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"Fui estuprada, e agora temo por minhas filhas"

Estuprada pelo ex-namorado, Sarah Midgley teme que o mesmo aconteça com suas filhas - Sarah Midgley/Arquivo Pessoal
Estuprada pelo ex-namorado, Sarah Midgley teme que o mesmo aconteça com suas filhas Imagem: Sarah Midgley/Arquivo Pessoal

20/09/2019 08h43

Fotógrafa Sarah Midgley, de 37 anos, mãe de duas filhas ainda se recupera do trauma de ter sido estuprada há quase uma década pelo ex-namorado e o amigo dele; caso ilustra dimensão do problema da violência sexual na África do Sul.

Uma série recente de estupros e assassinatos de mulheres - incluindo a de uma estudante que supostamente teve a cabeça esmagada e uma universitária que foi espancada até a morte - chocou e causou grande indignação na África do Sul.

Os casos levaram pessoas a organizar protestos de rua, à campanha #AmINext no Twitter e a criar uma petição online com mais de 500 mil assinaturas para exigir o restabelecimento da pena de morte, em um país que luta para conter altos níveis de criminalidade.

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, prometeu uma série de medidas para combater a crise - incluindo tornar público um registro de criminosos, aumentar o número de "tribunais dedicados a crimes sexuais" e sentenças mais duras.

Os estupros de mulheres infelizmente são comuns no país, há várias décadas.

A fotógrafa Sarah Midgley, de 37 anos, mãe de duas filhas que vive na cidade de Joahnesburgo, ainda está se recuperando do trauma de ter sido estuprada há quase uma década.

Ela falou com a repórter Esther Akello Ogola, da BBC Africa, sobre seu caso. Esse é seu depoimento:

"Fui estuprada pelo meu ex-namorado em 2010, exatamente na época da Copa do Mundo na África do Sul.

Meu ex-namorado abusou de mim física e emocionalmente por quase 18 meses antes de eu ter coragem de deixá-lo.

Eu havia ameaçado ir embora muitas vezes antes, mas sempre que eu tentava, ele ficava mais violento.

Ele me chutava, às vezes me sufocava e me mordia. Ele constantemente ameaçava estuprar minhas filhas e matá-las na minha frente se eu ousasse terminar o relacionamento.

Não compartilhei isso com ninguém porque estava sem jeito e envergonhada por não conseguir me defender.

Eu também estava isolada dos meus amigos e da minha família porque tinha acabado de sair de um divórcio, minha autoestima estava lá embaixo, e meu ex-namorado me convenceu de que amigos e familiares não se importavam comigo. Eu também acreditava que ele machucaria meus bebês.

Quando tive coragem de deixá-lo, fiz isso secretamente. No entanto, 10 dias depois, ele estava parado na minha porta.

Dizer que fiquei chocada com o fato de ele ter me encontrado seria um eufemismo.

Ele disse que estava lá apenas para pedir um último favor. Ele alegou não ter dinheiro ou meios para chegar à fazenda de seu tio, que ficava a cerca de 25 km de onde eu morava.

Ele prometeu que sairia completamente da minha vida, se eu lhe desse uma carona. Eu acreditei nele.

Durante muitos anos após o estupro, eu me culpei por ter acreditado que ele me deixaria ir livre de qualquer humilhação.

Um pouco mais tarde, durante a carona, eu percebi que a linguagem corporal dele estava estranha. Ele parecia nervoso e eu justifiquei com o fato de que ele era viciado em heroína - algo que, infelizmente, tinha descoberto um pouco tarde no relacionamento.

Eu disse a ele que chegaria apenas até o portão da fazenda e depois voltaria para casa.

Se eu já suspeitava que as coisas não pareciam bem, suas próximas ações confirmariam meus medos. Ele disse que eu poderia ir embora quando ele deixasse - e imediatamente trancou as portas do carro.

Quando chegamos à fazenda, ele correu para o meu lado, abriu minha porta e me arrastou pelos cabelos. Quando eu saí do carro, ele me chutou na cabeça e eu desmaiei.

Quando recuperei a consciência, estava em um dos cômodos externos da fazenda e ele estava em cima de mim. Um amigo também se juntou a ele e, quando meu ex-namorado terminou, ele assumiu.

Desmaiei novamente e quando recuperei a consciência, eles foram embora e uma mulher que trabalhava na fazenda estava ao meu lado, tentando me limpar e me cobrir com algumas de suas roupas. Pedi que ela chamasse a polícia ou uma ambulância. Uma ambulância chegou mais tarde e me levou para o hospital.

Infelizmente, os ferimentos que experimentei foram bastante graves e tive que fazer uma histerectomia (remoção do útero).

Enquanto tudo isso acontecia, descobri que meu agressor, que tinha sido detido pela polícia, fora libertado sob fiança e saíra da cidade. Por nove meses, tive de me manter sempre olhando por cima do ombro.

Finalmente, ele foi preso e condenado a oito anos de prisão. Ele morreu de câncer de próstata e bexiga em 2017, sete anos depois de ter ido para a cadeia.

Posso dizer honestamente que essa foi a primeira vez que pude respirar tranquila, depois de sete anos. Eu nunca entrei com um processo contra o amigo dele, porque não queria ter de enfrentar mais um trauma de passar por audiências na justiça.

Eu tinha muitos pesadelos com meu ex-namorado voltando para atacar a mim e minhas filhas.

Eu me mudei para a casa dos meus pais porque não podia ficar sozinha.

Quando você tem medo de cobras, tem medo de todas as cobras, mesmo as que não são venenosas.

Infelizmente, tenho pavor de homens. Tento não demonstrar isso, mas não acho que os homens percebam o quão intimidadores podem ser.

Faço terapia há anos, em parte por trauma da infância (fui molestada quando criança), e também por conta do ataque.

A pior coisa, para uma sobrevivente de estupro que é mãe de filhas, seria ter seus filhos passando pela dor que você passou.

Eu ficaria arrasada se o que aconteceu comigo acontecesse com elas.

Fiquei obcecado com a segurança das minhas filhas. Por isso, ensinei elas que sempre serei o porto seguro delas. Elas sempre podem confiar em mim, têm voz e devem sempre usá-la e eu sempre acreditarei nelas.

Comprei telefones para elas e me vi constantemente monitorando seus movimentos e, sempre que podia, eu as acompanhava aonde quer que fossem, mesmo que estivessem saindo com os amigos para o shopping.

Eu tive síndrome da fadiga crônica e tive que voltar à terapia para tentar superar essa obsessão.

Pessoalmente, não acho que o suficiente esteja sendo feito para proteger mulheres e crianças na África do Sul.

As pessoas não veem quão grave é a situação para as mulheres e, infelizmente, alguns dos que se desculpam pelos ataques são mulheres que dizem: 'O que está feito está feito. As pessoas precisam seguir em frente e permanecer positivas'.

Essa não é a solução para as mulheres que são estupradas e assassinadas."

Casos que causaram indignação na África do Sul desde agosto:

- A estudante Janika Mallo, de 14 anos, foi estuprada e morta - tudo indica que sua cabeça foi atingida por um bloco de concreto; ninguém foi preso

- A estudante do primeiro ano da faculdade de cinema e mídia Uyinene Mrwetyana, de 19 anos, foi supostamente atraída para uma sala usada para distribuição de cartas, onde foi estuprada e espancada até a morte; um funcionário foi acusado

- A estudante do primeiro ano de teologia, Jesse Hess, de 19 anos, foi encontrada morta em sua cama e seu avô, Chris Lategan, de 85 anos, amarrado no banheiro; ninguém foi preso

- A boxeadora Leighandre "Baby Lee" Jengels, de 25 anos, foi morta a tiros em um carro por seu ex-namorado, um policial; mais tarde, ele morreu por conta de ferimentos sofridos em um acidente de automóvel quando tentava fugir

- Meghan Cremer, de 30 anos, foi encontrada morta em uma cova rasa, supostamente com uma corda em volta do pescoço; três pessoas foram acusadas pelo assassinato

- Partes do corpo da coach de vendas Lynette Volschenk, de 32 anos, são encontradas em sacos de lixo em um bloco de apartamentos; um suspeito foi preso

Como a África do Sul se compara internacionalmente?

Do BBC Reality Check

Pode ser difícil fazer comparações de violência sexual contra mulheres, pois os países registram ofensas de maneiras diferentes e, em alguns casos, faltam dados ou estes estão bem desatualizados.

Também é provável que haja subnotificação de violência sexual em muitos países.

Existem dados sobre as taxas de homicídios de mulheres e meninas, embora a mais recente seja de 2016.

Os números da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a África do Sul teve a quarta maior taxa de homicídios do mundo naquele ano.

Houve 12,5 mortes violentas a cada 100 mil mulheres na África do Sul. Lesoto, Jamaica e Honduras tiveram as maiores taxas. A média global dos 183 países foi de 2,6.

Um relatório feito em 2016 por um relator especial da ONU sobre a violência contra as mulheres na África do Sul estimou que apenas um em cada nove estupros foi denunciado à polícia.

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