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Atitudes machistas fazem Biel ficar mais popular. E todos nós perdemos

Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

01/10/2020 04h00

"Eu devia agredir, assim pelo menos eu era expulso dessa p*rra."

Essa frase foi dita no programa "A Fazenda" pelo cantor Biel. A pessoa que ele acha que "deveria agredir" é a funkeira Jojo Toddynho, com quem ele tem tido várias brigas. Seria uma declaração grave se qualquer homem falasse uma coisa dessas em um reality show na TV aberta, por mais baixaria que esse programa seja. Mas, o pior: quem disse isso foi um sujeito que leva nas costas mais de uma acusação de assédio contra mulheres.

Biel já foi acusado de bater na ex e chegou a ser processado por isso nos Estados Unidos. Também já assediou uma jornalista, dizendo que "a quebraria no meio". Agora, é estrela de um reality show, onde mostra seu comportamento tóxico em rede nacional. Isso também já devia ser assustador o suficiente, mas piora.

Segundo informou o jornalista Leo Dias, Biel é o recordista de torcida do programa. Em apenas um dia, teve 100 mil tweets em sua defesa. Ele também cresce no Instagram. No momento, tem mais de 6 milhões de seguidores (já ganhou cerca de 200 mil desde que o programa começou).

Assim como aconteceu com Felipe Prior no Big Brother Brasil deste ano, o sujeito parece "crescer" conforme mostra comportamento agressivo, machista e misógino. Essas atitudes são recompensadas, aplaudidas e viram exemplo. Muitos os veem como "um cara esperto" e/ou "um sujeito divertido."

Alguns desses comportamentos chocantes de Biel:

Gordofobia
Em uma das cenas do programa, Biel criticou o corpo de Jojo Toddynho e disse que ela deveria ter inveja de outra mulher porque "não mexia com os homens." Típico.

Chamar mulheres de loucas
"Eu vejo muito desequilíbrio nela. Ela me dá medo. Hoje eu fiquei com medo dela, sei lá, pegar uma faca e me dar uma facada!" , disse Biel, o "equilibrado" sobre Luiza Ambiel. Com os "parças do programa", já falou também que Raíssa, que sofre de transtorno Borderline é "louca" e "desequilibrada". Como todo mundo sabe, desqualificar uma mulher chamando de louca para depois justificar agressão é uma forma conhecida de machismo, também conhecida como "gaslighting".

Agressividade
Até as "brincadeiras" do cantor são agressivas. Ele já mexeu nas nádegas de um participante enquanto ele dormia (!), já disse que gostaria de fazer xixi em malas de participantes (!), ri dos outros participantes e ameaça até os amigos, falando que eles têm que fazer o que ele quer. Enfim, parece mais um adolescente que seria expulso da escola por bullying. Nível da baixaria: "Sou debochado porque não chupo as b* dela", sobre Jojo.

Quem sai ganhando com um comportamento como esse sendo aplaudido? Acho que ninguém. Mulheres, claro, só perdem ao ver o machismo tosco sendo celebrado em rede nacional e rendendo frutos. Mas acho que os homens também perdem. Afinal, a maioria deles não é assim. E nem quer ser. Biel é o exemplo que não devíamos ter.

O fato de parte da audiência ver o cantor como um ídolo cujas atitudes são "bacanas" explica muito do buraco onde estamos, com índices de violência contra mulher batendo recordes. Ah, mas é só um reality show? Sim, mas não deixa também de ser um sintoma preocupante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL