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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Nego do Borel: acusados de assédio usam saúde mental como marketing

Nego do Borel foi expulso de "A Fazenda" - Reprodução/Playplus
Nego do Borel foi expulso de 'A Fazenda' Imagem: Reprodução/Playplus
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

07/10/2021 04h00

De um tempo para cá, homens acusados de abuso, assédio e violência contra mulher têm reagido de maneira parecida depois de serem alvo de acusações. Provavelmente orientados por advogados e equipes de marketing, eles seguem um roteiro fixo que consiste em:

1. Falar que foi cancelado
2. Dizer que está em depressão por conta do "cancelamento"
3. Publicar vídeos emocionados falando que vão procurar ajuda, meio que culpando o "cancelamento" por isso.

O "cancelado" (sic) e deprimido (sic) da semana é o cantor Nego do Borel. Ele foi denunciado por estupro de vulnerável depois de assediar a modelo Dayane Mello enquanto ela estava bêbada. Por esse motivo, foi expulso do programa "A Fazenda". Além disso, ele é acusado por ex-namoradas, entre elas a modelo Duda Reis, que o denunciou por violência doméstica e estupro, entre outros crimes.

Desde que saiu do programa, Borel tem dito que sofre muito, que está mal, deprimido. A coisa extrapolou na terça-feira, quando, depois de ter sido dado como desaparecido por sua família, Nego foi encontrado em um motel do Rio de Janeiro.

O cantor justificou seu sumiço por conta de sua saúde mental. "Quis me isolar porque estou passando por um momento muito difícil, muitas coisas acontecendo na minha vida, mas eu quis ficar sozinho". No mesmo dia, a equipe do cantor avisou que ele iria procurar tratamento psicológico. A irmã dele fez um apelo: "Meu irmão está realmente doente. Depressão não é brincadeira. Tenham empatia! Se coloquem no lugar do próximo!".

Ele pode, de fato, estar realmente precisando de ajuda. Só que isso não é problema nosso. Claro que a família deve, mesmo, ajudar.

Agora, precisa nos avisar e criar um espetáculo?

Por que a equipe já vem logo avisando que "ele precisa cuidar da saúde mental"?

Para tentar justificar o abuso e também para tirar a culpa do abusador. Sim, quando falam que a pessoa foi "cancelada", o acusado de abuso vira vítima de jornalistas e usuários de redes sociais que o "cancelaram".

O Cancelamento, para quem mora em outro planeta, é a prática de criticar exaustivamente uma pessoa ou marca em redes sociais, exigir boicote, retratação e por aí vai. Uma prática que pode ser horrível e cruel. Mas falar "ai, estou sendo cancelado", virou mote de muitos homens que são acusados de crime. Vamos ser claros, no caso de Borel e de tantos outros, não é esse o caso, eles não foram "cancelados". Eles foram denunciados por crimes, o que é muito diferente.

E não, gente, estar "ruim da saúde mental" ou com depressão não justifica abuso. Usar o "cartão da saúde mental" é, inclusive, desrespeitoso com todos nós que temos distúrbios (me incluo porque sou diagnosticada com Transtorno da Ansiedade Generalizada).

Claro que muitas pessoas que praticam crimes contra a mulher têm, também, transtornos. Só que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Outro exemplo. Na semana passada, o cantor Lucas Penteado expôs sua noiva em uma live, em que a acusou, pelo que tudo indica falsamente, de traição. Lucas, pelo que já foi divulgado até no Big Brother, tem problemas depois de beber. Só que isso não justifica ter exposto uma mulher! Nada justifica.

O que esperamos que acusados de assédio, abuso moral, psicológico ou físico façam? Que assumam seus atos e paguem por eles. Claro, será ótimo (para eles) se eles cuidarem da saúde mental. Mas... O que temos a ver com isso?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL