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Tia Má

O corpo da mulher é visto como público e segue sendo violentado

Se o corpo da mulher tem que ser escondido, por que os meninos são incentivados a demonstrar desejo pelos corpos desnudos? - Studio_Serge_Aubert/Getty Images/iStockphoto
Se o corpo da mulher tem que ser escondido, por que os meninos são incentivados a demonstrar desejo pelos corpos desnudos? Imagem: Studio_Serge_Aubert/Getty Images/iStockphoto
Tia Má

Maíra Azevedo é mãe, ativista da luta antirracista e questionadora por existência e excelência. Integrante do time de consultores do Programa Encontro com Fátima Bernardes, na rede Globo, e autora do livro "Como se livrar de um relacionamento ordinário".

Colunista do UOL

24/08/2020 04h00

Eu lembro exatamente da minha infância, quando ouvia o tempo todo, que mocinha (uma criança) não pode sentar de pernas abertas. Sentar assim era (é) abominável e logo condenado. Enquanto eu precisava ter modos para sentar e ficar com minhas perninhas fechadinhas, via meus primos sentando sem modos, com as pernas abertas e sempre com as mãos nas partes íntimas. Isso era motivo de riso, e até de orgulho.

Quando um deles, "ousava" ter mais postura mais quieta e sentar de maneira minimamente educada, já era alvo de piadas. "Parece uma mulherzinha. Senta que nem homem, p*#$@"!

Assim, íamos "aprendendo" que existe a forma correta de homens e mulheres se comportar.

Logo depois, no início da adolescência, começou a existir a preocupação com as roupas que eu escolhia. Meus tios falavam dos tamanhos dos meus shorts e saias e que não era certo usar calça justa. Estava sempre sendo criticada, ouvindo de alguém que meu corpo tinha que ficar escondido.

Quando me tornei jovem e arrumava um namoradinho, sempre tinha um para me dizer o que vestir, o que usar. Até ouvir a frase clássica: "Mulher minha, não usa esse tipo de roupa".

Assim, eu aprendia a odiar meu corpo e associar ele a algo nojento, já que eram censuradas sempre as peças que mostravam minhas curvas. Assistia os meninos sendo incentivados a cobiçarem as mulheres, a tratá-las como objetos. Para serem considerados "machos" de verdade, tinham (tem) que estar sempre ávidos pelo coito, olhar para as fêmeas com desejo e com vontade de possuir seu corpo.

Observem como os homens se gabam de terem iniciado a vida sexual cedo. Nada disso fazia o menor sentido. Se o meu corpo tinha que ser escondido, por que os meninos eram incentivados a demonstrar desejo pelos corpos desnudos?

A resposta dessa pergunta é o resultado dessa sociedade desequilibrada. Que termina em responsabilizar a mulher quando ela é violentada. Essa forma cruel de criar os homens, naturalizando a sua postura doentia em olhar para as mulheres como predadores, nos trouxe para esse local asqueroso que nos faz questionar a inocência de uma garota que foi duramente violentada dos seis aos dez anos, e só parou quando engravidou do seu estuprador e a barriga cresceu.

Foi o feto que ela carregou no ventre que denunciou o crime. Mas, pasmem o que chocou boa parte dos cidadãos de bens, foi o aborto legal e amparado pela constituição, que a criança precisou ser submetida, depois que toda a violência que passou.

É a "publicização" dos corpos femininos e a naturalização das violências que sofremos. E quando falo dos corpos femininos, falo também das mulheres trans e das travestis, que são assassinadas e suas mortes são banalizadas.

Agredir mulher tem sempre uma justificativa e a culpa nunca é do agressor. Encontram um jeito de responsabilizar a mulher. Sempre tem alguém para lançar o "mas, também, ela..."

Homens são incentivados a serem agressores. Seja de forma psicológico, emocional ou física... Às mulheres cabem os pedidos de desculpas por serem quem são.

Não! Estamos fazendo a revolução. Não vamos nos desculpar por termos autonomia sobre nossos corpos, vontades e quereres. Vamos de fato propor e implantar a transformação! Ela será feminina e altiva, com cada uma de nós assegurando nosso direito à vida!