Maria Ribeiro

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Opinião

Mortes como a de Walewska alertam: depressão é doença, e não covardia

Quando eu tinha 20 anos, a mãe da minha maior amiga se matou. Recém-separada, não aguentou o tranco do casamento desfeito. Aos 49 anos, se jogou do 11° andar de um flat em Ipanema.

Lembro exatamente do instante em que recebi a notícia. Aquelas imagens de que o tempo não tira o som. Nem as sensações. Eu estava no teatro. Nesse dia, além do ensaio, faríamos as fotos de divulgação do espetáculo. Em todas, estou com a cara inchada. Com uma tristeza funda, dessas que a gente não comercializa. Além da minha amiga, ficaram órfãos seus quatro irmãos. A mais nova, ainda uma menina.

Uns dez anos depois, perdi uma das personagens mais marcantes da minha adolescência. Uma garota solar, talentosa, sensível, inteligente e "pra frente". Pelo menos era assim que nossa turma se referia a ela. Natasha viajava sozinha quando nenhuma de nós — eramos sete adolescentes inseparáveis — tinha coragem. Organizava alas de escola de samba. Desenhava coleções de moda. Voava de asa-delta. Sabia todas as bandas novas de reggae. Corria, andava de bicicleta, era a rainha das festas e das pessoas. Nunca conheci ninguém que não gostasse dela.

Mesmo assim, apesar de nada indicar que aquela garota de 15 se transformaria em uma adulta com depressão, foi isso o que aconteceu. E Natasha decidiu ir embora.

Volto hoje a essas histórias por causa de Walewska Oliveira. Campeã olímpica de vôlei, Walewska morreu na quinta-feira, ao cair do 17° andar do prédio em que morava com o marido na capital paulista. Tinha 43 anos.

Essa é a última terça-feira do mês. Há oito anos, o Brasil decidiu aderir ao setembro amarelo, campanha mundial de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio. Segundo estudo da Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, já pensaram em dar fim à própria vida.

Mortes como a de Walewska podem e devem servir como alerta. Ninguém está livre de transtornos mentais. Somos um país de ansiosos e acabamos de sair de uma pandemia. Isso sem falar nos cultos à beleza e à juventude, e a conta que soma — ou subtrai — Instagram, ansiolíticos e cirurgias plásticas.

Por fim, gostaria de dizer o que disse aos pais da minha Natasha, na ocasião de seu enterro. Que a filha deles era uma mulher incrível e forte, e que nada poderia mudar isso. Depressão é uma doença, e não tem nada a ver com covardia.

Procure ajuda: Caso você tenha pensamentos suicidas, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida - http://www.cvv.org.br/) e os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188 e por e-mail (https://www.cvv.org.br/e-mail/), chat (https://www.cvv.org.br/chat/) e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento (https://www.cvv.org.br/postos-de-atendimento/) em todo o Brasil.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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