Maria Ribeiro

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Opinião

Existem homens legais, lutando do nosso lado. Será efeito do eclipse?

Eu não sei se é por causa dos eclipses. Ou se tem a ver com a reação coletiva ao excesso de homens no STF. Talvez seja a frase da peça da Vera Holtz. Que vi no último domingo. Quando ela fala, citando o Harari, que quase tudo nessa vida é invenção: pátria, time, amor, família, relevância. Quase tudo, menos a violência contra a mulher. O que é um fato — e uma tragédia. Sem relativização. Tipo emergência climática.

Apesar de tudo, no entanto — e não sei bem por que — ando cheia de esperança. O que, de novo dando razão ao autor israelense, é mais uma invenção, certo? Entre tantas outras. Uma coisa, que, racionalmente, não faz o menor sentido. Será?

Pensa comigo. Estamos diante de duas guerras. Moramos em um país desigual e violento. Que, de alguma forma, nunca deixou de estar em guerra contra pretos, pobres e mulheres. Por que, então, ter esperança?

Talvez seja mesmo o eclipse, embora eu prefira a ciência à astrologia. Também pode ser a proximidade do meu aniversário — sou do time que gosta de comemorar. O fato é que tenho percebido, cada dia um pouco mais, que existem, sim, homens, com sorriso no rosto, lutando do nosso lado.

Os caras legais. Corajosos, frágeis, atentos, firmes, com dúvidas. Quer saber onde encontrar? Vem comigo. É fácil identificá-los. Primeiro, é só mencionar as palavras patriarcado, assédio e abuso. Essa é a primeira peneira. Ficou? Etapa seguinte.

Agora é a hora de contar dos seus êxitos. De como você está bem. De cabeça, ou de grana, ou no trabalho. Comente seus sucessos. Suas ambições. Seus prêmios.

Diga que você não quer filho. Ou que já tem quatro. Relate alguma doença crônica. Ou um grande defeito. Diga das dificuldades de se despedir ou/e cuidar de seus genitores.

Solte, como quem não quer nada, que você teve muitos namorados, ou foi casada no mínimo três vezes. Que já traiu, que foi traída. Que já sofreu, que fez sofrer. Que algumas vezes se acha o máximo e outras só quer ficar na cama vendo série. E, por último, cereja daquelas de mesa de Natal, diga que você é, obviamente — e "que delícia" — superfeminista.

Ah, importante. Pergunte se ele tem filho. Se divide a guarda de verdade. Se muda de ideia depois de ouvir uma mulher. Se já viu o filme da Gal. Se leva a sério o lance da lâmpada amarela.

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Pode ser o seu maior amigo, pode ser o seu par amoroso, pode ser o seu pai, o motorista de táxi, seu professor, seu chefe, seu subordinado, não importa.

Lembra da coluna passada? Da minha conversa com o Carlos, no Uber? Vai ver a culpa é dele. Ou então é efeito do eclipse.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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