de me dizer como vou me vestir e o que vou usar", informou em 1910 Nan Davis, representante do Clube das Mulheres de Chicago, em resposta a membros do conselho municipal que queriam impedi-las de usar o que chamavam de "espadas".

Com a polêmica, leis foram criadas no mundo inteiro para coibir o uso desses alfinetes, que também tiveram de diminuir de tamanho para não serem classificados como ameaças. Porém, mesmo correndo risco de serem multadas e até presas, muitas mulheres resistiam em deixar o acessório, pois argumentavam que os homens estavam na verdade tentando discipliná-las.

O alfinete de chapéu só perdeu força com a chegada da Primeira Guerra, em 1914. Com os conflitos e as decorrentes mudanças sociais, a moda começou a direcionar suas atenções para estilos mais funcionais e os grandes chapéus perderam espaço para os modelos pequenos e os práticos cortes de cabelos curtos.