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O que está por trás da mudança de estilo dos principais funkeiros do país

O cantor Kevinho com uma jaqueta Versace no clipe "Facilita" - Divulgação/Kondzilla
O cantor Kevinho com uma jaqueta Versace no clipe "Facilita" Imagem: Divulgação/Kondzilla

Natália Guadagnucci

Colaboração para Universa

01/06/2019 04h00

Dentro de uma boate, Kevinho coloca uma vitrola para tocar e, em seguida, surge no centro da tela, rodeado por um grupo de dançarinos. De imediato, o que prende a atenção é a jaqueta ultracolorida que o cantor veste por cima de uma camiseta e calça pretas. A peça, estampada com elementos da Grécia Antiga, faz parte da coleção de primavera 2019 da grife italiana Versace -- um modelo similar está à venda no Brasil por cerca de 13 mil reais. Na cena seguinte do clipe de "Facilita", que é o mais recente lançamento solo do artista, ele aparece com um moletom com estampa barroca, também da Versace.

O visual fashionista e bem editado pouco se assemelha ao que Kevinho exibia em "Olha A Explosão", seu primeiro hit, lá em 2016, em que aparece com uma bermuda de tactel e muitos acessórios dourados. De lá para cá, nem só a etiqueta das roupas mudou: o funkeiro assinou contrato milionário com a gravadora Warner, deixou o título de MC para trás e se consolidou como um verdadeiro fenômeno da música pop brasileira, rompendo as fronteiras do funk e se aventurando também por gêneros como o sertanejo universitário. Hoje, é difícil superar suas marcas: dos dez clipes mais vistos do canal da produtora KondZilla, Kevinho está em quatro. Sozinho, o clipe de "Olha A Explosão" tem mais de 900 milhões de visualizações.

O upgrade em seu estilo tem nome e sobrenome (dois, aliás): Léo Bronks e Emerson Timba. Desde meados de 2017, tudo o que Kevinho veste nos clipes e aparições públicas passa pelo crivo da dupla de stylists por trás da empresa Single Style. "Kevinho tem como referências Maluma e J Balvin. O que a gente faz é adaptar esses estilos à nossa realidade, com outro clima, outro acesso às grifes", conta Bronks. No guarda-roupa do cantor, ganham espaço camisas estampadas, jaquetas esportivas coloridas e sapatos de grife, como mules Gucci ou tênis Balenciaga.

Outro exemplo da veia fashion aflorada de Kevinho, o clipe de "É Rave Que Fala" mostra o artista em conjuntos de moletom de cores vibrantes e um blazer florido. "Em um clipe, a gente tem muito mais liberdade com as roupas do que na TV, que proíbe qualquer peça com logos", explica Bronks, que, ao lado do sócio, é responsável também pelos looks dos MCs MM, Hollywood e Kekel.

Esse último, aliás, é outro a passar por uma transformação nítida desde seu primeiro hit. "O primeiro clipe que fizemos com o Kekel foi 'Pra Te Esquecer', em 2017, e na época ele foi bem resistente, mas com a repercussão que o vídeo teve, entendeu que a mudança era necessária", diz o stylist. No clipe, o MC usa um conjunto de short e jaqueta jeans rosa claro, bem diferente do visual simples do clipe de "Partiu", de 2016, seu primeiro grande hit e também o primeiro clipe publicado pela KondZilla. Já no vídeo de "Amor de Verdade", sucesso em parceria com MC Rita, Kekel vive o auge de seu novo estilo -- a produção com jaqueta dos Yankees e óculos de sol Versace, mais elaborada que a de Rita, rouba a cena. Em seu guarda-roupa, as estampas agora são elemento-chave -- da clássica xadrez até as mais extravagantes.

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

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Mudanças vêm com o sucesso e o dinheiro. E têm influências americanas

"A mudança de estilo do Kekel era o que o momento pedia. Quando você atinge um certo patamar de sucesso e poder aquisitivo, sente um dever de se dedicar mais ao visual", explica Bronks. Hoje é como se os artistas assumissem personas especialmente confeccionadas para as suas aparições públicas. "De um lado estão o Keldson e o Kevin, pessoas comuns, e de outro, estão Kekel e Kevinho, artistas. No dia a dia, pode ser que o Kekel ainda use Oakley [como fazia nos clipes do começo da carreira]. A diferença é que agora ele separa esses dois momentos", define o stylist.

