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Padres batizam filhos de casais gays e lésbicos

Gislene, com a mulher, Amanda, e a filha Manu, no dia do batizado da criança na Igreja Católica  - Arquivo pessoal
Gislene, com a mulher, Amanda, e a filha Manu, no dia do batizado da criança na Igreja Católica Imagem: Arquivo pessoal

Camila Brandalise

Da Universa

06/06/2019 04h00

Naquela manhã de sol, enquanto andava grudado nos quatro filhos adotivos (um de sete meses, um de um ano, um de 3 e outra de 11) a caminho da igreja que os batizaria, o auditor fiscal Rogério Koscheck chorou. No meio quilômetro que separava a casa da família da paróquia, Rogério pensava na felicidade de ter formado uma família daquele tamanhão com o homem que amava. Ele olhava para as crianças, todas vestidas de branco, e pensava que elas seriam recebidas na religião que ele seguia desde pequeno.

Sim, Rogério é casado com outro homem e eles batizaram os filhos adotivos na Igreja Católica.

O catolicismo permite o batismo de filhos de casais homoafetivos porque trata-se de uma bênção dada à criança e não depende da condição ou orientação sexual dos pais. Mas o casamento entre pessoas do mesmo gênero não é reconhecido como configuração familiar pela igreja.

Rogério imaginou que poderia ter alguma resistência ao marcar o batizado por ser gay. Se seguisse o procedimento padrão, preencheria uma ficha na secretaria da igreja para, então, conversar sobre as datas da celebração. "Mas a secretária viu a foto com meu marido e meus filhos, olhou para mim, olhou para a imagem de novo e disse: 'Você vai ter que conversar com o padre'". No fim de uma missa de domingo, Rogério procurou o pároco, explicou o que queria e mostrou novamente a foto.

"Eu faço, sim, o batismo dos seus filhos", disse o religioso. "É o sacramento da igreja que tem que ser oferecido para qualquer criança e para qualquer um que nos procura. Só quero te perguntar duas coisas: primeiro, você vai trazer a imprensa, TV, jornal?", perguntou. "Não, só nossa família e os padrinhos", respondeu Rogério. Próxima: "Na cerimônia, chamo o pai e a mãe para perto do altar. Como vou chamá-los?", questionou. "O senhor pode nos chamar de pais."

Dias depois, Rogério, o marido e os quatro casais de padrinhos fizeram o curso exigido para participar do batizado, onde se ensina como educar uma criança de acordo com a fé católica.

Rogério Koscheck com os quatro filhos e o marido: autorização do padre para batizá-los - Arquivo pessoal
Rogério Koscheck com os quatro filhos e o marido: autorização do padre para batizá-los
Imagem: Arquivo pessoal

No domingo seguinte ao curso, lá estava a família toda para o batismo. Além dos quatro filhos de Rogério, outras seis crianças receberiam a benção. "Quando chegou nossa hora, o padre não nos chamou. Combinamos que levantaríamos depois que o casal que iria antes de nós saísse do altar. Eles eram héteros e foram chamados como pai e mãe", lembra. "Mas isso não nos entristeceu."

Seus olhos voltaram a marejar no final da bênção, na hora de fazer a foto em família. "Estava com meu marido, as nossas crianças e os familiares. Entre eles meu pai, com quem já tive crises enormes por causa da minha sexualidade. Estarmos todos ali, em paz, me emocionou muito."

Em 2017, o diretor da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, pediu a quatro padres de Curitiba que batizassem seus três filhos. Nenhum deles se prontificou a realizar a cerimônia. Segundo Reis, usavam desculpas fugidias, como problema de agenda e falta de vaga. Ele o marido procuraram o arcebispo da cidade, Dom José Antonio Peruzzo, que destacou um padre para a celebração, realizada na catedral da capital paranaense. "Nós vamos batizar as crianças, não um casal gay", disse Peruzzo na época.

"As mamães da Malu"

Dez crianças, cada uma com uma vela, subiram ao altar do Santuário Arquidiocesano de São Judas Tadeu, em Belo Horizonte (MG), no momento em que a pequena Malu, com três meses de vida, foi batizada. Ela é filha das advogadas Gislene Carvalho Couto e Amanda Ferreira Couto.

