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Tia Má

Forte ou sobrecarregada?

Morsa Images/Getty Images
Imagem: Morsa Images/Getty Images
Tia Má

Maíra Azevedo é mãe, ativista da luta antirracista e questionadora por existência e excelência. Integrante do time de consultores do Programa Encontro com Fátima Bernardes, na rede Globo, e autora do livro "Como se livrar de um relacionamento ordinário".

Colunista do UOL

20/07/2020 04h00

"Mulheres dão conta de várias coisas ao mesmo tempo." "Que guerreira, ela cria o filho sozinha." Essas frases são corriqueiras, já vi muita gente utilizando para se referir a alguma mulher com a conotação de elogio. Mas será que é mesmo?

Sempre que penso em uma mulher que precisa dar conta de tudo, que realiza diversas atividades ao mesmo tempo, imagino o quanto está cansada. Imagino e me identifico. Sei o quanto é exaustiva essa rotina de realizar várias coisas, cuidar de criança, trabalho, das pessoas em volta e ainda vestir o manto da fortaleza. Mas, em muitos dias, no cair da noite, chorar de desespero, de angústia de exaustão.

Penso que esse título de "guerreira" muitas vezes é dado para romantizar a sobrecarga que cai nas costas das mulheres. No Brasil, 53% dos lares são chefiados por mulheres. São elas que cuidam de tudo. Organizam suas vidas, das suas crias e de outros parentes. Mesmo as que são casadas com homens, e trabalham fora como seus parceiros, comumente têm a jornada maior por conta das tarefas domésticas, que, ainda hoje, são vistas como "obrigações femininas". Herança direta do patriarcado que coloca a mulher como subalterna da imagem masculina e de uma visão reacionária que acredita que existe "coisa de mulher" e o "papel do homem" na sociedade.

E por que decidi falar disso na semana que celebramos o 25 de julho, dia Internacional da Mulher Negra Latino- Americana e Caribenha? Porque se fizermos o recorte de raça nesse debate, o acúmulo de tarefas é ainda mais acentuado para as mulheres negras, onde muitas vezes, a solidão é sua única companheira para dividir tantas obrigações.

O título de guerreira não traz nobreza, apenas animaliza mais e faz todo mundo acreditar que aquele corpo preto dá conta de tudo. Que ela dá conta de tudo. Heroína? Sim!

Mas lembrem que até aqueles seres mitológicos cheios de poderes precisam de uma ajuda coletiva para derrotar o super vilão. E, no nosso caso, os arqui-inimigos são o machismo e o racismo.

Não esqueça que mulheres negras estão na base da pirâmide social e somos nós que carregamos todo mundo nas costas, e por isso estamos cansadas. Sobreviver a este sistema perverso e genocida só mesmo tendo superpoderes. Mas estamos exaustas de salvar o mundo do outro e voltar para casa e fazermos tudo sozinhas! Não romantize a exploração da mulher preta que vive perto de você!