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Nina Lemos

Porchat é atacado por falar que não quer ter filho. Vivemos em uma seita?

Fábio Porchat diz que não sabe se quer ter filhos. Qual o problema? - Divulgação
Fábio Porchat diz que não sabe se quer ter filhos. Qual o problema? Imagem: Divulgação
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

15/10/2020 04h00

"Ter filho é um inferno". Quem disse isso foi o talentoso apresentador e humorista Fábio Porchat, que há tempos faz piadas sobre seu medo de ser pai. Normal. E legal, afinal, é sempre bom que os homens falem sobre seus medos (coisa rara, mas que o apresentador faz bem com os seus colegas no programa "Papo de Segunda", na GNT).

Fábio disse também que tem medo que filhos atrapalhem seu casamento. Esse temor é sentido por muitas pessoas. Novamente, é um assunto que deve ser conversado e debatido.

E, óbvio, uma pessoa pode não querer ter filho, é escolha dela, a gente não vive em uma seita onde as pessoas são obrigadas a procriar, mas em uma sociedade laica.

Mas o inacreditável sempre pode acontecer nesses tempos. E Porchat está sendo atacado por isso, com direito a pedido de "retratação" feito pela ministra Damares Alves. Sim, uma MINISTRA quer que uma pessoa se explique porque disse que não quer ter filho ou peça desculpa. Nas redes, o humorista é chamado de "egoísta". Fábio, claro, não deve retratação a ninguém por falar sobre seus sentimentos e sobre suas dúvidas pessoais. Muito menos a uma ministra de um país laico.

O fato desse tipo de ataque acontecer mostra bem o tamanho do abismo conservador em que nos encontramos. Se estivéssemos em um momento "normal" do país, estaríamos, como mulheres de outros países da América Latina, discutindo o direito da escolha das mulheres, que inclui, entre outras coisas, a legalização do aborto (como na Argentina, por exemplo). Mas, no nosso caso, o retrocesso é tão grande que temos que defender o direito de escolha de um homem (que em geral nunca tiveram muitos problemas para escolher, por sorte deles).

Vamos lá. Não, não, ninguém é melhor ou pior do que alguém, pelo fato de ter ou não filhos. Também não é verdade que quem não tem filho não gosta de criança. Eu não tenho filho e garanto, as crianças me amam e eu as amo. O Fábio também parece ser um cara querido pelas crianças. Mas, e se não for? Qual o problema?

Ninguém é obrigado a adorar crianças. Inclusive, conheço muitos pais de família que não gostam. Ou vocês não se lembram daqueles pais de amigos em que na casa criança não podia brincar nem fazer barulho? O que todo mundo tem que fazer é respeitar as crianças e suas mães e pais.

Mas nós, que não temos filho, na maioria das vezes, adoramos os filhos dos nossos amigos, brincamos com eles, vamos nas festinhas. E também cuidamos deles quando é preciso.

Sim, existem aquelas pessoas que não tem filhos e não gostam de crianças. Tenho alguns amigos que falam isso. Mas essas pessoas sempre respeitam as crianças e as amigas que são mães o os amigos que são pais. E é só isso que importa, não?

Quanto ao Fábio, tomara que ele não desanime depois dessa onda de ataques e continue falando sobre questões que angustiam não só a ele, mas outras pessoas também. É para isso que os comunicadores servem. Sabia, Damares?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL