Maria Ribeiro

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Opinião

Ninguém se propõe a escutar o outro, e trocar ideia elimina más impressões

Estava saindo de uma reunião de trabalho. Me pediram um Uber pela empresa. Entrei. "Boa noite", eu disse. Silêncio. "Boa noite", repeti. O motorista, contrariado, respondeu. "O ar-condicionado já está ligado".

Não entendi nada. Havia chovido muito. Depois de um calor inacreditável que durou o dia inteiro — e de um temporal em seguida —, a temperatura estava amena. "Tá bem, mas será que você pode deixar um pouco menos frio?". Fomos de 19 pra 22 graus. Sem uma única palavra.

"Eu não sou de São Paulo, nunca sei como me vestir aqui", tentei mais um pouco. "Agora a senhora quer conversar?". Fiquei tensa. "Desculpe, não estou entendendo". "Eu recebi aqui nas instruções da viagem que a passageira gostaria que eu ficasse em silêncio. E com o ar ligado. Achei uma grosseria, mas, com seis meses no aplicativo, já estou começando a me acostumar."

"Instruções de viagem? Olha, Carlos, eu nem sabia que isso existia". "Mas a senhora pediu que nosso trajeto fosse desse jeito, dona Clara". Parecia um diálogo de série de comédia. "Então, Carlos, acontece que não fui eu quem solicitou o carro. Foi a produtora da reunião em que estava."

O motorista virou pra trás. "Bem que eu tava achando a senhora parecida com aquela atriz. Como é seu nome mesmo?" Maria, eu disse. "Do 'Tropa de Elite', né?". "Também", eu disse, conformada, embora esteja ensaiando para ser Capitu e tenha acabado de fazer a Fernanda Young. "Agora, sim, do 'Tropa de Elite', podes crer. Eu tava achando a senhora muito mal-educada. Mas depois pensei que artista é assim mesmo. Sempre se acha melhor que os outros. Aliás, não só artista. Setenta por cento dos passageiros me tratam como empregado. No pior dos sentidos."

Bom, passamos 34 minutos conversando, Carlos e eu. Ele deixou de me chamar de senhora, me contou um pouco da sua história, trocamos impressões sobre como brasileiros se comportam ao utilizar serviços como Uber e iFood. Tiramos uma foto pra sua companheira, que ele chamou de esposa.

"É por isso que eu sou a favor de conversar, Maria. Se as pessoas conversassem, não tinha guerra. Agora estamos com duas guerras. Tudo porque ninguém se propõe a escutar o outro. Eu ia embora dessa viagem achando você muito mal-educada."

"E eu também, Carlos", completei. "E agora a gente tá aqui trocando a maior ideia", ele continuou. "Inclusive vou colocar essa história no meu livro. Sim, tô escrevendo um livro sobre esses meses em que tô trabalhando como motorista de aplicativo."

"Sério? Que legal, Carlos! Eu também escrevo. E acho que nossa conversa acabou de virar uma coluna."

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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