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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cheio de machismo, 'Casamento às Cegas' deveria chamar 'Noiva em Fuga'

Thiago Rocha, participante do reality "Casamento às cegas" - Divulgação
Thiago Rocha, participante do reality 'Casamento às cegas' Imagem: Divulgação
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

14/10/2021 12h46

Quem gosta de ver um reality show para se distrair da vida tem grandes chances de se viciar em "Casamento às cegas", a versão brasileira do reality show gringo, da Netflix. E também de passar raiva. Mas não é para isso que vemos esse tipo de programa? No caso de "Casamento", as mulheres têm mais chances de se irritar, já que o programa tem um elenco que dá show de machismo.

A fórmula é absurda: mulheres e homens em busca de um amor "conhecem" pretendentes em cabines, onde não podem se ver. Depois de baterem papo com vários, os que gostam um do outro ficam "noivos" sem nunca terem se visto. Fora desse cenário, eles passam tempos juntos. Se tudo der certo, vão casar de verdade. E nós vamos assistir a tudo.

Teoricamente, a ideia do programa é que os espectadores torçam pelo amor e pelo casamento, que será exibido na final do programa. Só que a versão brasileira conseguiu um feito. Depois de ver os oito episódios disponíveis (toda quarta-feira novos são liberados pelo serviço de streaming), passamos a torcer desesperadamente para que as noivas se livrem, fujam do homem roubada. A vontade que dá é entrar dentro da tela e sacudir a maioria das participantes e falar: fooooge!

Isso porque a produção do programa parece ter se esforçado em procurar homens machistas, equivocados e imaturos. Dos cinco casais participantes que engataram romance e continuaram no programa, para a chamada fase da "Lua de Mel", apenas dois homens (Hudson e Lissio) não são claramente tóxicos. Já as mulheres são todas legais, divertidas, bem resolvidas, um arraso.

Se a ideia do programa era mostrar que as mulheres contemporâneas são maravilhosas, e os homens, uns perdidos, eles conseguiram. Há ali todo um cardápio de comportamentos machistas.

"Mulher é o sexo frágil"

Um dos personagens já conquistou o posto de "odiado do momento nas redes sociais". Trata-se do paraquedista Thiago Rocha, que fica noivo da maquiadora Nanda Terra. Ele é um machista de marca maior. Tudo fica mais irritante porque ele disfarça os preconceitos, parecendo ser um cara "good vibes". Thiago chega a falar para um amigo: "controla a tua mulher aí". Em certa hora, ele diz para a namorada que mulheres são mais influenciáveis. "Vocês concordam que a mulher é o sexo frágil?", ele pergunta. Logo depois, na mesma conversa, ele, o "forte", quase chora ao falar do passado amoroso da namorada. "Eu sempre sonhei em casar com uma mulher mais calminha, que não tivesse um passado".

A namorada dele, Nanda, é uma mulher sensacional, independente. Em uma das cenas, enquanto ela o leva para visitar seu estúdio. Chegando lá, ele faz pouco do trabalho dela. Já o trabalho dele? Ela tem que ver com respeito e admiração. Depois de levá-la para um entediante encontro de paraquedistas, ele comenta: "Ela podia ter se interessado mais"...

Sério?

"Cuidar da casa por amor"

Se Thiago fosse o único "boy lixo" do programa, tudo bem. Mas não. O comerciante iraniano Shayan, que fica noivo da modelo Ana Prado, se recusa a dividir tarefas domésticas. Quando ela cobra, ele fala que essa conversa é chata. "Quando uma pessoa faz por amor, ela não cobra". A modelo tem uma filha, e, quando apresenta os dois, eles até brincam. Até que ele decide que é melhor se dedicar ao trabalho e passa a ignorar as duas. Na vida real, se eu visse algum homem tendo essa atitude com um amiga com filho, já gritaria: "fujaaaaa!"

Autoestima masculina

Os homens do programa também têm em comum uma autoestima gigante. Eles se acham. Já nos primeiros capítulos, eles reclamam sobre as namoradas não "serem cultas!", como se eles fossem grandes intelectuais.

Rodrigo, o terceiro macho tóxico do programa, é um desses caras que se acham.

"Estou meio preocupado porque acho que ela vai querer ficar grudada, tipo gancho. E eu tenho que fazer as minhas coisas!", ele diz, como se ela não tivesse a vida dela também.

Rodrigo é superorganizado. Day, uma bagunceira. Resultado: ela passa a se sentir cobrada e vigiada, como se fosse forçada a "se adequar a ele". Tudo piora depois que ele conta um segredo íntimo - provavelmente sexual - dela para "os brothers".

Se na vida real os pretendentes de mulheres bacanas forem como eles, é melhor que as moças desistam de se relacionar para sempre. No caso do programa, eles bem que podiam assumir logo que, dado ao comportamento masculino padrão, faria mais sentido mudar o nome do reality para "Noiva em fuga".

É muito mais adequado, já que nós, que nos viciamos no programa apesar de tudo, vibraremos cada vez que uma mulher abandonar um homem. Fujam, meninas, pelo amor de deus!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL