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Violência contra a mulher


Abuso sexual por guru reliogoso: por que é difícil ser a primeira a falar?

Mais de 200 denúncias contra João de Deus foram feitas no MP de Goiás desde segunda-feira. Para isso, foi preciso a coragem de uma mulher - Cláudio Reis/Estadão Conteúdo
Mais de 200 denúncias contra João de Deus foram feitas no MP de Goiás desde segunda-feira. Para isso, foi preciso a coragem de uma mulher Imagem: Cláudio Reis/Estadão Conteúdo

Talyta Vespa

Da Universa

13/12/2018 04h00

Os abusos sexuais por parte do médium João de Deus vieram à tona na sexta-feira (7), mas atormentam mulheres desde os anos 1980, segundo relatos das vítimas. E foram muitas: até agora, foram mais de 200 denúncias oficializadas, de acordo com o Ministério Público de Goiás. Apenas um pronunciamento — feito no programa Conversa com Bial — foi suficiente para mobilizar essa torrente de denúncias. E por que ela demorou tanto? Por que é tão difícil ser a primeira a denunciar um guru espiritual? 

"É muito grande o medo de se pronunciar contra uma pessoa endeusada por parte da sociedade. O massacre das reações alheias é devastador. Há ainda o temor de ninguém acreditar na violência sofrida, afinal, o cara é Deus na Terra. Além disso, há o impacto nas relações familiares, a exposição pública, mensagens nas redes sociais e até processos jurídicos que o agressor pode mover contra a vítima, alegando que ela o está acusando injustamente", diz Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da Ciência da Religião por 22 anos. 

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Outra questão, pontuada pelo professor de antropologia e sociologia da ESPM Fred Lucio, é a aura quase mística que protege esses homens. Quando a fé no líder é grande, há uma confusão sobre o que ele pode ou não fazer --e o que é errado. 

"As vítimas se questionam se aquilo realmente faz parte de um ritual de cura. Elas viajam horas para encontrar essa figura endeusada e acreditam que é um ser milagroso. Então, pensam: 'Se esse cara faz o bem a tantas pessoas, não pode estar fazendo algo ruim agora'. O abuso se torna subjetivo". 

Lucio explica que é por essa mesma junção de fatores que as vítimas não gritam nem buscam ajuda no momento em que o abuso acontece. "Essas pessoas já estão fragilizadas quando vão ao encontro dos gurus. Algumas estão doentes, outras temem uma doença; há também as que precisam de ajuda financeira, psicológica. Sempre há um motivo e, por isso, elas se entregam. Quando percebem que foram violadas, acreditam que fizeram alguma coisa para despertar o lado mau de um ser tão bondoso", explica. 

"Ser endeusado faz um homem abusar de pessoas com mais facilidade"

Quem acredita nos milagres concedidos por guias religiosos teme que eles também tenham poderes para fazer o mal, segundo Pondé. Em alguns relatos, as vítimas contam que foram ameaçadas pelo poder do João de Deus. "Elas entram na paranoia de que se um homem tem o poder de curar o câncer, ele tem também o de colocar o câncer onde ele não existe." 

Lucio reitera que qualquer contato com seu grande guru religioso coloca a pessoa em uma situação que beira a submissão. "Ela faz o que ele mandar. É como se Deus mandasse; afinal, ele representa Deus aqui na Terra". 

"A sociedade recebe melhor abusos por políticos"

O especialista garante que se o abusador fosse um político e, não, um líder religioso, mais pessoas acreditariam nessas mulheres. "Se fosse um político, como foi o caso do Bill Clinton, a sociedade acolheria a vítima com menos relutância", diz Lucio. Pondé continua: "Existe um contexto cultural que coloca os políticos numa posição de gente que 'não presta'. Já os grandes gurus espirituais são deuses. E isso é tão impregnado na nossa cultura que, mesmo com as denúncias de abusos, inclusive na Igreja Católica, as pessoas continuam relutantes".

"Nenhum líder religioso pode agredir sexualmente alguém alegando cura"

Em nenhuma religião, o ato sexual involuntário pode ser usado como forma de cura. "Cada credo tem as próprias orientações, que servem como um código de lei. Forçar alguém a praticar qualquer ato sexual alegando cura ou renovação de energia não está previsto em nenhuma delas. Portanto, se isso acontece, trata-se de crime." 

O que fazer para driblar o medo e denunciar

O primeiro passo da vítima deve ser procurar alguém de confiança e contar o que aconteceu. "O apoio traz conforto rápido, que é o que a vítima precisa após sofrer a violência. Depois, ela deve buscar apoio institucional de ONGs ou organizações que trabalhem com casos de abuso sexual. Assim, terá suporte para formalizar a denúncia. Com esses órgãos por trás, se sentirá mais protegida". 

Durante todos esses trâmites, é importante que a vítima tenha apoio emocional, segundo a psicóloga e especialista em terapia cognitiva comportamental Ellen Senra. 

"Ser abusada por um grande líder religioso traz uma sensação de culpa que se contrapõe à fé. A vítima se sente invadida mas não consegue questionar inteiramente a autoridade tão reconhecida. É uma coerção que causa traumas gigantes", explica.

"É preciso que ela consiga desconstruir a ideia de que é responsável pela violência que sofreu, e isso só é possível com apoio psicológico. São três vertentes que devem trabalhar juntas: a terapia, o apoio de uma pessoa querida e um apoio institucional", garante.