Maria Ribeiro

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Duas Faixas: de como a Libertadores e o Enem fizeram meu início de novembro

"Vamos por Botafogo ou pelas Laranjeiras?", me pergunta o taxista. Sorrio. Moço, eu sou fluminense, respondo, rápida e assertiva. Livre como nunca havia sido. Se Itabira é a terra do Drummond - e eu estava chegando de lá - ser tricolor é meu chão definitivo. Quando duvido de tudo, essa identidade permanece me dando colo e sentido. Time é endereço, pertencimento, passado e futuro. "Laranjeiras, é claro, meu amigo. Hoje é dia de ser feliz!".

Já estávamos conversando desde o meu embarque, na saída do aeroporto Santos Dumont. Como eu, o motorista também torcia pro campeão da Libertadores da América. E chorava contando a reação do pai e do filho diante do embate de sábado. Aquela emoção que só um jogo é capaz de desbloquear. "Meu pai tem duas pontes de safena no peito", falava. "Tive medo de que o coração não aguentasse na hora do gol do Boca."

Eu havia visto o jogo em meio a (à) Fli, o emocionante Festival de Literatura organizado por Afonso Borges na cidade do poeta mineiro. Longe do meu primogênito - com quem costumo ver as partidas - e dois dias depois do feriado de finados, vi o jogo pensando no meu morto favorito. Meu pai era um torcedor fanático. Até hoje guardo sua carteirinha do clube. E lembro dele sempre que canto as estrofes do hino. "Das três cores que traduzem tradição. A paz, a esperança, e o vigor unido e forte pelo esporte, eu sou é tricolor".

Inebriada por uma vitória histórica, estou há exatos três dias agradecendo em pensamento a uma gente que, aos poucos, me devolve o amor pelo futebol. Assim como tem acontecido com o país.

Fernando Diniz, o professor, ensinando que afeto, coletividade e humanismo são projetos de gols, mesmo quando eles não vêm (o que, pra sorte de quem estava no Maracanã, não foi o caso de sábado). John Kennedy, o herói da vitória, expulso por comemorar com o publico, esse erro tão bonito. Marcelo, Ganso, Cano, Fabio, Keno, Andre, Nino e todos os outros jogadores, obrigada por tornarem esse novembro inesquecível. Eu estava precisando.

Como se não bastasse, no dia seguinte à vitória, enquanto ainda revia os lances e aproveitava todo e qualquer resto do êxtase provocado pelo titulo, fiquei sabendo do tema da redação do Enem. "Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil".

Há anos venho falando da questão. E se antes me referia com frequência à sobrecarga da maternidade, agora dobro a aposta. Porque também na filiação são as mulheres que estão lá com seus pais e suas mães em hospitais ou em situações difíceis.

Colocar no jogo, para jovens rapazes, a urgência de uma injustiça que dura séculos e parece distante de ser reconhecida, foi, pra mim, o terceiro gol do jogo contra Argentina. Quem me contou, entusiasmado, o tema da prova, foi exatamente meu filho. Que, por alguns instantes, deixou de lado a comemoração do seu time pra me dizer, mesmo sem dizer, que estava do meu lado.
Agora estou aqui. Com duas faixas. De campeã da Libertadores da América e de mãe de dois caras que se importam com desigualdade de gênero. Eu sei. Estamos de parabéns. Nós três. E não vou mentir. Ainda falta muito, mas a gente acredita no método Diniz. Grupo. Treino. Paixão. Justiça. E coragem.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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