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Jovem brutalmente espancado em PE foi vítima de homofobia, acusa família

Jefferson foi vítima de um espancamento; familiares dizem que motivo do crime foi homofobia - Reprodução
Jefferson foi vítima de um espancamento; familiares dizem que motivo do crime foi homofobia Imagem: Reprodução

Marcos Candido

Da Universa

07/06/2019 04h00

Jefferson Anderson Feijó, 22, tem o sonho de estudar fotografia. O desejo era de tornar-se um fotógrafo profissional assim que terminasse o ensino médio.

Ele havia dado uma pausa na escola durante a adolescência e retornado, já adulto, por incentivo dos amigos. E terminou os estudos. Em dezembro, estava com as amigas andando pelas ruas de Moreno, em Pernambuco, justamente para celebrar a conclusão desta etapa na vida.

O município a cerca de 20 km de Recife também estava em festa. Naquela noite, moradores faziam uma homenagem tradicional à padroeira da cidade. Jefferson riu, se divertiu. Avisou que iria se distanciar um pouco do grupo em busca de um banheiro -- e desapareceu. As amigas o encontraram um tempo depois em um terreno.

Ele havia sido espancado e estava sem as roupas. Em um intervalo de poucas horas, cessaram-se as risadas da noite, os projetos e os sonhos. Hoje, preso à cama de um hospital, ele teve as funções motoras e cognitivas comprometidas. Está acordado, mas pouco reage.

Agressão x homofobia

Amigos e familiares acreditam que Jefferson foi vítima de homofobia. Horas antes de ser agredido, as amigas do grupo disseram que o estudante foi ameaçado por um homem após negar um gole de bebida. O mesmo suspeito também teria sido visto no local das agressões momentos antes de Jefferson ser encontrado.

O crime foi registrado como tentativa de homicídio em uma delegacia de Moreno. Após a investigação, o Ministério Público apresentou em fevereiro uma denúncia contra o suspeito por estupro e assalto à mão armada. O Tribunal de Justiça de Pernambuco deu ordem de prisão ao suspeito Robson da Silva Alexandre, mas não informou se ele foi preso.

A Universa não conseguiu localizar a defesa do suspeito. Por se tratar de crime sexual, parte do processo corre em segredo de Justiça.

"Ele parece um ator, alguém que tem condições"

Dona Etiene, mãe de Jefferson, se gaba do filho. "Ele parece um ator, parece alguém que tem condições. Meu filho é muito bonito", diz. Em conversa com a Universa por telefone, a voz dela mescla tristeza e cansaço. Como o pai é motorista e viaja com frequência, é Etiene quem passa a maior parte do tempo no hospital onde o filho está internado desde o começo do ano em Olinda, Pernambuco.

"Jefferson cozinhava para mim e para o pai. Ele vinha me chamar dizendo 'bora, mulher, venha comer'. Era muito bom, muito mesmo. Foi um monstro que apareceu na vida dele e eu queria que ele pagasse". Ela lamenta e se abala com a chegada de novos pacientes nas macas e quartos ao lado, pois cada chegada ressalta a passagem do tempo. "Ver a situação dos outros também mexe com a gente".

Segundo um médico do caso ouvido pela Universa, Jefferson é um paciente "crônico" e vai precisar de cuidados permanentes, como fisioterapia e acompanhamento médico para evitar infecções. O espancamento deixou uma série de fraturas e um traumatismo cranioencefálico que comprometeu gravemente as funções neurológicas.

Os danos atingiram áreas do cérebro que vão da capacidade de compreensão às funções motoras. Os médicos conseguiram conter as convulsões e Jefferson respira sem aparelhos, mas ainda não têm previsão de alta.

"Se fosse para roubar, não faria isso"

"Pelo jeito da agressão? Se fosse para roubar, não faria isso. Espancar com tanto ódio, eu creio que foi alguma coisa além disso. Não sei", diz a mãe sobre o crime apontado como homofóbico.

Jefferson nunca falou a sobre a sexualidade com a maior parte da família. Era próximo aos pais, mas o assunto não entrava em casa. "A gente não procurava saber por que nossa família é evangélica. Não sou contra isso, mas na vida da gente, a gente não queria aceitar. Mas nunca o tratei mal. Jefferson é meu amor, meu cheiro", diz.

"A primeira pessoa para quem Jefferson assumiu a sexualidade foi para mim e minha irmã. Ele tinha uns 16 ou 17 anos", relembra a prima Izabella Oliveira. "Foi difícil para os familiares mais velhos o aceitarem, como tios e a nossa avó. Não era de boa, mas também sabiam que nada iria mudar o Jefferson", diz. "Mas meu primo, se ele vê um amigo passando por dificuldade, ele se recompõe e coloca a pessoa para cima. E é sempre sorridente".

Izabella criou uma campanha na internet para arrecadar dinheiro para o tratamento de Jefferson. Na última semana, a vaquinha atingiu a marca de R$ 100 mil reais em doações. O dinheiro vai ser usado para montar uma estrutura médica em uma casa alugada em Olinda. Só assim Jefferson poderá ser liberado para voltar para casa.

"É muito difícil para uma mãe ficar esse tempo todo com o filho no hospital. A gente vê muita coisa. Eu sou forte, mas sinto que estou fraquejando", diz a mãe. "Acho que é Deus que permite a gente ficar são".

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