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Namorado ou stalker? "Ele vasculhou histórico para ver o pornô que eu via"

Maria Clara: o ex queria saber até o tipo de pornô a que ela assistia - Arquivo Pessoal
Maria Clara: o ex queria saber até o tipo de pornô a que ela assistia Imagem: Arquivo Pessoal

Elisa Soupin

Da Universa

05/06/2019 04h00

Dar uma checada nas redes sociais da pessoa amada, quem nunca? Os relacionamentos hoje acontecem também no mundo virtual e é normal prestar atenção nas publicações da pessoa com a qual nos relacionamos.

Esse comportamento corriqueiro, no entanto, pode ganhar contornos excessivos quando um dos parceiros começa a dar plantão sobre os likes e os comentários do outro. O abuso também existe na vida virtual e pode ter consequências bem reais.

Bem antes do advento da internet, já existia o ciúme patológico. Mas o espaço virtual ajuda o stalker, que é aquele que quer conferir tudo, saber tudo, sem dar o espaço e a liberdade do outro.

Nas redes sociais, esse comportamento doentio se manifesta. Antes, ele teria que seguir a pessoa ou gravar uma ligação por exemplo. Hoje, ele tem esse espaço virtual para dominar" Adriana Marques, psicóloga e professora de Psicologia da Faculdade Celso Lisboa.

A reportagem de Universa conversou com algumas mulheres vítimas desse comportamento para fazer essa matéria. Mesmo depois de feitas as entrevistas, elas acabaram desistindo de contar suas histórias, com medo de que o parceiro de alguma forma as identificassem, mesmo mediante anonimato.

Uma das desistentes contou que é solicitada a mandar a localização em tempo real no WhatsApp várias vezes por dia "porque ele fala que quer saber se está tudo bem comigo no caminho", conta ela, que disse que iria apagar a conversa com a reportagem para "se ele vir, não se aborrecer". Entre as que toparam falar, narrativas parecidas: likes, comentários e redes sociais passavam por um escrutínio digno de detetive.

'Ele reclamava até das poses das minhas amigas no Instagram'

A policial Vanessa*, de 33 anos, que prefere não usar o nome verdadeiro por conta de seu ambiente de trabalho muito machista, viveu esse controle de perto. Por um ano, esteve em uma relação em que cada foto, post e curtida nas redes sociais era monitorada.

"Sou policial e meu ambiente de trabalho é muito masculino, o que era um problema muito grande para o meu ex. Ele sempre dizia que não tinha porque eu ter homens nas minhas redes sociais se já tinha tantos no trabalho. Falava "já não está bom de homem por perto não?!", lembra ela, que conta que extrapolou os limites da própria privacidade para deixá-lo tranquilo.

"Eu sentia que ele era inseguro e ficava acreditando que eu tinha que deixar ele mais confortável e confiante na relação. Assim, fui cedendo às invasões. Eram brigas e mais brigas. Eu já estava tão tomada de medo de conflito que excluí das redes sociais todos os caras com quem já tive alguma coisa, mesmo que um flerte, por que era sempre um problema imenso por causa de qualquer cara. Ele vigiava todas as minhas interações", recorda.

Vanessa não era a única submetida à inspeção virtual. "Ele julgava as minhas amigas, entrava no Instagram delas, via todas as fotos, curtidas, comentários. Se alguma postasse uma foto de biquíni, ele comentava: 'Isso é foto que se poste? Sua amiga adora chamar a atenção'. Passei a ficar com medo de receber Whatsapp, não queria receber ligações fora do horário de trabalho, mudei para acalmar o desagrado dele com contato com outras pessoas", conta ela, que, dois anos depois do término, está recuperada.

A psicóloga Adriana Marques alerta que tanto investimento de energia na vida virtual é um sinal de alerta. "Ele já está em um quadro de ciúme patológico. Toda relação tem um tipo de ciúme mínimo, que é normal, mas quando esse ciúme toma o escopo de controle da vida do outro, tomando a liberdade da pessoa escolher quem ela quer ter na vida dela, algo que tem que ser observado".

'Ele vasculhou meu histórico para ver que tipo de filme pornô eu assistia'

A fotógrafa Maria Clara Bubna, de 25 anos, penou com o escrutínio do ex sobre a sua vida virtual. O que começou com uma reclamação leve, como, por exemplo, ela estar online e demorar para responder uma mensagem, acabou com abusos virtuais e, depois, físicos.

"Não me incomodava que ele tivesse as minhas senhas do telefone ou do tablet, e acho que isso foi um problema, porque, como ele era controlador, eu deveria ter peitado isso, mas eu aceitava. Pensava 'ah, ele só vai ver um filme, não tem nada demais no meu computador para descobrir, então, o que que tem?'", o que começou aparentemente inofensivo foi aumentando de escala.