As referências de Bronks e Timba vêm do rap e do trap dos Estados Unidos, e nomes como Tyler The Creator, Lil Uzi Vert, Travis Scott e o grupo Migos. Para compreender os desejos de agora, a dupla também faz o exercício de olhar para trás, resgatando referências como o estilo swag, característico do universo do hip hop no começo dos anos 2000 -- pense na imagem de 50 Cent no vídeo de "P.I.M.P" em 2003, ou Nelly em "Dilemma", de 2002.

Outra inspiração é o icônico alfaiate Dapper Dan, que, direto do bairro do Harlem, em Nova York, revolucionou a moda durante a década de 1980. Na época, ele copiava os monogramas de grandes marcas, como Gucci e Louis Vuitton, e os aplicava em suas próprias criações, extravagantes e em nada parecidas com o que se fazia e que se usava nas ruas até então. Não demorou para que as peças caíssem nas graças dos rappers e DJs da cidade, que viram nele um caminho para um visual único que fosse acessível -- não só financeiramente. Seu público, majoritariamente negro, não era bem-vindo nas lojas das grifes, ainda que tivesse dinheiro para comprar os produtos. No começo dos anos 1990, por razões legais, o alfaiate se viu obrigado a fechar seu ateliê. Em 2018, veio o retorno triunfal ao mundo da alta moda: Dan foi chamado pela Gucci para uma parceria, além de receber ajuda para reabrir seu endereço no Harlem. "Os pretos e pobres não tinham acesso às roupas de grife, e Dapper Dan resolveu transformar esse cenário", resume Léo Bronks.

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Imagem: Divulgação

Longe do estigma

Para Camila Franco Monteiro, doutoranda em Música e Mídia na Inglaterra, a busca por um novo estilo também tem a ver com querer se distanciar do estigma que o funk pode trazer. Vestir grifes, apostar em looks mais parecidos com o de astros internacionais e até colaborar com nomes de outro gêneros musicais, para a pesquisadora, são reflexos disso. "É uma mistura de representar o lugar de onde veio e de mostrar que não é mais pobre. Mas, ao mesmo tempo, é também uma forma de proteção. A gente sabe que quando vão ocupar outros espaços, [os artistas] são agredidos de diversas formas. Existe um preconceito muito velado", diz.

"Kevinho tirou até o MC do nome, atingiu outro patamar. É muito significativo que quando um artista fica muito famoso, o título de MC cai fora. [O mestre de cerimônia] é muito característico do funk, da cultura local. Eu vejo isso como um um sinal dos tempos -- ficar distante do funk até para tocar mais em rádio. Recentemente o Kevinho fez música com Gusttavo Lima, antes disso Anitta fez música com a Simone e Simaria. Apesar de também ser muito local, o sertanejo está sempre em alta e carrega menos estigma. E o fato de ser majoritariamente branco não é coincidência", completa.

Ocupar espaços nas rádios, na TV e em casas de show fora das periferias também significa estar vulnerável ao comportamento de um público nem sempre acolhedor ao que é novo, especialmente se esse desconhecido representar a população negra, pobre e periférica. Quando a artista em questão é mulher, somam-se aí as questões de gênero, atreladas ao preconceito em torno do visual marcado pela sensualidade das funkeiras. "As letras das músicas e as coreografias do funk tornaram-se sinônimo daquilo que a imprensa classificava como uma 'inaceitável vulgaridade' e, nesse tom, foi se construindo a atual base de ataque a esse lazer popular", escrevem Rosilene Alvim e Eugênia Paim em "A febre que nunca passa: o funk, a sensualidade e o 'baile do prazer'", em referência à imagem das funkeiras entre o fim da década de 1990 e os anos 2000. Não à toa, ao criar a tal persona artística, muitas cantoras do ritmo agora preferem se distanciar do estereótipo que envolve shorts e tops curtos, com muita pele à mostra.

É o que conta Rodrigo Polack, stylist de Ludmilla desde 2015. "Quando começamos a trabalhar juntos, ela era uma menina em busca de um estilo marcante, em um momento de transição do funk para o pop. Ela não queria ser tachada só como funkeira. Eu entrei para tornar esse estilo mais contemporâneo, apresentar silhuetas novas, marcas diferentes, tirá-la da zona de conforto", explica. Ludmilla usava muita roupa justa, que marcava o corpo. "Aos poucos, introduzimos elementos que ela já amava, como o tênis, a outros novos, como a modelagem oversized. Hoje o visual dela é um contraponto entre sexy e esportivo, mas também não é preso a isso", diz ele.

Mudar o estilo significa deixar as raízes?

A pesquisadora Camila Franco Monteiro considera que essas mudanças também são sintomas de uma busca pela internacionalização da carreira. Para ela, o movimento puxado por Anitta tem levado outros artistas, especialmente os que também têm origem no funk, a tentar trilhar caminho parecido ao da cantora. "A questão é que quando você sai da periferia e passa a falar para mais gente, a sua imagem precisa ficar mais abrangente. Uma imagem que faça sentido no mundo inteiro", justifica o stylist de Ludmilla.

Em 2012, quando publicou seus primeiros vídeos cantando na internet, ainda como MC Beyoncé, Ludmilla logo viralizou com seus passinhos, rimas rápidas e voz potente. O sucesso foi tanto que, no começo de 2014, foi contratada pela Warner. Desde então, tem passado por uma série de mudanças -- no nome, na estética, no guarda-roupa -- que a tornam alvo constante de críticas e discussões a respeito de estar negando as suas raízes. "A transformação do tipo 'makeover' não deixa de ser um alerta de quando o artista está indo para um caminho de embranquecimento. É também uma forma de se associar à imagem de vencer na vida", contextualiza Camila Franco Monteiro.

Por mais que tenha mudado, e a despeito do que está por trás dessas alterações estéticas, Ludmilla não está isenta do peso que vem com o funk. Até hoje, enfrenta resistência de marcas poderosas. "No começo, a gente levava não de várias marcas. A Lud não é essa menina padrão que veste 36, é negra, e, por mais que hoje em dia seja mais fácil, ainda há muito preconceito. Ela demorou para ser capa de revista, para fazer campanha publicitária. Hoje é embaixadora da Puma, mas muitas grifes ainda falam que ela não é o perfil, não querem se associar ao funk", conta Polack.

Made in Brazil

É por isso que muitos stylists optam por marcas menores, nacionais e com produção em ritmo de slow fashion. No caso de Ludmilla, entre as etiquetas favoritas estão a mineira Apartamento 03 e a Ellus -- que assina todos os os looks do próximo DVD da cantora. "Todo mês mandamos desenvolver de 12 a 14 roupas para os shows, feitas especialmente para ela e que em geral não são repetidas", explica Polack. Em seus momentos fora do trabalho, contudo, Ludmilla ainda prefere as grandes grifes -- Louis Vuitton, Burberry, Prada e Philipp Plein despontam como favoritas. "Ela prefere comprar essas grifes fora do país, até para evitar algum tipo de negativa nas lojas", diz o stylist.

Léo Bronks endossa o coro: "As marcas ainda têm resistência em trabalhar com artistas de funk. Quando começamos, entramos em contato com mais de 50 -- todas nacionais e não muito grandes. As poucas que responderam estão com a gente até hoje, como a Pace Company. A verdade é que o público é mais maleável do que as marcas em si. Algumas perceberam isso e hoje vêm atrás da gente". Entre as apostas do stylist de Kekel e Kevinho, estão nomes como Seven Brand, Harder Brand, Gold Life, On The Run e The Saint Mafia -- boas representantes da nova geração do streetwear brasileiro.

Outra vantagem de trabalhar com nomes menores, de acordo com Bronks, é a de ser mais acessível ao público. "Além de a peça de grife ser cara, limita o nosso trabalho. Se temos um valor X para gastar e usamos tudo com grife, vamos ter menos peças para trabalhar. Também não adianta usar um look 100% grifado se o público não tem acesso. Comprar um boné igual ao do ídolo faz diferença para um fã, e é algo que gera um retorno positivo para o artista. Algo que a grife não proporciona."

Para as marcas pequenas, essa relação também traz resultados positivos, como conta Rafael Nascimento, diretor criativo da Another Place, label sem gênero de Recife (PE) e estreante da mais recente edição da SPFW (São Paulo Fashion Week). "Sempre temos um retorno muito bom quando os artistas usam as nossas peças, e os fãs geralmente querem o look igualzinho", afirma o estilista, que veste nomes como Pabllo Vittar, Anitta e Ludmilla -- no clipe de "Solta a Batida", os looks com inspiração esportiva da cantora levam a etiqueta da marca. O contato com artistas considerados fora dos padrões também ajuda a trazer uma pluralidade à imagem da marca. "A roupa pode e deve transitar em diferentes e diversos corpos, meios e realidades", completa o designer.

