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Autoestima


Ela tem 72 anos e dá aula de zumba: "Dançar me tirou da depressão profunda"

Loli ensina zumba para mais de 50 pessoas: "Eu era uma morta-viva, hoje sou feliz" - Arquivo Pessoal
Loli ensina zumba para mais de 50 pessoas: "Eu era uma morta-viva, hoje sou feliz" Imagem: Arquivo Pessoal

Silvia Regina

Colaboração para Universa

12/08/2019 04h04

É sabido que dançar é um excelente exercício para a alma e para o corpo. Principalmente depois dos 65 anos quando o corpo funciona de maneira diferente. "Nesta fase, o sistema cardiovascular tem sua capacidade diminuída, os movimentos vão perdendo a agilidade e precisão, os ossos ficam mais fracos, as articulações menos elásticas e há diminuição da massa muscular", explica Ludmilla Marzano, professora de dança e especialista em zumba. Por isso, a recomendação é praticar atividades físicas, incluindo a dança, pelo menos, duas vezes por semana. E aí vale qualquer ritmo, o importante é mexer o corpo.

Mas vai um alerta. Como o corpo idoso já não tem mais a destreza de outros tempos, os movimentos precisam ser adaptados para não causar lesões ou qualquer outro problema de saúde. Também é importante consultar um médico para que seja feita uma avaliação antes de começar a prática. Quem segue tudo direitinho só tem a ganhar. Além de um corpo mais saudável, a dança tem um peso grande na saúde emocional, ajudando até a prevenir a depressão.

Foi o que aconteceu com a professora Loli Lobos, 72 anos, de Santarém (PA). "Desde que eu me lembro da minha infância, sempre tive depressão. Meu comportamento era diferente e eu só fui descobrir o que tinha quando minha segunda filha nasceu. Como já havia acontecido na primeira gravidez, eu a rejeitei. Depois de muitos exames, o resultado foi pior que eu imaginava. Eu sofria de depressão profunda e esquizofrenia", explica Loli Lobos. Por quase 70 anos, ela conviveu com a doença e, durante mais da metade desse tempo, tratou-a com muitos medicamentos. Chegou a tomar sete tipos diferentes por dia. "Eu não vivia, eu vegetava depois de toda essa medicação. Não sabia onde estava, o que tinha que fazer. Eu puxava meus cabelos, batia a cabeça na parede e cheguei a ser amarrada numa cama de hospital", diz.

A situação era tão complicada que Loli tentou o suicídio seis vezes. "Alguma coisa me puxava para situações de morte. Eu tentei me afogar, me jogar do prédio que morava e me cortar com um copo quebrado, mas todas as vezes aparecia alguém ou acontecia alguma coisa que me tirava daquele estado", conta. Hoje, ela agradece todas as vezes que isso aconteceu.

A dança devolveu ânimo para ela - Arquivo Pessoal
A dança devolveu ânimo para ela
Imagem: Arquivo Pessoal

Aos 69 anos algo mudou na vida dela. Descobriu um DVD de zumba e começou a assistir em casa e tentar imitar os passos. Aos poucos, a vontade de dançar aumentava -- e ela nunca havia praticado nada parecido antes. Por sorte, abriu uma academia em sua cidade que oferecia a modalidade. Motivada pelo marido, ela se inscreveu e começou a frequentar as aulas. "Todos os alunos eram mais novos que eu. E eu me destaquei, pois pegava os passos muito rápido. E sentia que aquilo estava me fazendo bem".

Neste período, ela conta que o marido teve um papel fundamental. "Ele me levava à aula, mesmo quando eu não queria ir, e dizia que eu dançava muito bem, que eu estava bonita, isso me ajudou muito".

Um ano depois, Loli já havia reduzido a quantidade de remédios que tomava. De sete diários, passou para dois, que ela usa até os dias de hoje. São aqueles obrigatórios, principalmente, pela esquizofrenia, mas que não têm os mesmos efeitos colaterais que antes. Nessa época, ela também tomou uma decisão que mudaria a sua vida. Resolveu fazer um treinamento de zumba para ensinar outras pessoas. Fez dois cursos. Um em Santarém e outro em São Paulo, cerca de 3.500 km distante de sua casa. "Foi uma vitória para mim".

Em um dos treinamentos de zumba que fez: empolgadíssima - Arquivo Pessoal
Em um dos treinamentos de zumba que fez: empolgadíssima
Imagem: Arquivo Pessoal

De volta à sua cidade, começou a dar aula para jovens, mas ela queria mais. "Eu queria ajudar outras pessoas que sofrem como eu sofria. Sabia que se fez bem para mim, iria fazer bem para outras pessoas também". Para conseguir realizar seu desejo, procurou centros comunitários e se ofereceu para dar aulas como voluntária. Hoje, dá aulas de zumba em dois locais diferentes para um grupo de mais de 50 pessoas. "É gratificante ouvir as pessoas dizerem que depois que começaram a dançar estão melhores e que estão felizes ou que não sentem mais dor", conta Loli. E você acha que ela para? À noite ainda ensina a dança para jovens numa academia e faz aulas de violão.

Emocionada, Loli lembra o que ela era e no que se transformou. "Há quatro anos, eu era uma morta viva, a vida não tinha sentido para mim. Hoje eu sou jovem e feliz. A zumba me faz bem. Continuo depressiva e esquizofrênica, mas as doenças não me afetam. Jogo para fora tudo aquilo que me afeta. E quando sinto que não estou bem, eu coloco uma música e começo a dançar. Não importa a hora. Já fiz isso até de madrugada. Eu não sei o que acontece. A zumba é envolvente. Solto meu corpo e ele simplesmente vai", finaliza Loli Lobos.