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Ser aliade antirracista é entender de quem é o protagonismo no debate

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Tia Má

Maíra Azevedo é mãe, ativista da luta antirracista e questionadora por existência e excelência. Integrante do time de consultores do Programa Encontro com Fátima Bernardes, na rede Globo, e autora do livro "Como se livrar de um relacionamento ordinário".

Colunista do UOL

17/08/2020 04h00

"O correto é preto ou negro?"; "Eu sempre gostei de coisas da cultura africana, sou uma branca de alma negra"; "Eu morro de inveja dessa cor de vocês, pega bronzeado rapidinho"; "Mas você não acha que o próprio negro se discrimina?"; "Sei que existe racismo, mas eu acho que tem gente que exagera", "Mulher branca pode usar tranças?".

Essas são algumas da mensagens que eu recebo de gente que, de forma sincera, se considera aliada da luta antirracista e tem a certeza de que esse tipo de comentário fortalece a população negra.

É o novo tapinha nas costas em forma de palavras. Existe uma necessidade enorme de ficar bem na fita e mostrar que se preocupa com a questão racial, mas sem fazer nenhum esforço para entender as mazelas da negritude.

Não querem estudar. Escolhem uma pessoa preta para ser seu "WIKIPRETO" e acreditam que isso é o suficiente para atestar sua carteirinha de militante da luta antirracista. Isso quando não tiram da cartola um avô negro, por parte de pai.

Ter dúvidas é supercomum, mas como em qualquer outro debate é preciso estudar, se debruçar em uma literatura que fale da questão racial e, em especial, produzida por intelectuais negras e negros, que explica todas as suas dúvidas.

Encher o seu amigo negro de perguntas, sem saber se essa pessoa se sente confortável em responder, se ela quer, ou se sabe, é mais uma das vertentes do racismo, que faz quem é branco olhar para quem é negro e acreditar que quem tem a pele escura está sempre de prontidão para servir.

O debate racial aqui no Brasil é secundarizado e tratado apenas como coisa de gente preta. Até porque aqui ninguém tem vergonha de ser racista, tem vergonha é de ser identificado e apontado como tal.

E por isso, ficam nesse incessante processo de perguntar às pessoas pretas como devem se comportar, mas não querem consumir o que produzimos.

A pergunta é apenas na tentativa de receber o "selo antirracista", "porque eu tenho meu amigo preto e ele me disse que eu posso falar ou fazer isso". E ainda tem aquelas e aqueles que nos colocam no lugar apenas de objeto de estudo. Onde querem falar sobre nós, por nós, sem considerar a nossa capacidade intelectual e experiência.

Sim, temos muitas pessoas brancas que querem aprender, que querem ser aliadas, mas ainda temos um número significativo das que "sofrem" com a síndrome de Princesa Isabel, que acreditam ser nossas salvadoras, ou aquelas na qual a personagem de Senhorita Morello foi inspirada: não nos ouvem, porque acreditam que sabem todas as respostas. E elas são sempre negativas e depreciativas, mas sua CLAREZA vai nos ajudar a resolver.

É fundamental ter a branquitude como aliada no processo de desconstrução do racismo no Brasil, mas é preciso se dedicar e entender que muito mais importante que nós perguntar sobre se é preto ou é negro, é entender porque morremos mais, porque estamos no subemprego e porque ainda nos olham de forma animalizada e como a nossa ascensão desperta tanta raiva.

Eu quero uma pessoa aliada que questione nossas ausências nos espaços e não naturalize nossas presenças nos locais de opressão.

E que como diria a socióloga Luiza Bairros, é possível fazer ciência a partir da minha própria experiência! Não nos pergunte, estude! E seja de fato uma pessoa aliada que se compromete em desconstruir o racismo estrutural.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.