Quando estava no sétimo mês de gestação, Gislene começou a procurar igrejas para batizar a filha. De formação católica, ela conta que não ia a missas há dez anos porque se incomodava com os sermões que, diz, só se referiam a famílias compostas por homem e mulher.

Gislene e Amanda foram a duas igrejas antes de descobrir, por meio de uma matéria de um jornal local, que na paróquia São Judas Tadeu havia uma Pastoral da Diversidade Sexual. "Fomos conhecer o grupo e passamos a participar dos encontros, onde são feitos estudos bíblicos e se discute o respeito aos LGBTs dentro da igreja. Me senti confortável e decidimos que seria lá o batizado da Malu", diz Gislene.

No dia da celebração, o padre chamou as mães pelo nome: "Agora vamos fazer o batismo de Malu, filha de Amanda e Gislene", disse. O casal espera outra filha."Amanda está no sétimo mês de gravidez e, quando a Bia chegar, também será batizada."

Padre faz missa em casa para gays

A Pastoral da Diversidade Sexual da paróquia São Judas Tadeu foi desativada pelo bispo da Arquidiocese de Belo Horizonte em novembro do ano passado, depois de críticas ao padre que a fundou serem compartilhadas nas redes sociais. Vídeos de sermões seus pregando o respeito às diferentes orientações sexuais foram divulgados com acusações de que seu discurso era anticristão. Procurado pela reportagem, o pároco não quis dar entrevista.

Há outras duas pastorais da Diversidade Sexual no Brasil. Uma também em Belo Horizonte e, outra, em Nova Iguaçu (RJ). Um dos padres que participa da pastoral fluminense defende o direito de filhos de LGBTs serem batizados no catolicismo. E também milita em favor dos direitos dos homossexuais dentro da igreja.

Mensalmente, ele recebe um grupo de gays e lésbicas para conversar e celebrar uma missa. Temendo uma reação negativa, prefere manter o anonimato. "Vai que aparecem na frente da minha casa para me xingar ou jogam mentiras sobre mim nas redes sociais", diz.

Na sala do padre, as duas primeiras horas dos encontros são de conversa. Os participantes falam sobre a aceitação da própria sexualidade, sobre situações de preconceito, inclusive dentro da igreja, sobre a relação com a fé e com seus pais. Há também quem se abra e peça ajuda para casos de depressão e de tentativas de suicídio.

Depois é que começa a missa, seguindo o ritual tradicional católico, com o folheto de orações, os cânticos e as passagens bíblicas que devem ser lidas no dia. "Me emociona ver o sorriso deles enquanto participam de uma celebração católica. É a alegria de não precisar se controlar para que não percebam que são gays", diz o padre.

Encontro de grupo de LGBTs em São Paulo - Arquivo pessoal
Encontro de grupo de LGBTs em São Paulo
Imagem: Arquivo pessoal

"Para Igreja, casal homoafetivo nem deveria existir"

"A normativa da Igreja Católica é de que o sexo só existe para a procriação. Como a relação de um casal homossexual é considerada estéril, entende-se que ela nem deveria existir", diz o frei José Antônio, na tentativa de explicar porque, apesar de Jesus pregar o amor ao próximo, a homofobia caminha junto com a história do catolicismo. "Agora, me diga, casais heterossexuais só se relacionam para procriar?", questiona o frei, rindo da obviedade da resposta.

Frei José reza missas quinzenais para um grupo de católicos LGBTs de São Paulo, criado por leigos, em uma casa pertencente à Sefras (Associação Franciscana de Solidariedade). Como esse grupo, há outros 17 pelo Brasil, segundo a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBTs.

"A maioria das pessoas chega nos encontros dizendo que não se sente amado por Deus por ser gay, que se vê como um problema", diz o frei. "Respondo que não há nenhuma cena no Evangelho que é de exclusão. Toda pedagogia de Jesus é de inclusão. Por isso, digo, não há eleitos: o princípio é de que todos são amados por Deus. É tão óbvio."

Mês do Orgulho LGBTQ+