PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como Ana Paula Padrão, muitas mulheres são felizes sem filhos. Aceitem

Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

13/10/2021 14h56

Há muitos anos, a atriz Patrícia Pillar me disse uma coisa durante uma entrevista que nunca mais esqueci. Perguntei se ela, na época já com mais de 40, era bem resolvida com o fato de não ter filhos. "Acho que eu nunca quis muito ter filhos, porque, se realmente quisesse, teria tido", falou, com a tranquilidade dos analisados e bem-resolvidos.

Sempre me lembro disso quando alguém me pergunta se eu não sinto falta de ter filhos. Se eu realmente quisesse ser mãe, teria dado um jeito de realizar esse desejo. Simples assim. Recordei disso de novo ao ler um texto publicado pela apresentadora Ana Paula Padrão em seu perfil Instagram na terça-feira (12).

Em pleno Dia das Crianças, data em que pais e mães postam orgulhosas fotos de "suas crianças", ela usou a rede para fazer um corajoso desabafo sobre ser uma mulher sem filhos.

"Hoje é dia das crianças e não há crianças em casa. Eu não tive filhos. E, acredite em mim, a vida sem filhos não é uma vida vazia. Até pensei em engravidar tempos atrás quando a idade soou o alarme 'agora ou nunca'. Algumas tentativas fracassadas, no entanto, me fizeram perceber que eu estava inventando uma frustração que não existia antes."

A apresentadora disse também que passou por tratamentos dolorosos para tentar engravidar e sofreu um aborto espontâneo, até que passou a se perguntar se realmente queria ser mãe ou era só uma pressão social. Hoje, ela escreveu, tem uma vida "perfeitamente feliz sem filhos". "Não ser mãe não faz de mim uma mulher incompleta ou uma pessoa triste", disse. E terminou pedindo que as mulheres não fossem julgadas por suas escolhas.

Ana Paula tem toda razão. E o absurdo é que a gente ainda precise falar e repetir isso em 2021. Mas, se você é uma mulher sem filhos, está, sim, sujeita a um monte de cobranças.

No meu caso, confesso, as maiores cobranças foram feitas por mim mesma. Já achei que eu precisava ter um filho para virar uma pessoa madura. Onde estava com a cabeça? O que tem uma coisa a ver com a outra? Nada, inclusive muitas mães são imaturas. Mas a sociedade coloca na nossa cabeça a ideia de que, se não tivermos filhos, é porque somos amargas, egoístas, infantis.

No caso de Ana Paula, ela passou por tratamentos muito difíceis e por perdas (descritas em seu livro autobiográfico "O amor chegou tarde em minha vida") até perceber que, como ela mesmo disse, era feliz sem filhos. E sim, gente, isso existe. E não, mulheres não nasceram com a função exclusiva de serem mães. Quem pensa assim são as sociedades fundamentalistas, aquelas onde mulheres são seres sem vontade, que obedecem aos homens.

Mas o chocante é ver que, mesmo em sociedades mais abertas, essa ideia de que "nascemos para procriar" ainda esteja tão presente. E uma prova disso é que ainda precisamos, como Ana Paula, nos justificar e repetir que, sim, somos felizes apesar de não termos filhos.

Tudo é diferente se você for homem, esses seres que nasceram para fazer, acontecer e conquistar territórios.

Vocês já viram homens tendo que se justificar e tendo a felicidade colocada em xeque pelo fato de não terem filhos? Algum homem já teve que ir até o Instagram dizer que se sentia completo mesmo não tendo filhos? Nunca vi.

Sorte a deles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL