PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Documentário sobre Britney mostra que fim de sua tutela é vitória feminista

Aos 39 anos, Britney Spears poderá começar a decidir sobre a própria vida - Reprodução/Instagram
Aos 39 anos, Britney Spears poderá começar a decidir sobre a própria vida Imagem: Reprodução/Instagram
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

30/09/2021 16h48

Ela trabalhava duro, mas, mesmo assim, não tinha independência financeira. Pelo contrário, ela recebia uma mesada do pai, que, junto com advogados, controlavam não só seu dinheiro, mas também seu direito de ir e vir. Se ela queria dar uma volta sozinha, tinha que pedir autorização para homens. Nem suas amizades e namoros ela podia escolher à vontade. Eles também passavam pelo crivo dos "donos" dela. E, se eles não gostassem, eles seriam afastados

A história acima é real e aconteceu por mais de 13 anos com a cantora Britney Spears. É chocante, mas a pop star passou anos sendo controlada e explorada por um grupo de homens liderados pelo seu pai. Britney, com o apoio de seus fãs e de mulheres mundo afora, conseguiu sua liberdade na quarta-feira, quando foi decidido que seu pai não é mais seu tutor. A mulher de 39 anos poderá, finalmente, controlar sua própria vida.

Essa vida extremamente dependente, que remete a vida de mulheres do século 19, é contada no documentário "Britney x Spears", que está em cartaz no Netflix. No filme, a documentarista Erin Lee Carter, com a jornalista Jenny Eliscu mostra, em detalhes, como homens foram tomando conta da vida da cantora e tolhendo a sua liberdade.

Em um momento, em uma conversa entre a documentarista e a jornalista elas comentam que Britney, apesar de trabalhar muito, recebia mesada do pai e presentes dele, como se isso fosse um privilégio. "O nome disso é patriarcado", diz a documentarista.

Ela está certa. A história de Britney nos faz pensar não só nas meninas de antigamente, mas também nas donas de casa, que trabalham duro como mães e donas de casa e recebem "mesadas", que são consideradas até um mimo, quando, na verdade, merecem é um salário, já que trabalham duro. Esse tipo de estrutura patriarcal ainda existe hoje, aos montes.

E vale lembrar que Britney era chantageada a aceitar tudo isso para não perder a guarda dos filhos. Sim, faz parte dessa sociedade dominada por homens também isso, que mulheres sejam penalizadas e sacrificadas por causa dos filhos.

Histéricas?

Lá pelos século 19, mulheres "problemáticas" eram internadas em clínicas psiquiátricas e chamadas de histéricas. Isso valia para muitos casos, como, por exemplo, mulheres que insistiam em ser independentes, que discordavam dos pais, que fossem gays, apaixonadas pelo "homem errado" ou que sofressem de síndrome de pânico, ansiedade, depressão (essas coisas que sentimos até hoje). Em sanatórios, elas eram drogadas e submetidas a tratamentos que mais pareciam torturas.

Pois não é que o mesmo aconteceu com Britney? No fim do filme, sua voz finalmente é ouvida, e ela conta que foi obrigada a tomar lítio, um remédio forte, que nunca tinha tomado. No filme, a documentarista também diz que ela recebia ou não o remédio que "gostava mais" quando tinha que trabalhar mais. Sim, como se ela fosse um cachorro que ganha uma bolacha.

Sim, é absurdo que tudo isso tenha acontecido no século 21 com uma das maiores popstars do mundo. E é por isso mesmo que faz sentido que seus fãs e mulheres do mundo todo comemorem sua "liberdade".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL