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O streetwear fez a moda se transformar - e esse é um caminho sem volta

Saint Laurent em frente à sua recém-criada loja voltada para venda de peças prontas para vestir, em 1966  - Reg Lancaster/Getty Images
Saint Laurent em frente à sua recém-criada loja voltada para venda de peças prontas para vestir, em 1966 Imagem: Reg Lancaster/Getty Images
Marina Santa Helena

Marina Santa Helena é uma profissional multimídia que lidera discussões, especialmente no mercado de moda e da internet, desde os anos 2000. Consultora de estilo, apresentadora e produtora de conteúdo para as mais diversas plataformas, Marina também comanda os podcasts Estilo Possível e Um Milkshake Chamado Wanda. Formada em arquitetura e pós graduada em moda, ela nunca esteve distante do universo da moda e das passarelas.

Colunista do UOL

05/09/2020 04h00

Se hoje você chega nas lojas de departamentos, escolhe uma peça na vitrine e a leva para casa com a certeza de que ela não é uma peça única, saiba que as coisas nem sempre foram assim. Até meados dos anos 60 não era muito comum que grandes estilistas - principalmente se eles fossem franceses - comercializassem suas criações em larga escala. Isso era coisa de lojas consideradas "menores" ou, como os criadores da alta costura diziam, "coisa de americano".

Então, em 1966, quando Yves Saint Laurent, um dos maiores estilistas de alta costura da França, abre sua primeira loja de roupas prontas para usar e se rende ao chamado prêt-a-porter, comprova que mesmo os grandes nomes precisavam se adaptar ou iam perder espaço no mercado.

Esse momento da história foi uma demonstração muito viva de que a moda é uma resposta ao espírito do tempo de uma época.

Um livro muito interessante sobre esse momento da história se chama A Batalha de Versailles. Escrito pela minha jornalista de moda favorita e vencedora do Pulitzer, Robin Givhan, o livro faz uma análise de como foi difícil (mas inevitável) para os franceses, com todas as suas regras, padrões e tradições relacionadas ao vestuário, se adaptar ao novo momento e às grandes mudanças culturais pelas quais a sociedade ocidental vinha passando.

Agora, corta para 52 anos depois, quando temos novamente grandes nomes da moda numa situação parecida. Muitos jornalistas e estudiosos do assunto costumam dizer que ano de 2018 foi para o streetwear o que 1966 foi para o prêt-a-porter, ou seja, o ano da consolidação de uma ideia e de uma mudança importante de paradigmas.

Depois de duas décadas carregadas de transformações sociais, culturais e ideológicas, o streetwear, com seus elementos casuais originários das culturas urbanas, já dominava o mercado. Justamente por isso, Louis Vuitton, Gucci, Chanel e várias outras marcas de luxo clássicas passaram a incluir sneakers, jaquetas impermeáveis e peças mais esportivas em seus desfiles.

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Imagem: Jeremy Moeller/Getty Images

A nova abordagem foi uma tentativa de rejuvenescer esses nomes e criar um fio condutor entre o universo tradicional e o das novas gerações. Nesse processo, é óbvio que erros foram cometidos. Vestir um moletom da Supreme ou usar um moletom da FUBU, marcas que dão origem ao segmento streetwear, não era só sobre símbolos de status, era sobre pertencimento e sentido. Então, quando uma marca de luxo se apropria dessa estética de uma hora para outra, sem criar pontes, as chances da coisa dar errado são grandes.

Agora, passados mais dois anos, dá pra dizer que o streetwear já foi mastigado, digerido e, para uma parcela expressiva da população, virou (com o perdão da expressão batida) o novo normal. Seja por essa adoção da estética casual por marcas tradicionais, pela flexibilização dos códigos de vestimenta em ambientes de trabalho, ou quem sabe até por estarmos repensando muitos padrões estéticos, chegamos a um ponto que não tem mais volta.

E nessa história, o isolamento social imposto pelo coronavírus parece ter potencializado desejos e questionamentos que já vinham sendo construídos com base nas premissas de casualidade e conforto do streetwear.

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Imagem: FG Trade/Getty Images

Segundo dados do Grupo Consumoteca, 41% dos brasileiros estão trabalhando de casa e para 43% dessas pessoas o modelo ideal de trabalho seria o intercalado, com alguns dias no escritório e outros em casa. Com ou sem pandemia, parece que pra muita gente, o home-office virou realidade do agora e do futuro.

Nesse novo contexto, assim como Yves Saint Laurent nos anos 60, vemos marcas tentando se adaptar para não serem engolidas pelo momento. São coleções de pijamas, conjuntos de moletom e lançamentos de peças que prezam sobretudo pelo conforto, que aliás, é o que têm ditado as cartas na moda ultimamente.

Recentemente, em um desfile virtual com peças muito práticas, simples e bem-feitas, a Prada nos lembrou que as roupas também podem oferecer possibilidades de esperança, de inspiração e que elas vão estar lá, junto com você, mesmo quando você não quiser pensar nelas.

O que me leva a um questionamento que tenho feito sempre, e hoje, mais do que nunca: afinal, para quem a gente se veste e por que a gente veste o que veste?

Entre todos os objetos de design, as roupas são paradoxalmente os mais universais e íntimos, então faz todo o sentido que cada pessoa responda essas questões de um jeito muito particular. E, de verdade, não tenho uma resposta muito objetiva, muito menos uma resposta única.

Só sei que por aqui vai ser bem difícil desapegar do moletom, das roupas de algodão e vai precisar ser uma ocasião muito especial para que eu me sinta levada a usar um jeans apertado ou um sapato de salto alto num futuro próximo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.