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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro ataca mulheres jornalistas e pode cair graças ao trabalho delas

Mulheres jornalistas estão a frente de reportagens com denúnicas importantes contra Bolsonaro - Alan Santos/PR
Mulheres jornalistas estão a frente de reportagens com denúnicas importantes contra Bolsonaro Imagem: Alan Santos/PR
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

06/07/2021 16h14

"Cala a boca, vocês são canalhas!". Há menos de um mês, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tratou dessa maneira a repórter Laurene Santos, da TV Vanguarda, que participava de uma entrevista coletiva que o presidente dava em Guaratinguetá. O abuso não parou por aí. Ele disse que ela "fazia um jornalismo canalha" e tirou a máscara perto dela, um abuso físico em tempos de coronavírus.

Jair Bolsonaro já deixou claro inúmeras vezes que não gosta de jornalistas em geral. Mas a situação fica pior quando uma de nós (mulheres jornalistas) ousa fazer uma pergunta para ele ou escreve algo que o desagrada.

Em abril foi a vez da repórter Driele Veiga ser atacada por ele. "Deixa de ser idiota", ele respondeu para ela, criticando uma pergunta feita.

O mesmo presidente já chamou a apresentadora da CNN Daniela Lima de "quadrúpede" e disse que a jornalista da Folha Patrícia Campos Mello, que revelou o esquema de fake news, queria "dar? dar o furo". Ele foi condenado por danos morais e teve que indenizá-la.

É curioso ver, agora, que o mesmo presidente que trata mulheres jornalistas dessa forma esteja em apuros por suspeita de envolvimento em crimes de corrupção que foram denunciados pela imprensa (que ele chama de "extrema imprensa")". E, ironia das ironias, as duas reportagens que mais colocam o presidente em risco foram feitas por... mulheres jornalistas, esse tipo de profissional que ele chama de "quadrúpede" e de "idiota".

Desde 29 de junho, a repórter Constança Rezende, da Folha de S. Paulo, vem revelando denúncias de irregularidades na compra de vacinas. Incluindo o fato de um dólar ser cobrado por vacina como propina. A partir dessas denúncias e de depoimentos à CPI da Vacina, o presidente passou a ser investigado por prevaricação pela Procuradoria Geral da República.

Essa semana, foi a vez de Juliana Dal Piva, colunista aqui de UOL, revelar áudios que implicam o presidente em corrupção pela prática de rachadinhas. Já existe, por parte de parlamentares, pedido de investigação pela Procuradoria Geral da República e senadores querem iniciar uma CPI para apurar o caso.

Toda essa rede de escândalos foi revelada por duas dessas idiotas. Louco, não?

Será que é por temer mulheres jornalistas que o presidente vive as maltratando? Deve ser aterrorizante para um machista como ele que mulheres possam revelar esquemas de corrupção que colocam seu mandato em risco.

Fato é: homens como o presidente da república morrem de pavor quando mulheres mostram que tem voz. Quando a gente tem mais poder que eles, então, a raiva beira o ódio.

Como nós, "fraquejadas", ousamos discordar? E como ousamos apontar que eles, homens, poderosos e donos da razão, estão errados? Deve ser por isso que homens como o presidente tentam nos calar, nem que seja no grito. A boa notícia é: eles não conseguem.