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Paola Antonini: 'Não quero minha perna de volta de jeito nenhum'

Laís Alegretti - @laisalegretti - Da BBC News Brasil em Londres

31/08/2021 19h05

Skate, yoga, dança, musculação e trilha estão entre as atividades que a influencer Paola Antonini mais gosta de praticar. O esporte preferido hoje é o surfe. Mas ela enfrenta uma limitação: mora em Belo Horizonte, longe do mar.

"Mas em todo lugar que eu vou que tem praia tento fazer uma horinha pelo menos."

A relação com os esportes se intensificou depois do acidente em 2014 que levou Paola Antonini, então com 20 anos, a ter sua perna esquerda amputada.

"Foi um momento que mudou muita coisa e principalmente me fez querer viver mais e mais e tentar coisas novas. Todo mundo falava: isso aqui vai ser difícil. Daí eu falava: então vou tentar. E aí eu comecei a me exercitar muito, a tentar coisas como skate, surfe, dança... Todos os esportes possíveis."

Com quase 3 milhões de seguidores no Instagram, Paola Antonini destaca a importância de ter pessoas com deficiência realmente incluídas na sociedade - o que, ela defende, deve ocorrer desde a escola.

E se orgulha de se ver como referência para algumas crianças - como uma garotinha não amputada que tirou uma perna de uma boneca e disse para a mãe que aquela se chamaria Paola.

Quase sete anos depois do acidente, ela - que é conhecida por usar sua prótese "encapada" com tecido colorido e brilhante - diz que não gostaria que o corpo fosse de outro jeito. Afirmou que seria "muito diferente ter uma perna igual à outra" e que às vezes nem se reconhece em fotos antigas: "Parece que tá faltando uma coisinha."

"Não quero a minha perna de volta de jeito nenhum. Amo meu corpo, amo essa perninha dourada brilhante e é isso. É um corpo diferente, que me fez aprender coisas diferentes, mas que me trouxe uma vida muito feliz e que me fez chegar nos meus sonhos também."

A seguir, confira os principais pontos da entrevista concedida à BBC News Brasil.

Paralimpíada

Paola critica o que considera uma diferença no tratamento de atletas olímpicos e paralímpicos e afirma que isso se reflete inclusive em números de seguidores nas redes sociais.

"A gente sabe que o incentivo ao esporte em geral já é muito complicado, mas o paralímpico principalmente", diz. "Faltam incentivos. Até em números a gente vê, em redes sociais - os medalhistas das olimpíadas e das paralimpíadas, como é discrepante. Com certeza tem uma diferença muito grande."

Ela diz que a Paralimpíada é um evento "extremamente importante", ao colocar pessoas com deficiência no foco, mas diz que ainda há um longo caminho em termos de inclusão em outros aspectos do dia a dia.

"A gente deveria estar em todos os lugares - na televisão, nas campanhas, em todas as áreas, todas as profissões, mas a gente sabe que não é assim. Tá evoluindo, o mundo tá realmente abrindo portas e criando oportunidades para pessoas com deficiência, mas é uma caminhada ainda muito lenta. As oportunidades são para pouquíssimas pessoas."

Uso do termo 'superação'

Entre as expressões que muita gente usa - especialmente durante a Paralimpíada - e que podem ser consideradas como discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência (capacitismo), ela aponta o chamado discurso de "superação".

"A superação acontece, por exemplo, no meu caso: perdi uma perna e dei a volta por cima. Aí é uma superação, sim, acho muito bacana. Mas quando você vê uma pessoa com deficiência e fala: nossa, que superação... Não, não é um exemplo de superação, é uma pessoa que tá ali, é um atleta muito bom, de alto rendimento, que tá com índices incríveis.

Então, é não falar 'nossa, que superação', mas sim 'que baita atleta', 'que competição sensacional'."

"Outros comentários são: 'nossa, eu com dois braços e duas pernas não faço isso'. Não se fala isso porque é um superatleta ali. Você não faz isso porque você não é um atleta", diz. "São essas coisinhas que a gente pode tomar um cuidado de entender que ali é uma competição de alto nível com atletas e não só focar em o elogio ser sempre sobre a deficiência".

Inclusão desde a escola

Para Paola, "a escola é o lugar mais importante pra gente incluir pessoas com deficiência".

"A gente tem que aprender a estar junto com pessoas diferentes e que têm ritmos diferentes, que precisam de coisas diferentes. Isso é muito mais valioso do que às vezes aprender as coisas num ritmo ultra acelerado."

Ela chamou de "absolutamente triste" a fala do ministro da Educação, Milton Ribeiro, de que alunos com deficiência "atrapalham" o aprendizado de outros estudantes - ele disse isso ao defender a criação de turmas e escolas especiais.

"Inclusão é isto: é colocar uma pessoa com deficiência dentro da sala de aula para conviver com todos os colegas e os colegas conviverem com a pessoa com deficiência e verem que tá tudo bem, nós temos as nossas diferenças e isso é o legal", diz Paola. "As crianças que crescem em contato com outras pessoas com deficiência crescem com valores muito importantes - de entender que tudo bem, cada uma tem seu tempo."

Ela defende que, em vez de defender a separação dessas crianças, o governo deveria se preocupar em "colocar dentro das escolas pessoas especializadas em trabalhar com essa inclusão e trabalhar com esse atendimento diferenciado".

Boas próteses: ainda para poucos

Paola reconhece que o acesso que ela teve a excelentes tratamentos e próteses de excelente qualidade é um privilégio - distante da realidade de muitos brasileiros.

"Tive uma oportunidade muito grande - acesso a tratamentos muito bons, a prótese excepcional - e eu sei que não é todo mundo que tem acesso a isso. Pelo contrário. É muito pouca gente. E muita gente não tem ainda ideia do quão inacessível ela é uma prótese - que para uma pessoa adulta vai de R$ 20 mil a R$ 300 mil", diz.

"E a prótese dura cinco anos, quatro anos, a depender do tanto que você usa. Então, quando a gente pensa na população, no geral, quantas pessoas realmente vão ter acesso a próteses bacanas e que possibilitam ter uma vida ativa? Muito poucas pessoas."

A influencer, que já fez vaquinhas online para arrecadar fundos para doação de próteses a pessoas amputadas, criou um instituto com o próprio nome para proporcionar reabilitação de pessoas com deficiência física a partir de doações de próteses, órteses, cadeiras de rodas e acessórios para reabilitação.

"A gente pode estar criando grandes atletas no futuro e profissionais de todas as áreas. Eu quero, daqui a alguns anos, ver vários paratletas saindo do meu instituto e acho que vai se tornar real."

Quase sete anos depois do acidente

Para quem não sabe como foi a situação que levou à amputação de sua perna esquerda, Paola resume assim:

"Eu estava indo fazer uma viagem de carro e no momento que eu estava descendo, na porta da minha casa, e ia colocar as malas dentro do carro, fui atingida por um carro. Aí fui para o hospital e depois de 14 horas de cirurgia eles viram que realmente teriam que amputar minha perna esquerda."

"Foi uma mudança muito drástica na minha vida. Eu tinha 20 anos na época e nunca imaginaria passar por isso - essa mudança tanto física quanto mental mesmo. A gente muda muito como pessoa. E naquele momento eu decidi não pensar em como seria o dia de amanhã. Falei: ah, eu posso ficar muito triste amanhã, não sei como vai ser minha vida, se eu vou ter uma prótese, se eu vou voltar a andar, mas vou viver um dia de cada vez e vou descobrir esse mundo novo."

Uma das perguntas que ela costuma receber é sobre a relação com a pessoa que dirigia o carro que a atingiu.

"Para mim, desde o momento do acidente, foi muito claro que eu não precisava perdoar ninguém. Sei que não foi intencional. Ninguém me atingiria intencionalmente. Foi uma pessoa que errou e imagina o susto que a pessoa tomou, né?"

"Cheguei a encontrá-la anos depois e falei que nunca tinha guardado nada de ruim, que eu só podia fazer o que eu faço hoje por ter perdido a minha perna e que eu sabia o quanto que tinha sido difícil para ela também."

Paola diz que "não ter guardado nada de ruim" foi o que a fez "viver a vida de forma tão leve". E diz que pessoas que cometem erros como este merecem ter a chance de seguir em frente.

"(Desejo) que as pessoas deem oportunidade tanto para quem foi vítima quanto para quem errou e foi culpado. Acho que as pessoas têm que ter oportunidade de seguir e serem felizes", diz.

Mas Paola diz que o processo de aceitar o que aconteceu com ela foi "com muita calma".

"Não perdi minha perna, olhei e falei: 'amo minha perna'. Quando soube que tinha amputado a minha perna, falei: não me sinto pronta para olhar ainda, daqui a pouco eu olho. Em dois dias, olhei ela enfaixadinha. Depois eu olhei ela sem a faixa, depois eu fui para o processo do espelho e aí eu falei: nossa, diferente, agora eu tô vendo que realmente tá faltando uma partezinha. Então, por ter sido com tanta calma e sem me pressionar a amar o meu corpo, foi um processo muito legal. Eu comecei de pouquinho em pouquinho a olhar pra minha perna e agradecer: é por isso que eu tô viva."

Ela, que conta ter negado ofertas para fazer lipoaspiração e propaganda sobre isso, frequentemente fala aos seguidores sobre amar e aceitar o próprio corpo.

"Não sou contra procedimentos estéticos, eu acho que as pessoas decidem se elas fazem ou não, mas eu entendi que a minha felicidade não vem disso, a minha autoestima não vem disso. Este é o perigo: as pessoas acreditarem que depois que elas mudarem tudo no corpo elas vão ser felizes e ter uma autoestima alta. E não é ali que a gente tem que trabalhar, a gente tem que trabalhar é nossa cabeça."