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Ex-atriz da Globo agredida pelo marido: "Ele me ameaça de dentro da cadeia"

Cristiane Machado conta rotina após prisão do ex-marido - Arquivo Pessoal
Cristiane Machado conta rotina após prisão do ex-marido Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

25/02/2019 04h00

A vida da atriz Cristiane Machado, 35, se resume a reuniões com advogados e terapia, três meses após sofrer uma tentativa de feminicídio e conseguir que seu marido e agressor, o empresário Sergio Thompson-Flores, fosse preso. Os encontros com a psicóloga acontecem duas vezes por semana, e ela considera as sessões um dos poucos momentos que a acalmam -- os outros são o colo da mãe e a expectativa pelos lançamento de dois filmes em que ela atua: "Fear" e "Quando Chega a Hora de Esquecer", previstos para estar no cinema no segundo semestre. "Pelo menos um alívio em meio a esse caos", diz.

Cristiane denunciou o ex-marido por violência doméstica e tentativa de feminicídio. Por medo de ser morta e de os pais serem assassinados por ele, ameaças que ela recebia constantemente, a atriz instalou câmeras na casa onde o casal morava, no Rio de Janeiro. Ela divulgou os vídeos das agressões à imprensa assim que ele foi preso, em 25 de novembro de 2018. "Ele é muito poderoso. Sem as câmeras, ninguém acreditaria em mim. Eu continuo com medo de morrer. A cada pedido de habeas corpus, eu passo mal de tão apavorada que fico". 

Atenção: imagens fortes.

Cristiane sofre de uma labirintite, causada por uma perfuração no tímpano após um tapa que levou de Sergio, e afirma que ainda é ameaçada por ele de dentro da cadeia, por meio de cartas enviadas pelos advogados dele. Ela falou com exclusividade à Universa

Você pretende lançar um livro no segundo semestre. Será uma autobiografia?
Um tipo de autobiografia. Vou contar minha história com detalhes, mas vou reunir, também, relatos de outras mulheres que foram agredidas e de famílias que tiveram vítimas de feminicídio. O livro vai mostrar meu dia a dia até a denúncia e o pós-denúncia, momento para o qual as pessoas não dão tanta importância. Insistem para que a gente denuncie, mas ninguém sabe o que acontece depois. Eu respondo: o medo não acaba, ele continua me procurando. Mas, antes, me sentia como um pássaro na gaiola. Agora sou um pássaro renascendo. 

Vocês se falaram depois que ele foi preso?
Ele me manda cartas através dos advogados, tentando me aterrorizar, pedindo que eu saia da casa, que é nossa, e falando de divisão de bens. Esses dias, ele me mandou uma carta falando que vai ficar com os guardanapos de casa. Dá para acreditar? O homem que tentou me matar está, de dentro da prisão, pedindo guardanapo. E fica claro para a minha advogada que isso é uma tentativa de me desestabilizar, e é um tipo de violência psicológica, uma ameaça. A cada pedido de habeas corpus, eu fico aterrorizada. Se um homem quebrou tantas vezes a medida protetiva [entre a denúncia e a prisão, houve um intervalo de um mês, período em que ele não poderia se aproximar dela, mas a procurou], o que vai acontecer com a minha vida?

É pesado continuar morando na casa onde tudo aconteceu?
Sim, mas eu não tenho escolha. Durante o relacionamento, ele não me deixava fazer nada sozinha. Eu tive que negar todas as novelas e trabalhos para os quais fui chamada. Primeiro, com esse discurso de "vamos curtir nosso primeiro ano de casamento juntos e depois você retoma sua vida profissional". Depois, ele partiu para as agressões e me deixou em uma redoma. Por isso, não tenho dinheiro guardado, não tenho como me sustentar em outro lugar. Até pensei em fugir, mas sei que ele vai me achar. Preciso, primeiro, voltar a trabalhar. Hoje, minha vida é processo, advogado e terapia. Faço aulas de defesa pessoal, também.

Como a família dele cuida de você?
Não cuida. Não recebi uma ligação sequer da família dele desde que ele foi preso. A única mensagem que o filho dele me mandou foi para dizer que havia dispensado o caseiro da casa e a empregada que trabalhavam lá. O mais louco é que fui eu quem o reaproximei da família. Ele não ligava para os filhos nem para a mãe, mas eu fiz essa ponte. Agora, parece que todo mundo está preocupado com herança. É só o que importa. 

O que você descobriu de mais surpreendente sobre o universo da violência doméstica?
Que tudo demora muito. A mulher precisa estar muito a fim de levar o caso adiante, porque ela é desencorajada o tempo todo. Demora tanto que, até hoje, eu não consegui me divorciar do homem que tentou me matar. O processo de divórcio não foi concluído. Já faz três meses que ele está preso. É bizarro. Também descobri que o lugar mais perigoso que existe é o quarto, dentro da nossa própria casa. 

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Publicamente, você recebeu bastante apoio. Isso se estendeu à sua vida privada?
Não. Senti que muitas pessoas se afastaram de mim. Algumas porque não sabiam como me confortar, outras por medo dele, e, acho eu, que até por preconceito. Minha história se tornou pública, foi um escândalo. Ainda assim, consegui descobrir quem são os amigos de verdade. São poucos, mas eles existem. Fazem mercado, limpam a casa. Cuidam como dá. Minha mãe me dá colo, coitadinha. Ela tem uma deficiência física, precisa de uma cadeira de rodas, e, quando denunciei o Sergio, cheguei na casa dela chorando. Ela me disse: "Queria não ter essa deficiência para cuidar de você". 

Depois do que rolou, você é capaz de olhar para trás e fazer uma análise?
Sim. Eu deveria ter ido embora no primeiro empurrão. Mas eu achava que ele era meu príncipe encantado. Eu sempre sonhei em me apaixonar. E o que eu sentia por ele era muito intenso. Só que ele começou a se impor demais. O Sergio não sabia ouvir "não" e eu fui cedendo para não brigar. Começou a interferir, inclusive, em quem visitava a casa dos meus pais. Depois das agressões, chorava, se arrependia. Eu o denunciei uma vez e voltei atrás depois de ele ajoelhar no meio da rua pedindo desculpas. Nunca mais vou passar por isso. 

Uma mulher foi brutalmente agredida por um homem no Rio de Janeiro, na última semana. Você consegue enxergar similaridades entre o seu caso e o dela? 
Sim. Tanto eu como a Elaine fomos agredidas por dizermos "não" a homens. Apesar de as situações serem diferentes, quase morremos. Um homem não pode se achar no direito de espancar uma mulher. Fui até o hospital na semana passada visitá-la, mas quando cheguei, já tinha acabado o horário de visitas. Quero voltar essa semana, abraçá-la e dizer que ela não está sozinha.

Cristiane e Sergio, no dia do casamento, em abril de 2018 - Arquivo Pessoal
Cristiane e Sergio, no dia do casamento, em abril de 2018
Imagem: Arquivo Pessoal

Qual é a parte mais difícil do seu dia?
A noite. Eu durmo três horas por dia, no máximo. Quando durmo, tenho pesadelos com ele. Tive um na semana passada que me fez cair da cama. No sonho, aparecia o rosto dele dizendo: "Você não vai destruir a minha vida". Eu acordei gritando. Tenho pânico só de olhar para o rosto dele, tanto que escondi todos porta-retratos da casa. Algumas mulheres me disseram que as crises de estresse pós-traumático são normais e que elas diminuem com o tempo. Espero. Eu sei que vou vencer esse trauma. 

Você estreia no cinema em dois filmes este ano. Está com saudade de atuar?
Muita. O que eu mais quero é recuperar minha carreira. Esses dois filmes são um alívio, uma coisa boa em meio a esse caos todo. Eu gravei os dois filmes, um hollywoodiano ("Fear") e um brasileiro ("Quando Chega a Hora de Esquecer"), antes de conhecer o Sergio. Inclusive, esse título é bem propício para o momento. Essas estreias, previstas para o segundo semestre, serão um fôlego para mim. Não vejo a hora. 

Violência contra a mulher