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"Feminista vegetariana", Tokarczuk é 15ª mulher a levar Nobel de Literatura

A polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura - AFP
A polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura Imagem: AFP

Renato Essenfelder

Colaboração para Universa em Porto (Portugal)

10/10/2019 10h29

A vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2018, Olga Tokarczuk, é apenas a 15ª mulher entre 116 autores que já conquistaram a distinção - incluindo o premiado de 2019, Peter Handke. Antes dela, a última mulher reconhecida com a medalha havia sido a bielorussa Svetlana Alexievich, em 2015. Tokarczuk é ainda a segunda polonesa a receber um Nobel de Literatura, depois da poeta Wislawa Szymborska, em 1996.

Olga Tokarczuk, de 57 anos, nasceu em 1962 na pequena cidade de Sulechów, no oeste da Polônia, próxima à fronteira com a Alemanha. É a primeira de duas filhas. Seu pai era bibliotecário na escola onde ela estudava, e Tokarczuk passava a maior parte do tempo com ele, lendo compulsivamente um pouco de tudo: poesia, clássicos latinos, Júlio Verne, enciclopédias.

Considerada uma das vozes mais importantes de sua geração, em um rara conjunção de sucesso de público e de crítica, ela já andava em grande evidência nos círculos literários por ter conquistado no ano passado o Man Booker Prize com o romance "Os Vagantes" (esgotado no Brasil) e por amealhar diversos prêmios com a tradução para o inglês de "Drive Your Plow Over the Bones of the Dead", ("Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos", na edição portuguesa), que, apesar de publicado originalmente em 2009, só no último ano, após a edição em inglês, ganhou notoriedade mundial. Os direitos de publicação de "Conduz o teu Arado...", que chegou a ser finalista do mesmo Man Booker Prize, edição 2019, foram comprados no Brasil pela editora Todavia.

Apesar de best seller, ela divide opiniões. Chamada pelo jornal britânico "The Guardian" de "feminista vegetariana", Tokarczuk levanta ainda a bandeira do multiculturalismo e é forte crítica do governo de seu país e da ascensão do conservadorismo na Polônia. Não à toa, o ministro da Cultura local, Piotr Glinski, há poucos dias alfinetou a autora dizendo que havia tentado ler a obra de Tokarczuk no passado, mas desistido. Hoje, voltou a dar entrevista. Desta vez, disse que "tentaria com mais empenho" e parabenizou-a de forma tímida. "Um prêmio Nobel é um claro sinal de que a cultura polonesa é bem valorizada no mundo", declarou.

Trajetória

Olga Tokarczuk formou-se em psicologia pela Universidade de Varsóvia e é influenciada pela obra do psicólogo suíço Carl Gustav Jung - o que explica um certo tom mítico e difícil de classificar em sua obra. Chegou a trabalhar com dependentes de drogas e álcool, mas, depois de alguns anos, desistiu, após fortes crises de estresse. "Sou neurótica demais para ser terapeuta", declarou, em entrevista recente à "The New Yorker".

Estreou na literatura em 1989 com uma coletânea de poemas, mas só em 1993 lançaria seu primeiro romance. Desde então, manteve uma produção constante, que soma hoje mais de dez obras literárias, entre romance, conto e poesia. Para a Academia Sueca, Tokarczuk tem "uma narrativa imaginativa, que com a sua paixão enciclopédica representa a travessia das fronteiras como uma forma de viver".

A citação, realizada durante o anúncio dos prêmios, na manhã de hoje, evoca toda a obra da autora, mas serve como luva para o romance "Viagens". Nele, um conjunto de narrativas de vários gêneros se cruza criativamente, com digressões e dispersões que apresentam a vida como se fosse uma viagem constante. O livro explora o significado de ser um viajante, um corpo em movimento pelo espaço e pelo tempo.

Sobre a obra, a revista norte-americana "The New Yorker" afirmou que "altera as formas convencionais de escrita". A própria autora chama o livro de "romance de constelação": aglomeração de gêneros de ficção, história, memórias e ensaio unidos sob a temática geral da viagem, mas suficientemente vago para que os leitores descubram suas próprias conexões. "Quando o enviei pela primeira vez à minha editora, eles me ligaram e perguntaram se por acaso eu havia misturado os arquivos no meu computador, porque aquilo não era um romance", declarou a autora em entrevista à "The New Yorker" em julho deste ano.

Na edição portuguesa, da editora Cavalo de Ferro, a autora manifesta seu apreço pela ideia de movimento constante, por uma energia cinética que afasta o risco da degeneração: "Pelos vistos, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem muito tempo no mesmo lugar. Já tentei várias vezes, mas as minhas raízes são sempre superficiais e qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra. (?). A minha energia provém do movimento — da trepidação dos autocarros, da zoadeira dos aviões, da oscilação dos comboios e dos barcos."

No perfil que a "The New Yorker" fez da autora, ela é descrita como "pequena e marcante, com a energia concentrada de um professor de ioga. Prefere roupas artisticamente cobertas e pulseiras em camadas". Além disso, uma marca do seu visual são os longos cabelos castanhos enrolados em dreadlocks, adotados há dez anos, após viagem a Bangkok, na Tailândia.

Quando descobriu que tribos pré-cristãs na Polônia usavam dreadlocks, encantou-se ainda mais pelo acessório.

Ativismo político

A anedota tem razão de ser. Além de best-seller literária, Tokarczuk é considerada uma importante ativista em seu país, e sua obra não pode ser dissociada da política. Ela frequentemente escava aspectos antigos e esquecidos da cultura de seu país e os reinterpreta à luz contemporânea. Nesse sentido, quando a autora incorpora a fragmentação e a diversidade à sua obra, ataca uma antiga mitologia do país como "nação católica homogênea".

Esse credo ganhou força nos últimos anos na Polônia, especialmente desde 2015, quando o partido conservador nos costumes "Lei e Justiça" chegou ao poder com uma plataforma xenófoba.

Desde então, o governo se recusou a aceitar refugiados do Oriente Médio e do norte da África, resistiu à instituição de direitos iguais para casais homossexuais e aprovou uma lei proibindo a discussão da colaboração polonesa com nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Em artigo de opinião publicado no jornal norte-americano "The New York Times" em janeiro deste ano, Tokarczuk lamenta o clima político de seu país. "A televisão estatal, da qual um número significativo de poloneses recebe suas notícias, mancha constantemente, em linguagem agressiva e difamatória, quem pensa diferente do partido no poder."

Além de incomodada com a questão do nacionalismo, ela também é forte defensora do vegetarianismo. Já declarou, inclusive, que perde o sono devido ao sofrimento de animais em matadouros, e o recente "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos" tem forte inclinação ambientalista nesse sentido.

A forte polarização política na Polônia divide a receptividade à obra de Tokarczuk. De um lado, os partidários do "Lei e Justiça" são refratários a ela e aos seus ideais. Do outro, progressistas, em geral mais jovens, pregam o multiculturalismo e um acerto de contas com o passado da Polônia e fazem longas filas em eventos literários locais para encontrar a autora.

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