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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tem predileção por maltratar jornalistas mulheres

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

21/06/2021 18h18

"Cala a boca! Vocês são uns canalhas! Vocês fazem um jornalismo canalha que não ajuda em nada! Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira! Você tinha que ter vergonha na cara e não se prestar a fazer esse serviço porco que você faz na TV Globo." Essas frases foram ditas aos gritos, com as mãos balançando, em tom de briga, pelo presidente Jair Bolsonaro para uma repórter da TV Vanguarda, afiliada da TV Globo em Guaratinguetá.

A "entrevista" aconteceu nesta segunda-feira (21) quando o presidente conversou com jornalistas após participar de um evento em Guaratinguetá, no estado de São Paulo. Tenso o tempo todo, ele mandou os repórteres que estavam por perto "calarem a boca" para que a bronca que ele dava na repórter Laurene Santos não fosse interrompida. Depois que ela comentou que ele tinha chegado sem máscara na cidade, o presidente passou a berrar com ela. Nervoso, tirou a máscara e desafiou: "escreve aí, escreve aí, presidente chegou sem máscara a Guaratinguetá."

Essa não é a primeira vez que Bolsonaro maltrata e ataca jornalistas. E mais: ele parece ter predileção por maltratar jornalistas mulheres. Mas isso não pode se normalizar. Não é aceitável que uma repórter em exercício de seu trabalho seja atacada por ninguém, nem por um passante na rua. Agora, pelo presidente da república, é intolerável. Também não seria aceitável que um chefe falasse assim com uma funcionária, ele poderia ser processado por danos morais.

No caso específico dos jornalistas, a atitude coloca ainda mais em risco nosso trabalho. A atitude do presidente parece um convite para que seus apoiadores façam o mesmo e mandem repórteres calarem a boca. No caso das mulheres, então, "taca pedra na Geni".

Mas não é preciso ser jornalista para ter calafrios vendo o vídeo. Berrar, levantar a voz e mandar "calar a boca" são agressões pesadas. Ao assistir o presidente fazendo isso, é provável que várias mulheres se sintam agredidas ou sintam o estômago revirar.

Infelizmente, a gente conhece esse sentimento de ser agredida e sabe também o quanto é assustador e revoltante um homem gritando e nos mandando calar a boca. Muitas de nós já tiveram namorados ou chefes abusadores. O que não podíamos imaginar é que um dia teríamos um "presidente abusador".

Atualmente, muitos dos vídeos com conteúdo forte vem com a palavra "alerta de gatilho" escrita antes, como um aviso de que as imagens são fortes e podem nos fazer lembrar de traumas. É esse o caso do "cala a boca" de Bolsonaro na repórter.

Quem poderia imaginar que um vídeo de uma entrevista de um presidente poderia se tornar um gatilho pela maneira como ele trata uma repórter? E assistir pode fazer você se sentir muito mal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL