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Desinfluencers: novo perfil nas redes dispensa luxo e traz vida como ela é

"Desinfluencers": novo perfil que ocupa as redes é mais diverso e real - Acervo pessoal
"Desinfluencers": novo perfil que ocupa as redes é mais diverso e real Imagem: Acervo pessoal
Flávia Martinelli

Flávia Martinelli é jornalista. Aqui, traz histórias de mulheres das periferias e vai compartilhar reportagens de jornalistas das quebradas que, como ela, sabem que alguns jardins têm mais flores.

Colunista de Universa

29/01/2021 04h00Atualizada em 29/01/2021 12h56

Com reportagem de Julia Guadagnucci e Stefanni Mota, especial para o blog MULHERIAS

O ano de 2020 abriu espaços para serem preenchidos por pessoas reais no mundo online. Na falta dos abraços, da cervejinha pós-expediente, os escapes durante a pandemia foram parar nas redes sociais. Mas esse "estar junto em rede" também explicitou uma tendência: a vida perfeita, as viagens dos sonhos e o menu degustação perderam o sentido. Estamos em tempo de chuva de likes para gente de verdade no universo virtual.

"Houve migração de um público que quer ver uma blogueira mais real e quer representatividade", pontua Nathaly Dias, 26 anos, produtora de conteúdo do Blogueira de Baixa Renda, em entrevista para o Entre Likes do UOL. Essa seria uma das explicações do aumento da busca por influenciadores que, como a maioria, lavam, passam, cozinham e trampam.

Com mais de 100 mil seguidores nas redes sociais, Tie Vasconcelos, 26 anos, moradora do Complexo do Alemão, Luci Gonçalves, 21 anos, conhecida como FashionPobre, assim como Nathaly Dias, aumentaram o número de seguidores e ampliaram o alcance de seu conteúdo mostrando o cotidiano de mulheres periféricas. Ao trazer imagens com jeitinho de "poderia ser na sua casa", passaram a ser chamadas de "desinfluencers", um novo perfil das redes.

Assista, abaixo, Tiê mostrando, por exemplo, sua "Casa na Favela". E repare: tem toque especial de decoração, muito verde, livros e instrumentos musicais.

Mas vale recapitular. O que seria um "influencer" exatamente? O termo diz respeito a pessoas, marcas ou grupos que se popularizam nas redes sociais e têm um público numeroso que acompanha suas publicações. Muitas desses perfis, porém, não refletem a realidade da maioria da população brasileira e esbanjam ostentação, luxo e consumismo.

O "desinfluencer", por sua vez, trata menos de inspiração e muito mais sobre identificação. O tutorial de maquiagem tem o som do carro do ovo como fundo musical e a escada rumo ao sucesso é a escadaria do morro. É a vida nas redes imitando a vida nas ruas.

A realidade que não dá mais para ignorar

A discussão da mudança de perfil passa por fatos marcantes e impossíveis de serem ignorados, como a própria pandemia e o assassinato de George Floyd, norte-americano morto por um policial que fez o planeta se mobilizar. "Eu percebo que quem consome conteúdo está buscando diálogo", comentou Giovanna Heliodoro, mulher trans, historiadora, produtora de conteúdo e comunicadora do Transpreta, em uma live promovida pelo seminário Youpix em 26 de janeiro. O especialista Pedro Tourinho também concorda que a audiência das redes deseja ouvir os George Floyds que o racismo quer asfixiar ou pessoas que vivenciam o enfrentamento da pobreza.

A chamada "cultura do cancelamento" da audiência diante dos influencers, no entanto, é apenas um fenômeno passageiro que, de fato, não cancela muita coisa. Para Tourinho, ao denunciar ou deixar de seguir personalidades (famosas ou nem tanto) que tenham deslizado online ou offline e "punir" o influencer com ares de justiça com as próprias mãos, a audiência provoca apenas uma "dor de barriga nas redes sociais que dura um ou dois dias. Esse comportamento impacta mais as minorias do que as pessoas dentro do padrão".

Segundo o publicitário, esse linchamento é no máximo uma "cócega incômoda" para pessoas brancas e famosas e costuma passar rapidamente. "Mas pode derrubar para valer a carreira de influenciadores que fogem desse padrão", afinal, assim como a arte, a justiça da rede também imita a vida. "As pessoas deveriam ser responsabilizadas na justiça terrena e não somente na dinâmica das redes, isso tem que refletir em questões práticas", diz o especialista.

Para Giovanna é preciso repensar outras formas de responsabilizar as pessoas pelos seus erros pois a lógica das redes sociais é "fale bem ou fale mal, mas falem de mim". "Por isso o cancelamento virtual causado por uma acusação de LGBTfobia, racismo, machismo, por exemplo, tende a gerar maior alcance e aumentar o número de seguidores. Por esses e outros motivos precisamos ser estratégicos ao denunciar as violências que nos são direcionadas", finaliza.

O publicitário e especialista em entretenimento e mídia, Pedro Tourinho, aponta que o problema é o influencer e não a influência. "A influência sempre esteve aí, ela tem a ver com a capacidade de direcionar, de impactar o outro. Temos influência dos nossos pais, dos colegas, da cidade. Influência é responsabilidade, não é profissão".

Tradutor: mostram a vida como ela é

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