Até quando os stylists optam por marcas caras, preferem as não-tradicionais. As peças delas também custam milhares de dólares, mas refletem um movimento novo da moda. A Off-White é bom exemplo disso. Hoje uma das marcas mais desejadas ao redor do mundo, a etiqueta começou despretensiosa, associada à cultura do hip hop e do grafite nos EUA. Seu fundador e diretor criativo, Virgil Abloh, é bom representante dessa presença outsider no cenário fashion e também da relação simbiótica que o novo streetwear tem com a música de origem periférica. Ex-braço direito de Kanye West, Virgil é hoje o primeiro homem negro a ocupar a direção criativa da Louis Vuitton, uma das casas de moda mais tradicionais do mundo.

Anna Boogie, stylist que trabalha com artistas como Clau, Malia, Tropkillaz e produz também looks da MC Pocahontas, é outra a escolher designers fora do radar para suas produções. "Prefiro trabalhar com marcas nacionais e autorais, que ainda não foram para o mainstream", diz ela. Em sua lista, figuram nomes como Okoko & Abel, Rober Dognani, Felipe Fanaia, Lucas Regal Electric Boots & Belts e Igor Dadona. "Quando a Pocahontas assinou com a [gravadora] Warner, a ideia era que eu desse uma nova roupagem a esse momento, mantendo o mercado que ela já domina ao mesmo tempo em que atinge outros. Meu trabalho tem sido deixar esse visual mais fashionista, mais pop. É pegar uma calça esportiva e colocar um salto alto. Ela é naturalmente sexy, e eu não quero e nem posso tirar isso dela. O que eu faço é trabalhar isso a seu favor", conta a stylist, que traz referências de Nicki Minaj e Cardi B para a nova versão de Pocahontas. "Se lá fora o rap é o gênero mais pop, aqui quem cumpre esse papel é o funk, então olho muito pra esses dois universos que, no fim das contas, convergem", conta Anna.

As medidas do sucesso

Para a pesquisadora Camila Franco Monteiro, essa aspiração à imagem dos artistas americanos ligados ao rap também tem a ver com a sensação de conquista não só material, mas de novos espaços. "É um imaginário que ainda é sinônimo de sucesso", comenta ela.

Os símbolos de ostentação de fato ainda são uma constante no universo do funk, mas ocupam hoje um papel de coadjuvante. Os carros, mansões e as roupas caras agora aparecem nos clipes e letras de maneira mais sutil, menos escancarada em comparação à época em que funk ostentação vivia seu auge, entre meados de 2012 e 2015. O cenário era outro; era o retrato de um período em que o tênis de mil reais da Mizuno, o óculos espelhado da Oakley e a camiseta da Tommy Hilfiger eram novidade na realidade dos jovens da periferia, devido em parte à influência da política de incentivo ao consumo e de crédito do então governo federal, que aumentou a renda das famílias. "Hoje, a situação econômica em que a gente vive não deixa muito espaço para essa ostentação absurda. As coisas mudaram rápido nos últimos anos; talvez por isso agora a ostentação seja mais velada. Até as letras mudaram bastante", diz Camila. "O sucesso e o dinheiro são efêmeros, tanto é que muitas pessoas do funk fazem sucesso e depois voltam a ficar pobres. Não é a longo prazo, por isso faz sentido ostentar, querem aproveitar aquele espaço".

Para entender a transformação no funk desde a época da ostentação até agora, poucos métodos vão ser tão eficazes quanto assistir a clipes da KondZilla ao longo dos anos. A produtora, que ajudou a consolidar o estilo marcado por grifes em toda a parte, agora se dedica a contar histórias mais diversas em suas produções. Para explorar ainda mais sua ligação com a moda, a empresa desenvolveu uma marca própria, a KondZilla Wear. "A KondZilla criou algo que não existia nos clipes de funk. A evolução, tanto dos looks quanto da produção dos vídeos e da própria empresa, é fruto da necessidade de inovação. O público precisa ser surpreendido para se manter interessado, por isso estamos em busca constante por novas ideias e referências", diz Alana Leguth, diretora criativa da KondZilla Wear.

A marca, que começou em 2012 vendendo apenas bonés, passou a confeccionar camisetas, moletons, bermudas e acessórios. Uma das linhas mais icônicas, chamada "A Favela Venceu", faz uma releitura de roupas e acessórios de grifes, inserindo o nome KondZilla no lugar dos logos de marcas como Gucci e Trasher. É emblemático que seja esse o título da coleção que, no melhor estilo Dapper Dan, também dá novos significados a etiquetas inalcançáveis para grande parte das pessoas. É um acesso a outras realidades via consumo que, como define Léo Bronks, está conectado à ideia de realizar sonhos: "É o valor afetivo da moda".

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