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Nina Lemos

H&M pretende demitir 800 funcionárias na Alemanha, a maioria mães

Wikus de Wet/AFP Photo
Imagem: Wikus de Wet/AFP Photo
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

27/01/2021 04h00

A rede sueca H&M é uma gigante do varejo. Com lojas espalhadas pelos Estados Unidos, Europa e Ásia, a marca vende principalmente roupas para mulheres de todas as idades. Há também uma linha adolescente, cheia de camisetas com dizeres empoderados, uma marca para grávidas e roupas de crianças e bebês. Agora, a rede mostra o respeito que (não) tem pelas mulheres.

A marca pretende demitir 800 trabalhadores na Alemanha. E, segundo denúncias das funcionárias e de um dos maiores sindicatos do país, eles estão dando preferência para jovens mães na hora de suspender os contratos. É sério.

O motivo, segundo funcionárias que denunciaram anonimamente o fato para o jornal Business Insider's, seria o fato de jovens mães não estarem disponíveis para trabalhar à noite e aos sábados. As lojas do país estão fechadas desde dezembro e a H&M tem focado nas vendas online. No caso das mulheres grávidas ou em licença maternidade, a lei, assim como a do Brasil, impede que elas sejam demitidas. Mas eles estariam suspendendo o contrato das que voltam da licença.

Um detalhe importante, que faz toda a diferença e torna tudo mais escandaloso: além do fato de vivermos uma crise mundial, as escolas e as creches estão fechadas na Alemanha por causa do lockdown. Há também no país uma recomendação expressa do governo para que todas as pessoas que possam fazer o trabalho de casa façam home office.

Ou seja, as mães vão trabalhar e cuidar dos filhos ao mesmo tempo, já que não existe outra opção. Demitir mães em uma situação dessas é amoral.

Um dos maiores sindicatos da Alemanha, o Ver.Di, chamou a política de corte da empresa no país de "cultura corporativa patriarcal que ignora as mulheres".

Se não bastasse o absurdo de demitir mães durante uma pandemia, o gosto disso fica ainda mais amargo pelo fato da marca lucrar com o feminismo e fazer uma série de campanhas pregando direitos iguais e empoderamento.

No mesmo dia da reportagem sobre o escândalo das demissões, estavam à venda no site da marca uma camiseta com a palavra "feminist" (feminista) por 15 euros (cerca de 90 reais) e uma outra escrita "girl power" (poder das garotas) por 9 (56 reais).

Eles já lançaram também camisetas com os dizeres: "feminismo é a ideia radical de que mulheres são pessoas." Ou seja, a marca usa o nome e as bandeiras de um movimento onde a proteção ao trabalho de mães é simplesmente o básico para lucrar. na cara dura e não cumpre nem o mínimo do básico que se espera de um lugar decente.

Essa não é a primeira vez que a H&M é pega desrespeitando mulheres e crianças. A marca, assim como outras redes de fast fashion, já foi acusada inúmeras vezes de usar trabalho escravo em países como Bangladesh, Índia, Vietnã e China, onde a maioria dos produtos é feita e também de não se importarem com a exploração a que as trabalhadoras (a maioria são mulheres mulheres) são submetidas nessas fábricas.

Há anos eles tentam limpar o nome da marca promovendo campanhas de "sustentabilidade" e questões de igualdade de gênero.

Pelo jeito, tudo da boca para fora. Será que eles vão ter a cara de pau de continuar vendendo camisetinha escrito "feminista"? Aposto que sim.