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A solidão da maternidade: as dores e delícias de gerar uma criança agora

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Tia Má

Maíra Azevedo é mãe, ativista da luta antirracista e questionadora por existência e excelência. Integrante do time de consultores do Programa Encontro com Fátima Bernardes, na rede Globo, e autora do livro "Como se livrar de um relacionamento ordinário".

Colunista do UOL

27/07/2020 04h00

É bom ser mãe? É bom ou alguém criou essa imagem da maternidade como algo divino e majestoso? Estou mesmo pensando sobre isso. Grávida de sete meses, após 12 anos de ter dado à luz ao meu primogênito, eu ainda não sei essa resposta.

Quando eu penso em maternidade, eu penso no estado constante de tensão que as mães vivem. E eu digo mãe, pois infelizmente muitas mulheres passam pela gestação e pelo processo de criação sem a presença do homem —que teve autonomia para deitar e fazer, mas não tem para assumir e ajudar a crescer.

No Brasil, pelo menos, 5,5 milhões de crianças não tem o nome do pai em seu registro. E essa é uma das primeiras tensões que a mulher grávida passa. Contar para o pai sobre a gestação e lidar com a reação.

Aquele grito de alegria do homem, seguido de um beijo e um abraço apertado, acontece muito na ficção. Na vida real, muitas mulheres são coagidas, e até mesmo forçadas, a tirar a criança. E quem condena o aborto, está sempre julgando a mulher, sem saber dos detalhes. Os típicos defensores da família tradicional brasileira, que deitam com a amante, fazem filho e abandonam. Essa é uma das dores da maternidade invisibilizada e que ninguém retrata. A solidão da gestação.

Mas vamos seguir. Digamos que seja a grávida que tem a sorte de ter o apoio do parceiro e da família (o meu caso), existe também a solidão e o desespero. Essa imagem da grávida constantemente feliz tira de nós o direito de viver plenamente a gestação. E uma gestação é um momento sem definição (e para as mulheres que estão passando por isso no meio de uma pandemia mundial, ainda sem mais explicações, se torna muito mais tenso). Tem dias que eu só choro, porque não sabemos sobre o futuro. Teremos?

Sinto dores físicas, questões emocionais e existenciais e percebo que ao redor todo mundo acha graça ou banaliza. A resposta é sempre: "Faz parte, você está grávida e isso é lindo!". Mas na prática não é.

Não é lindo não conseguir levantar, sentir dores na bacia e na lombar, chorar por horas seguidas por não ter uma resposta sobre suas dúvidas. E o pior, às vezes se sentir obrigada a mentir, porque todo mundo diz que gravidez é a coisa mais linda.

E quando a criança nasce, existe um cansaço físico e mental que toma conta da gente. Lembro de quando meu menino nasceu, há 12 anos, a quantidade de vezes que ia observar se ele estava respirando, se estava tudo bem! E agora, que ele entra na adolescência sigo preocupada se meu filho está bem e vivo.

E essa preocupação tira o sono, e ficar sem dormir adoece. Já observaram que as mulheres desenvolvem mais doenças psicológicas e emocionais? Estamos sempre preocupadas e desesperadas. E isso tudo foi romantizado. Por isso, da próxima vez que for ofender alguém e chamar de FILHO DA MÃE, entenda que se trata de um grande elogio.