"Sou fotógrafa e, por isso, meu Instagram é profissional. Tenho um programa de crescimento dinâmico para o meu trabalho ter mais alcance. Então, minha conta vai automaticamente dando like e seguindo pessoas dentro de um perfil específico que interessa para o meu trabalho. Um dia, me despedi dele pelo telefone e fui dormir, e ele ficou controlando as atividades do meu perfil. Me mandou mil mensagens 'Maria Clara, você tá seguindo tal galeria? Por que você deu like nesse cara de óculos? Maria Clara, você está mentindo para mim'. Ele ligou para a minha mãe, com quem eu moro, e pediu para ela conferir se eu estava dormindo. Minha mãe me acordou com ele chorando no telefone", relembra ela.

A situação continuou piorando, à medida que, quanto mais Maria Clara se sentia invadida, mais ela deixava que ele tivesse acesso à sua privacidade virtual. Tudo para provar que não havia do que desconfiar.

"Um dia, ele falou assim para mim: 'Você não me disse que não gostava de ménage?' e eu falei: 'Sim, e daí?' e ele 'Então por que você vê pornô que tem sexo a três?". Ele vasculhou meu histórico a ponto de ver o tipo de pornografia que eu assistia. Eu fiquei tão chocada que nem briguei pelo fato dele ter invadido tanto a minha privacidade. Fiquei constrangida e tentando me explicar, dizendo que não era porque eu via que quisesse fazer", conta ela, que hoje até ri da situação.

Adriana Marques explica que a intenção de aplacar a desconfiança do outro dando cada vez mais acesso à privacidade, como fez Maria Clara, não é eficaz e, na verdade, possui efeito contrário.

Quando uma pessoa está agindo desta forma, controlando e querendo acessar tudo que o outro faz, o comportamento de deixar o acesso do outro irrestrito à sua privacidade alimenta o ciúme. Quanto mais ele sabe, mais vai querer saber

"Neste caso, o ex-namorado dela achou, na visão dele, uma contradição dela, que é o que o stalker procura. Ele quer achar razões para desconfiar, e, assim, dominar o outro. Assistir à pornografia não tem absolutamente nada demais, mas ele acha que a pegou em uma falha", explica.

'Ela tinha a digital cadastrada no meu celular'

Como o abuso não é exclusividade dos relacionamentos heterossexuais, a estudante de Educação Física Joana*, de 25 anos, viveu com a ex-namorada uma relação que desrespeitava muito a sua individualidade.

"Bem no início do relacionamento, ela me contou que era ciumenta e insegura, mas me garantiu que se eu tivesse paciência, ela tentaria melhorar. Eu topei numa boa, até porque nunca tinha tido experiência de estar com uma pessoa tão ciumenta, então nem imaginava o quão problemático isso poderia ser. Quando as situações de ciúme começaram a acontecer, eu comecei a ceder em tudo para evitar brigas", conta ela, que chegou a se afastar de alguns amigos de quem a ex não gostava.

"Por fim, deixei que ela tivesse todas as minhas senhas de redes sociais, e o ciúme ainda assim não passava. Ela tinha até a digital cadastrada no meu celular. Basicamente, deixava ela controlar tudo para ela ver que eu não estava querendo nada com ninguém e dessa forma evitar desgaste, porque me cansava muito brigar por ciume toda hora. Infelizmente, isso não resolveu os problemas", conta ela, que pediu para ter a identidade preservada por ainda gostar da ex e não descartar a possibilidade de voltar um dia.

"Hoje, só voltaria se sentisse que as coisas mudaram. Não quero voltar para as mesmas experiências. Nunca mais", diz ela.

Atenção para a linha que separa o saudável do excessivo

Adriana explica que é normal experimentar incômodo ou ciúme com alguma atitude do outro no ambiente virtual, como observar algum contato muito assíduo com outra pessoa.

"Nesse caso, em uma relação saudável, você pode conversar com o outro, procurar dizer o que você observou e o que foi que te incomodou, abrir o diálogo, procurando o entendimento", diz, sobre a forma positiva de lidar com os incômodos virtuais.

Sentir ciúme é normal, assim como é normal observar o outro na rede social. O que não é normal é que a sua vida gire em torno disso

É estranho se você estiver lá o tempo todo vendo o que o outro está fazendo, quem está comentando, quem está curtindo. "Isso é querer dominar o outro, o espaço, a vida. O stalker pode até dizer que essa é sua forma de gostar, de zelar, mas é um jogo de dominação, nem sempre consciente", explica.

Adriana alerta que esses casos devem ser observados com cuidado e atenção: um abuso dificilmente vai ficar só no campo virtual por muito tempo. "Esse tipo de ciúme manifestado pelas redes sociais e no espaço virtual pode evoluir para algo bem mais grave, mesmo homicídio. Quem tem a patologia deve procurar tratamento".