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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Permanência de Nego do Borel prova que violência contra mulher 'compensa'

Nego do Borel segue em "A Fazenda" mesmo após denúncias de assédio dentro e fora do reality - Reprodução/Playplus
Nego do Borel segue em "A Fazenda" mesmo após denúncias de assédio dentro e fora do reality Imagem: Reprodução/Playplus
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

24/09/2021 10h08

Na noite de ontem (23) Nego do Borel foi o mais votado para continuar em 'A Fazenda 13' na 1ª roça do programa. Ou seja, na primeira eliminação do programa, Nego do Borel foi recompensado por seu comportamento dentro da casa: assediar uma mulher e ter atitudes violentas. Os apelos de duas ex-namoradas suas, Duda Reis e Swellen Sauer, que publicou essa semana um desabafo onde diz que o ex é "um doente", também não serviram de nada.

E, infelizmente, nada disso pegou ninguém de surpresa. Borel já entrou nessa edição do programa literalmente sob suspeita. Ele foi acusado por Duda de violência doméstica e estupro, um caso famoso, que teve repercussão nacional. Alguns dias depois do programa começar, ela anunciou nas redes sociais que ele havia sido oficialmente denunciado.

Não é erro, é crime

Ontem, direto da "Fazenda", Borel fez um discurso muito comum para homens que sofrem esse tipo de acusação. Disse que era perseguido, que merecia mais chances e que "todo mundo comete erros".

Espera aí! No seu caso, Nego do Borel, não são erros, você é acusado de crimes!

Essa não é a primeira vez que um homem usa o reality da Record como "rehab". Borel ocupa uma espécie de cota para acusados de violência contra mulher que existe no programa.

Essa é uma espécie de "categoria" de personagem que é usado pela direção do programa desde o início. Assim como um reality tem "a mulher gostosa", "o engraçado", "o briguento", a Record, desde sua primeira edição, decidiu ter o acusado de abuso.

Alguns desses homens aproveitam essa chance quando participam do programa para limpar a imagem — e com cachê, olhem como é fácil a vida de acusados de violência contra mulher. Foi o que aconteceu com o cantor Biel ano passado. Para ele deu certo. Ele ficou em segundo lugar.

No caso de Borel, a rehab televisiva não está funcionando. Na primeira semana de confinamento ele já foi acusado de assédio a uma mulher bêbada. A cena, filmada, deixa poucas dúvidas. Enquanto a influenciadora Dayane Mello dorme, ele tenta beijá-la, colocando a mão em seu seio. Nas redes sociais, foi criado um movimento pela sua expulsão. Não deu em nada. Na mesma semana, em uma briga, ele quebrou objetos da casa. Também não deu em nada.

Resumindo: além de ser acusado judicialmente por uma mulher, ele assediou outra dentro da casa e demonstrou comportamento violento. Qualquer um desses fatos já deveria ter sido o suficiente para que ele saísse da casa. Na verdade, ele nem devia ter entrado no programa. E, se não expulso, ele devia sair por descontentamento do público, por revolta e repulsa à violência contra a mulher. Mas não.

O resultado da Fazenda é apenas mais um exemplo do que é o Brasil de 2021. Um país onde assediadores de mulheres são recompensados. .

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL