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"Sou resposta à masculinidade que meu pai representa", diz filho de Edmundo

Alexandre Mortagua, diretor de "Todos Nós 5 Milhões" - Fernanda Liberti/Divulgação
Alexandre Mortagua, diretor de "Todos Nós 5 Milhões" Imagem: Fernanda Liberti/Divulgação

Camila Brandalise

Da Universa

16/08/2018 04h00

Alexandre Mortagua, de 23 anos, é diretor do filme "Todos Nós 5 Milhões", que mistura ficção com depoimentos reais de pessoas que foram abandonadas pelos pais. A estreia está prevista para 2019. Ele é filho do ex-jogador Edmundo, conhecido como Animal por jogar muito bem e por causa de seu comportamento agressivo dentro e fora de campo, e da modelo Cristina Mortagua. A paternidade foi reconhecida, mas ele perdeu o contato com o pai aos 4 anos.

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Em “Todos Nós 5 Milhões”, Alexandre usa o dado que no Brasil 5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro. A ideia foi motivada pela sua própria história, mas ele tentou ir além: discutir por que está implícito na masculinidade que homens não podem expressar afeto. E como isso acaba naturalizando a ausência deles na criação dos filhos.

“Acho que meu papel é discutir e matar a masculinidade que cria esse espectro de ser carrancudo e não demonstrar emoções”, ele diz.

Irônico vindo do filho do Animal? “Não, é superjustificável. É uma resposta. Não minha para ele, pois não tenho nada para dizer para ele. É uma resposta a essa masculinidade”, diz Alexandre, que fala abertamente sobre sua homossexualidade.

Veja o trailer abaixo:

Baseado em fatos reais

Alexandre diz que teve a ideia para o filme quando estudava cinema. Queria fazer algo que fizesse sentido para ele e conversasse com suas experiências. “Apareço no início e no final com a minha mãe. Mas não quero que a minha história se confunda demais com o filme.” Por causa dessa última constatação, prefere não responder perguntas sobre o pai. “Não é sobre isso.”

Falar sobre a mãe, entretanto, não é problema. “Ela me amou muito, fez de tudo para que me sentisse um rei e mostrar que as possibilidades estavam sempre abertas.” O documentário também exalta a presença das mulheres na criação dos filhos. “Sabemos que elas dão conta de criar crianças sozinhas. Mas também têm três turnos de emprego, se arregaçam e conseguem", ele diz. Mas a que custo? “Os homens não estão tomando as atitudes que eles deveriam tomar. Por que nós homens não nos perguntamos por que mulheres reclamam tanto da gente?”, reflete.

Abalo emocional do abandono

O questionamento dos filhos se repete em todas as histórias, inclusive na de Alexandre: “por que meu pai não está aqui?” “[O pai sumir] Mexe muito com a autoestima. Mexeu com a minha. Essa ausência tem algo ruim para a criança. Ela pode sentir que merece menos amor, que é mais difícil de ser amada”, diz.

Fazer o filme, para ele, foi um exercício de autoestima. “Sempre tive a sensação de que havia perdido algo com tudo que vivi. Mas vendo o filme pronto, sinto que ganhei: estou fazendo exatamente o que eu sonhava em fazer com muitas pessoas incríveis em volta.”

Alexandre tem negociado com festivais e distribuidoras para a exibição do longa e salienta que não teve nenhum apoio da Lei de Incentivo à Cultura, apenas patrocínios privados. “Falamos de aborto, de questões de gênero, de direito ao corpo. Para quem tem uma ideia romantizada de maternidade, pode ser um absurdo. Não quero ser acusado de usar dinheiro público para falar disso.”

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