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Barbaridades na web: a internet dá visibilidade ou fomenta o clima de ódio?

O vídeo com cenas chocantes mostra o jovem sendo agredido e xingado - Reprodução/Facebook
O vídeo com cenas chocantes mostra o jovem sendo agredido e xingado Imagem: Reprodução/Facebook

Thamires Andrade

Do UOL

06/01/2017 18h11

Um grupo de jovens torturou um deficiente físico como forma de protesto contra o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. As agressões foram transmitidas ao vivo via Facebook por 30 minutos. E, na filmagem, é possível escutar os agressores gritando insultos contra pessoas brancas e o presidente, além de cortarem parte do couro cabeludo da vítima. O caso está sendo considerado pela polícia de Chicago, Estado onde aconteceu o ocorrido, como um crime de ódio e levanta um questionamento: a internet só dá visibilidade ou ajuda a fomentar esse clima de ódio?

Na opinião de Ana Luiza Mano, psicóloga do NPPI (Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática) da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, a internet não fomenta essas atitudes, é apenas uma ferramenta que as pessoas usam da maneira que bem entendem. "O que acontece é que a internet tem um potencial de exposição e expansão muito grande. Tudo postado repercute rápido e é acessível ao mundo todo", fala.

Clima de ódio no dia a dia

Para Ana Cristina Sério, psicóloga formada pela PUC-SP que faz parte da equipe do site Psicólogos da Internet, o clima de ódio sempre existiu na sociedade, mas, antigamente, era algo mais velado. E a internet é apenas o pano de fundo que exibe como as pessoas se comportam. "Hoje o ser humano tem agido com muito ódio. Há uma dificuldade de olhar e aceitar o outro, quando alguém expressa algo que não concorda, já sai brigando", completa Ana Luiza.

O problema, segundo Ana Cristina, foi que a rede facilitou a criação de 'grupos', ou seja, uniu diferentes pessoas que dividem os mesmos valores e isso as deixou mais fortalecidas para espalhar o ódio. "Na web, todo mundo que gosta do Trump se reúne em um grupo e os que não gostam em outro e, ao formar um grupo, as pessoas sentem que tem força para fazer algo e isso potencializa a chance de acontecer algo ruim", explica Ana Luiza.

Forma errada de protesto

Na opinião de Ana Luiza, o grupo de jovens quis passar a mensagem que acreditava, mas utilizou um recurso ruim e perigoso para isso: a tortura. “A agressão não é a maneira mais efetiva para se comunicar e protestar. O ato de transmitir a agressão foi a maneira que os jovens encontraram para serem ouvidos. Na fantasia da cabeça deles, eles passaram a mensagem do jeito que gostariam. Mas não trouxe os efeitos esperados, apesar de muita gente ter assistido”, afirma.

Segundo a polícia de Chicago, quatro pessoas foram presas suspeitas de participação no crime --dois homens e duas mulheres. Ana Luiza acredita que os jovens usaram a rede social para mostrar o que estavam fazendo por desconhecimento do alcance da internet. “As pessoas não entendem que o que você faz on-line faz parte de quem você é e pode depor contra você em algum momento, por isso, não dá para usar a rede como se fosse um mundo à parte", diz.

Interesse no mórbido

O número de visualizações do vídeo feito pelo grupo deu, na opinião de Ana Cristina, uma falsa sensação de que eles receberam apoio de quem estava acompanhando a transmissão. “Mas, na verdade, quem viu não necessariamente concorda com o que aconteceu, muitas vezes, a curiosidade pelo mórbido é o que atrai as pessoas”, afirma.

Ana Luiza concorda e até destaca que, geralmente, as notícias mais trágicas configuram as mais clicadas nos portais de notícias. “Se tiver foto e vídeo, aí é que entram mesmo. As pessoas têm muita curiosidade, pois a agressão e a violência são reprimidas para que todos possam viver bem em sociedade. Então, quando alguém divulga, todo mundo quer ir lá ver”, explica.

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