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Na web, discussões acaloradas tentam definir se máscara é acessório de moda

Atriz alemã Katrin Wrobel combina máscara e roupa nas ruas de Berlim - Streetstyleograph/Getty Images
Atriz alemã Katrin Wrobel combina máscara e roupa nas ruas de Berlim Imagem: Streetstyleograph/Getty Images
Marina Santa Helena

Marina Santa Helena é uma profissional multimídia que lidera discussões, especialmente no mercado de moda e da internet, desde os anos 2000. Consultora de estilo, apresentadora e produtora de conteúdo para as mais diversas plataformas, Marina também comanda os podcasts Estilo Possível e Um Milkshake Chamado Wanda. Formada em arquitetura e pós graduada em moda, ela nunca esteve distante do universo da moda e das passarelas.

Colunista do UOL

15/08/2020 04h00

Entre aqueles que não conseguem mais sair de casa sem máscara e aqueles que ainda têm dificuldades em mantê-la no lugar, uma coisa é fato: não dá para ignorar esse item indispensável de segurança se tornou um verdadeiro símbolo dos tempos em que vivemos. Mas, apesar do recente protagonismo, as máscaras não são um artefato novo.
Não existe uma data exata de quando a primeira máscara foi usada.

O que temos é uma análise por aproximação indicando que, no período neolítico, populações da África, Ásia e Oriente Médio já usavam máscaras feitas de pedras, conchas ou argila. Aparentemente elas surgem como necessidade de representação de um fenômeno, como uma espécie de facilitador da comunicação entre os homens e as divindades nos rituais.

No Egito Antigo, por exemplo, múmias recebiam máscaras mortuárias adornadas com ouro e pedras preciosas e tinham a função de elevar a pessoa a um plano mais alto na vida após a morte. Já para algumas tribos africanas, elas serviam como objetos ritualísticos e artísticos, cujo uso assegurava colheitas férteis.

Por isso, desempenhavam um papel quase sagrado, que significava a diferença entre vida e morte, entre a prosperidade ou declínio de um povo. Com o surgimento do teatro na Grécia, as máscaras passam a ser usadas nas peças por um único ator que usava diferentes versões para interpretar vários personagens. E, passado muito tempo - e muitos Carnavais - ganham uso puramente estético.

enfermeira na gripe espanhola - Harris & Ewing via Library of Congress - Harris & Ewing via Library of Congress
Enfermeira em hospital de Washington usa máscara durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918
Imagem: Harris & Ewing via Library of Congress

Milhares de anos depois que o primeiro homem usou uma máscara, elas finalmente adquirem uma conotação ligada à saúde e proteção contra doenças. Isso acontece a partir do século 17, quando os chamados "doutores da peste" passam a usar aquelas máscaras que pareciam com uma cabeça de corvo para se proteger da peste bubônica. A ponta do bico ia cheia de ervas aromáticas, que tinham a finalidade de filtrar o ar e evitar a doença, já que muitos nessa época acreditavam que a transmissão era feita pelo mau cheiro.

Uma versão em tecido volta ser usada como proteção durante a pandemia de gripe espanhola, no começo do século passado. Mais recentemente, com a epidemia de Sars, em 2003, elas reaparecem nas áreas mais afetadas da Ásia, especialmente em Hong Kong.

E hoje, com o coronavírus, as máscaras são altamente recomendadas pela Organização Mundial de Saúde e se tornaram indispensáveis em quase todos os lugares do mundo, com algumas ganhando até status de artigo de luxo.

Marine Serre, vencedora do prêmio jovens estilistas da LVMH em 2017, tem sido uma das designers mais requisitadas nesse campo. Usadas por celebridades como Beyoncé e o grupo Blackpink, as peças com estampas de meia lua produzidas pela estilista, assim como as máscaras assinadas pela Off White, de Virgil Abloh, são algumas das mais procuradas no momento.

Outra coisa que tem aparecido aos montes por aí são tutoriais de influencers beleza ensinando usar máscara combinando com o delineado dos olhos ou como fazer a maquiagem durar sob as máscaras também. Inclusive, toda essa glamourização têm provocado discussões acaloradas pela internet: pode ou não pode usar máscara como um acessório de moda?

A primeira coisa que a gente tem que entender quando se pensa nisso é que usar máscara de proteção num momento como o que estamos vivendo é uma forma de demonstrar empatia, é um gesto de cuidado tanto com a gente quanto com as pessoas ao nosso redor.

Dito isso, se a sua máscara atende todos os protocolos de segurança - ou seja, têm pelo menos três camadas e é feita de material que facilita a absorção e a respiração - por que não escolher uma que tenha a ver com a sua personalidade?

O que não pode é se basear em termos puramente estéticos para se fazer isso. Ou, pior ainda, fazer como os negacionistas que se propagam aos montes nesses tempos obscuros que vivemos e fingir que máscaras são inúteis.

Ver alguém sem máscara em ambiente público, num momento como esse, quando o Brasil ultrapassa a triste marca de 100 mil mortos por coronavírus, gera revolta em muita gente porque diz muito sobre as opiniões fundamentais daquela pessoa.

Entre usos religiosos, sociais, funerários, comemorativos, terapêuticos, teatrais, artísticos, festivos e puramente estéticos, os significados das máscaras são muito complexos, mas mostram uma relação muito interessante do homem com um objeto e os sentidos atribuídos a ele.

Uma máscara sozinha não significa muita coisa, mas com algum contexto histórico é capaz contar uma história e de dizer bastante sobre o espírito do tempo em que foi usada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.