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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marca usa Duda Reis e a violência doméstica em publi. Cadê o limite?

Duda Reis acusa o ex-noivo Nego do Borel de violência doméstica - Reprodução/Instagram
Duda Reis acusa o ex-noivo Nego do Borel de violência doméstica Imagem: Reprodução/Instagram
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

09/03/2021 14h40Atualizada em 10/03/2021 09h52

"Ser mulher é muito difícil, por isso estou aqui, vim mostrar para vocês os meus 'primers' favoritos."

Um vídeo com a atriz Duda Reis falando esse texto absurdo viralizou nos últimos dias nas redes sociais e causou uma justa indignação.

Afinal, a luta das mulheres é um assunto sério, que a gente não resolve comprando um "primer" (uma maquiagem que se passa antes da base). E, além disso, não é justo que se use uma causa tão importante para vender maquiagem.

A propaganda, feita pela marca de cosméticos Beyoung, passou dos limites. Para piorar, escolheu uma mulher vítima de violência doméstica para fazer esse apelo. Duda acusa o ex-noivo, o cantor Nego do Borel, de estupro, agressão física e de ameaçá-la. Em janeiro, ela o denunciou para a polícia.

Duda sabe muito bem que ser mulher é difícil. E, como toda mulher que denunciou assédio, também sabe que essa é uma dor que jamais passará com uso de maquiagem.

Se a culpa é de Duda? Não. E inclusive ela também se manifestou contra a marca, contando que havia feito uma publicidade e gravado horas de depoimentos que foram resumidos a segundos no vídeo sobre o "primer".

"Essa marca edita meu vídeo, toda a luta como mulher e resume que qualquer solução para você ser mulher, para as problemáticas que todas as mulheres enfrentam? ... Fiquei muito chateada. Eu jamais resumiria uma luta tão real e tão dolorosa a um 'primer'. Confesso que fiquei muito chateada porque isso banaliza a luta da mulher" Ainda mais depois de tudo o que eu vivi", escreveu Dudas em um post no Instagram.

A marca admitiu o erro na edição do vídeo, selecionando aquele trecho específico para divulgação, e pediu desculpas ontem, mais uma vez, usando o feminismo.

"A Beyoung reconhece a história de lutas e conquistas das mulheres. Sabemos que ser mulher na nossa sociedade é enfrentar batalhas diariamente. Por isso, queremos dizer que: erramos. Subimos um corte de vídeo incorreto e que não representa a opinião da marca. Assumimos o nosso erro e gostaríamos de pedir desculpas a vocês, nossos consumidores, e a Duda Reis."

Usar o feminismo e questões da luta feminina para vender produtos é algo que acontece no mundo todo, e cada vez mais. Faz parte. Existe até um termo para isso: "pink money" (dinheiro rosa, em inglês). A expressão se refere originariamente à publicidade e aos serviços que utilizam pautas da comunidade LGBTQ, mas o feminismo se enquadra super nisso. Faz parte.

Agora, as marcas podiam ter noção ao usar a luta das mulheres, pesquisar, conversar com pessoas. E, inclusive, com as mulheres que trabalham para elas — o que não aconteceu com Duda Reis.

Vende-se empatia

Duda não foi a única famosa a pagar mico com publicidade sem limite nos últimos tempos. Durante a eliminação de Karol Conká no BBB, a cantora Preta Gil divulgou uma mensagem pedindo empatia à cantora. Só que a tal mensagem nobre e edificante era patrocinada por uma marca, a Amstel.

Como assim? Empatia patrocinada? Sim, a mensagem ainda foi respondida pela Influencer Pequena Lô, que, assim como Preta, usou as hashtags #publi e #Amstel na postagem.

Os publiposts, posts pagos publicados em redes sociais, mudaram a publicidade e viraram uma indústria que gera trabalhos e dinheiro. Agora, tudo no mundo tem limite. Influenciadores, marcas e agências precisam entender que não dá para vender tudo sem banalizar pautas e sentimentos importantes (como a compaixão!). Sim, até o "pink money" precisa ser usado com moderação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL