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'Tinha dias que sentia nada': como é se relacionar com alguém bipolar

"Sinto que nenhum namorado me conheceu. Às vezes, nem eu me conheço" - Getty Images
'Sinto que nenhum namorado me conheceu. Às vezes, nem eu me conheço' Imagem: Getty Images

Marcos Candido

De Universa

30/10/2019 04h03Atualizada em 07/11/2019 20h35

Às vezes, a universitária Vitória Pereira, 19, não se reconhece direito. Na verdade, ela crê não ter sido conhecida por nenhum de seus namorados. No último namoro, interrompido há um mês, havia dias em que acordava e sentia amor pelo homem ao seu lado. Outros dias, olhava e não sentia nada; sentia incapaz de amar a qualquer pessoa. Alguns dias, meses depois, a libido a contagiava e sentia que era capaz de amar a qualquer pessoa. Desde a adolescência, Vitória é diagnosticada com bipolaridade.

Quem tem bipolaridade passa por um período conhecido como mania, quando há uma explosão de disposição física, libido, uma certa impulsividade e um carisma contagiante. Logo depois, emerge uma descarga de desânimo que trava planos, impede ou dificulta ir ao trabalho, estudar, se relacionar, dormir, traz sono excessivo e vontade de se matar. Há também uma espécie terceira fase em que a pessoa não manifesta alterações de comportamento.

A bipolaridade não tem um período definido entre um estágio e outro e nem impõe, necessariamente, mudanças repentinas de humor. O ciclo da mania pode durar meses. O da depressão, também. O da normalidade, conhecido como a eutimia, também. As três condições podem se revezar cerca de quatro vezes ao ano ou levar meses, anos, entre eles. E a divisão entre um e outro nem sempre é muito clara.

Na série "Modern Love" (Prime Vídeo), a atriz Anne Hathaway interpreta uma advogada bipolar que usa os momentos de mania para ter sucesso na carreira e na vida amorosa. Assim, marca um encontro amoroso com um homem estranho que a ajuda a escolher pêssegos em um supermercado. Tudo é lindo e maravilhoso até ela se afundar na cama, desmarcar os encontros com o rapaz e ser demitida por faltar no trabalho. O episódio é inspirado em uma história real veiculada em 2008 pelo jornal The New York Times. O episódio traz à tona a discussão de como amar quando se tem uma doença que atinge justamente o emocional.

Tiago deu match no Tinder e fala de forma bastante natural sobre bipolaridadea - Getty Images
Tiago deu match no Tinder e fala de forma bastante natural sobre bipolaridadea
Imagem: Getty Images

"A bipolaridade é uma doença extremamente variável e não tem uma regra. O relacionamento amoroso, por exemplo, depende da gravidade da doença e do momento da doença, explica o psiquiatra Elie Cheniaux, coordenador do laboratório sobre transtorno bipolar da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O tratamento vai de ajuda psicológica à abstinência de álcool e drogas, mas depende quase sempre de medicação, explica.

Vitória pede desculpas por não ter exatamente uma história de amor devido a estas questões. Ela também me diz que só sabe descrever o que acontece ao seu redor, não dar detalhes sobre o que sente. E alguém sabe descrever um sentimento? Ela, porém, tenta descrever como ama. Mas por partes.

Primeiro, o agora ex-namorado ocupou um espaço vago: tornou-se uma espécie de pai. Não à toa, o que havia entre eles nunca foi uma paixão ardente. Existia, sim, uma conexão muito forte, com os quais os dois aprenderam, com paciência, a cultivar até se tornar em amor. "Percebi, porém, que ele passou a me tratar como filha e minha bipolaridade tem a ver com traumas que vivi na infância", explica. "Tínhamos uma ligação intensa, mas havia dias em que eu não sentia nada por ele".

Tudo acabou após uma discussão entre os dois. O ex-namorado citou a família de Vitória durante a briga ("É meu gatilho mais forte") e gerou nela uma série de decisões em cascata. Ela se mudou de cidade. O relacionamento acabou. Agora, trabalha em um shopping no interior do Rio Grande do Sul e pretende começar tudo do zero, com ajuda de medicamentos.

"As pessoas têm preconceito e brincam com a bipolaridade. Dizem que o bipolar muda de humor muito rápido. Não é só isso. Por isso, só falo sobre o assunto com que está mais próximo a mim: minha colega de trabalho sabe. Meus chefes, não. As pessoas nunca sabem quem você é, nunca. Tive namorados que se relacionaram com minha doença, não comigo."

A bipolar era ela.

A outra história ouvida por Universa é a do publicitário João Victor Basabe, 27. Há um mês, não está mais em um namoro. Também não tem bipolaridade. A bipolaridade, no caso, afetava a ex-namorada. Os dois se conheceram em 2012 durante uma festa na Universidade Federal do Paraná. Ficaram. Não deu certo: ela investiu em outro relacionamento.

Os dois moram na mesma cidade. Se conheceram em uma festa da universidade e se separaram pela saúde dos dois, mas especialmente dela - Getty Images
Os dois moram na mesma cidade. Se conheceram em uma festa da universidade e se separaram pela saúde dos dois, mas especialmente dela
Imagem: Getty Images

Corta para 2017. João enviou uma mensagem de "Oi, sumida" a ela. Os dois saíram. Não rolou nada, mas ela desabafou. Disse que tinha o diagnóstico de bipolaridade.

Os meses se passaram, quando ela quem tomou a iniciativa e enviou um convite de aniversário a ele.

"Por que você me convidou?", questionou.

"Por que convidei as pessoas que foram mais importantes na minha vida", ela disse.

Ficaram e o relacionamento evoluiu para um namoro. Quando estavam juntos, os dois faziam planos que eram desfeitos subitamente. "Nós acordávamos e ela me chamava para caminhar. Tinha muita disposição. Quando a gente se arrumava para sair, ela sentava na cama e dizia que não poderia mais ir", diz. Para segurar a barra, ele se uniu a amigas dela para formar uma rede de apoio para ajudá-la a evitar os pensamentos suicidas insistentes que a perseguiam.

No mês passado, não deu mais. Ela disse que precisaria encerrar o namoro. De comum acordo, entenderam que seria o melhor para a saúde dos dois. Ela precisava se cuidar. Ele ainda a ama.

"Foi possível amar, se apaixonar a ela. Mas terminamos. Amo porque foi importante na minha vida. Sempre valorizei muito a presença das pessoas na minha vida, a empatia, a compaixão, e eu encontrava isso nela. Eu poderia demonstrar tudo que sentia com ela. Mas ela e eu precisávamos nos cuidar, ficarmos sozinho", diz.

Aquele match

Há cinco meses, o jornalista Tiago Julio Martins, 28, deu um match no Tinder. O assunto foi saúde mental. Ele, bipolar. Ela, depressão. Os dois namoram e falam com naturalidade sobre o tema.

Tiago recebeu o diagnóstico após um surto psicótico em 2013. O gatilho foi uma greve enfrentada pelo jornal onde trabalhava, no Pará. "É uma ironia, porque minha mãe é psicóloga", pontua. Os primeiros surtos duraram entre três e quatro dias até que ele recobrasse plenamente a consciência.

O ciclo da mania é composto por uma "mania de grandeza" e pensamentos sobre "teorias e coisas mirabolantes que são interpretadas como se fossem parte da minha realidade", diz.

Hoje, com acompanhamento psicológico e medicação, mantém uma página no Facebook para tratar do tema e escreveu cerca de 200 páginas em poucos dias de seu livro "Cabeça bipolar", escrito sob um rompante da mania. Sempre se apaixonou por contar histórias, especialmente histórias de amor platônico que só existiam em sua cabeça.

Desta vez, desfruta de uma amor que não é platônico, onde tem liberdade para compartilhar o que sente, já sentiu e ainda pode sentir.

"O preconceito e o estigma que existem sobre saúde mental são por falta de informação. Com cuidado, acompanhamento, estou estável e posso me relacionar normalmente", diz.

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