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Mulheres inspiradoras


Mulheres inspiradoras

Bia Figueiredo, da Stock Car: "Os meninos me jogavam para fora da pista"

Bia é um dos maiores nomes da Stock Car e coleciona vitórias no automobilismo - Folhapress
Bia é um dos maiores nomes da Stock Car e coleciona vitórias no automobilismo Imagem: Folhapress

Jacqueline Elise

Da Universa

06/03/2019 04h00

Quem conhece a história da pilota brasileira Bia Figueiredo, 32, não imagina de onde surgiu um interesse tão grande por carros logo na infância. Filha de pai médico e mãe dentista, ela nunca teve familiares trabalhando no automobilismo, mas conta que a paixão surgiu quando tinha apenas três anos. Com oito, seus pais lhe colocaram nas aulas de kart. Menos de um ano depois, já participava de corridas. Correu nessa categoria por nove anos e venceu campeonatos.

Depois, passou pela Fórmula Renault e foi a primeira mulher a vencer uma corrida do prêmio. Desde então, Bia coleciona vitórias e competições na Fórmula 3 Sul-americana, na Indy Lights dos Estados Unidos, na Fórmula Indy e, hoje, é um dos principais nomes da Stock Car.

O amor pela velocidade veio quando Ayrton Senna estava no auge, nos anos 1980. "Desde essa idade eu queria brincar de carrinho, andar no banco do motorista do carro do meu pai. Ele decidiu me levar para ver algumas coisas de carros quando eu completei cinco anos. Eu enlouqueci. Queria começar a correr de qualquer jeito, via os carrinhos de kart capotando e achava superemocionante", conta Bia.

Quando iniciou no kart, viu que tinha jeito para a coisa logo na primeira corrida. "Lembro que não cheguei em último e eu me gabava por isso, porque todo mundo dizia que você sempre fica por último na primeira vez. E aí fui crescendo, peguei minhas primeiras pole positions já no primeiro ano de kart, também venci minha primeira corrida no meu primeiro ano, em Itu (SP). Assim fui ganhando nome no kartismo, para daí crescer no automobilismo".

Uma intrusa no "clube do bolinha"

Durante a infância e a adolescência, ela era a única menina nas corridas de sua categoria, inspirada por nomes como a brasileira Suzane Carvalho e as norte-americanas Sarah Fisher e Danica Patrick. Hoje, já consolidada na carreira, Bia relembra que, quando começou, era ainda mais duro ser mulher no automobilismo e que presenciou muito machismo no kart.

"Eu tinha de lidar com os meninos, que eram muito imaturos. Hoje, na Stock, se algum dos caras brinca que perdeu para mim eu sei que é brincadeira de verdade. No kart, não, os meninos eram zoados pelos técnicos, pelos mecânicos e pela própria família, tudo porque eu tinha ganhado deles. Tinha muita pressão. Isso sem contar que eles costumavam bater no meu carro e me jogar para fora da pista. Tive que fazer um treinamento para aprender a bater, ultrapassar, revidar. Se eles batessem em mim, eu teria como bater de volta".

Ela conta que, nas outras categorias, já não havia essa rivalidade. "Hoje, quando alguém bate em mim, não sinto que é por causa do meu gênero. Mas quando for injusto eu vou tirar satisfação", afirma. Apesar das corridas serem justas, o espaço para as mulheres ainda é limitado. "Gostaria que mais mulheres participassem. Tive muita ajuda na minha carreira. Hoje, eu mentoro a Antonella Bassani [que tem apenas 12 anos], que está no kart. Quero ajudar mais pessoas, dar mais uma chance para outras que estão vindo por aí".

Em janeiro de 2019, Bia correu pela primeira vez nas 24 Horas de Daytona, tradicional corrida de carros protótipos e de gran turismo na Flórida (EUA), com uma equipe 100% feminina. Na Stock Car, ela conta com uma engenheira, Rachel Loh, em sua equipe (a única da categoria).

A pilota crê que, para ter uma maior participação de mulheres no automobilismo, não é preciso criar categorias separadas por gênero, mas haver uma mudança na sociedade. "Ainda vemos que os pais incentivam mais os meninos a gostarem de carrinho do que as meninas. É um processo de mudança cultural, de empoderamento, para dar mais chances às mulheres", pensa.

Capota, mas não breca

Para participar de uma corrida de carros, somente pegar no volante não é o suficiente. Ainda mais na Stock Car: a temperatura dentro do carro, que é fechado, pode chegar a 60ºC. Bia conta que foi se acostumando aos poucos com a pressão.

"Cada categoria exige uma preparação diferente: na Indy, dirige-se um carro aberto como na Fórmula 1. Não é tão quente, mas exige muito fisicamente, porque o carro não tem direção hidráulica e as corridas levam mais de uma hora. Na Stock, o carro tem direção hidráulica, mas é fechado, então a temperatura lá dentro é muito alta. Quando estreei, dei sorte, porque era corrida em duplas. Então, o tempo que você andava no carro não era tão grande. Mas durante um ano peguei corridas mais longas e foi puxado. Haja água para se hidratar", conta.

Apesar de nunca ter se envolvido em acidentes muito graves, Bia conta que se arriscou muito em uma de suas corridas. "Na minha primeira corrida na Fórmula Indy, na primeira volta, eu tive um toque em outro piloto e a gente bateu roda com roda. O volante virou minha mão para o lado contrário para onde eu estava virando. Quebrei um osso da mão chamado escafoide. Estava doendo mas continuei correndo. Cheguei em 14º. Quando eu saí do carro, senti o impacto. Fui ao médico e, no raio X, vi que meu osso estava dividido ao meio. Perdi uma corrida do campeonato e nas outras eu não estava 100%. Mas muita gente se surpreendeu que eu aguentei a corrida toda com a mão quebrada".

Agora, com a mão recuperada após uma cirurgia e a inserção de um pino, ela se diverte dizendo que "faz apitar todos os alarmes de segurança do aeroporto".

Mas não só de perrengues se vive um piloto: Bia colecionou muitas vitórias e corridas históricas. "Acho que os principais momentos de alegria foram as vitórias, naturalmente. Teve a Fórmula Renault na pista de Campo Grande [em 2005; foi a primeira mulher do mundo a vencer nessa categoria]. E também teve as Indy Lights que eu venci, uma em Nashville e outra em Iowa (EUA). Essas vitórias foram muito importantes para eu subir de categoria, para finalmente ir para a Fórmula Indy. Sem contar as 500 milhas de Indianápolis. Era meu sonho, essa é uma das corridas mais antigas do mundo. Não venci o prêmio de Melhor Estreante do Ano porque tive um problema no pit stop, mas foi histórico para mim", relembra.