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"Tá magra, hein?" Por que elogiar o peso de alguém pode ser negativo

Cler: ela fez a bariátrica, mas já se aceitava antes disso - Arquivo Pessoal
Cler: ela fez a bariátrica, mas já se aceitava antes disso Imagem: Arquivo Pessoal

Claudia Dias

Colaboração para Universa

13/12/2019 04h00

Ao disparar um "nossa, como você está bonita assim, magra!", seu elogio pode até ter a melhor das intenções mas, nem por isso, é certeza de que vai agradar quem o recebe. O fato de estar com peso dentro dos "padrões" valorizados pela sociedade não significa, obrigatoriamente, que a pessoa esteja se sentindo totalmente feliz nesta condição.

A funcionária pública, jornalista e youtuber Cler Oliveira, 43 anos, por exemplo, precisou ser submetida a uma bariátrica há 11 meses e se sente incomodada ao receber certos elogios.

"Tive toda uma luta de aceitação do meu corpo gordo, de parar de me odiar dentro dele. Dizer que estou 'bonita magra' desfaz tudo o que eu acho, de verdade, sobre o body positive, sobre todos os corpos serem bonitos, sobre ninguém ter nada a ver com o corpo alheio", diz ela, que reside em Novo Hamburgo (RS).

Desde pequena, ela teve problemas no quadril. Sua primeira cirurgia aconteceu aos 11 anos. Com 33, teve que implantar duas próteses, bilaterais, para não ter mais dores. Com a colocação dessas próteses, um dos requisitos era 'não engordar para não prejudicar a cirurgia'.

Com o tempo, em função de ansiedade e depressão, adquiriu muito peso, chegando a 115 kg (tenho 1,65 m). "Isso me causava muitas dores e, para solucionar, eu deveria fazer uma nova cirurgia, porém, mesmo para essa solução, eu precisaria perder muito peso".

Foi quando o traumatologista propôs a cirurgia bariátrica, que realizou em dezembro de 2018. "Desde então, não tenho mais dores e a possibilidade de fazer uma nova cirurgia foi afastada, pelo menos a médio prazo. Hoje gosto mais de mim, mas não por ter feito a bariátrica, e sim porque eu descobri quem eu era antes dela".

Cler conta que sempre foi gorda. "Por 41 anos, me achava uma pessoa feia por ser gorda e negra. Até que bateu um clique quando o Chris Cornell se suicidou, em maio de 2017. Comecei a refletir que ele era incrível e que tinha se matado. Que estava doente. A morte dele mudou minha vida. Comecei a pensar sobre o fato de sermos únicos e incríveis, independentemente do tamanho do corpo, da cor, do que temos ou não".

Aí começou a seguir (nas redes sociais) várias pessoas na vibe de Body Positive (ou Body Positivity). Começou um processo de aceitação do corpo gordo, da recuperação da vaidade, da transição capilar, de valorizar origens e ver beleza nela.

"Mesmo com 115 kg, eu estava me sentindo bem porque entendi que ser gorda era somente mais uma característica e que não poderia ser o centro da minha vida. Que eu era livre, linda e única. Quando fiz a bariátrica, tive que me adequar a essa nova realidade. Não queria romantizar o processo, que é mais um procedimento médico que estético. A estética é consequência de uma qualidade de vida que eu, com o sobrepeso, não tinha", ela conta.

Hoje, com 40 kg a menos, as pessoas acham que é elogio ressaltar o quanto ela 'ficou bonita' depois que emagreceu. "Tudo o que fazem é destacar a ditadura da 'beleza padrão' que é cruel e inexistente. Eu já me sentia bonita gorda. 'Tu está linda, magrinha': esse comentário, por mais bem intencionado que seja, me incomoda".

Ela afirma que descobriu que a beleza independe do tamanho do corpo.

Incomoda porque muitas vezes sirvo de 'inspiração', sendo que eu me submeti a um procedimento cirúrgico muito sério. Eu levei muito tempo para me aceitar, Cler, como eu sou, para ser reduzida apenas a essa mudança estética.

Ela conta que se sente mal quando a elogiam por isso ou fiscalizam o que ela come e pedem que 'fique assim', não emagreça mais. "Não querem saber as orientações médicas e tampouco como eu estou", conta. "Gosto de receber elogio, mas não aqueles que vêm diretamente ao meu corpo. Estou bem agora, pois descobri quem eu era antes da cirurgia. Não adianta nada emagrecer e não se aceitar como pessoa. Sempre vai ter algo que pode te deixar infeliz, caso você não se aceite de verdade".

Por que você deveria parar de elogiar o peso dos outros

A exemplo do que acontece com Cler, a cobrança excessiva em relação ao peso é algo tão arraigado na cultura brasileira que, na grande maioria das vezes, ninguém considera que um elogio pode ter efeito negativo.

"Elogiar alguém é algo excelente, porém, o elogio pode ser interpretado como forma de cobrança indireta, em que a pessoa não pode deixar de fazer ou ser aquilo para continuar agradando ao próximo", pontua Yuri Busin, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio (CASME).

Além do mais, a perda de peso nem sempre é reflexo da mera vontade de emagrecer ou relacionada a questões de saúde. Pode ser consequência de algum outro problema, invisível ao olhar alheio, como a depressão.

"Pessoas deprimidas podem ter alteração no apetite, ou seja, emagrecer bastante por não comerem e isso não quer dizer que estejam bem com elas mesmas, por estarem mais magras", exemplifica Yuri.

Elaine Di Sarno, psicóloga especialista em avaliação psicológica e neuropsicológica, terapia cognitivo comportamental, pesquisadora e colaboradora do Projeto Esquizofrenia (PROJESQ), do IPq-HC-FMUSP, lista algumas consequências negativas que o elogio e a valorização excessiva do peso baixo podem trazer para a vida de quem recebe comentários nesse contexto.

  • A pessoa pode relacionar a ideia de que a beleza se relaciona com a magreza, e fortalecer crenças disfuncionais de fracasso ou inferioridade, afetando a autoestima.
  • Com o elogio, o que também se diz, silenciosamente, é que o outro, quando tinha alguns quilos a mais, não estava bem.
  • Pode-se gerar angústia e facilitar a evolução de alguns transtornos psiquiátricos, como transtorno de ansiedade, depressão, anorexia e bulimia.
  • Há uma falsa ilusão da ideia de que "se emagrecer, a vida se modificará e vai obter conquistas", o que não é real.
  • A imagem corporal pode ficar alterada, gerando insegurança e afetando outras áreas, como: social, afetiva, profissional e, principalmente, a sexual.
  • É possível desencadear o abuso de calmantes, estimulantes e anabolizantes e servir de gatilho para dependência química e sérias consequências na saúde.

Apesar disso, vale ressaltar que não é para você deixar de prestar atenção no lado bom das conquistas dos outros e parar de elogiar, com medo de errar. "O que é necessário é se manter sempre muito atento, pois essa pessoa pode precisar de apoio e suporte em outras áreas da sua vida", recomenda Yuri.

Não tenho vergonha do meu corpo porque ele é meu e só interessa a mim. Serei feliz dentro dele, estando magra ou não. Busco o melhor para ele, sempre, mas não por uma questão estética e, sim, porque eu sou única. Meu corpo é minha casa e vou viver dentro dele pro resto da minha vida.

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