Maria Ribeiro

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Luisa, Marina, Anitta e Alice: bancar mulheres brabas é questão de coragem

Domingo à noite, hora da angústia. Ou do "Fantástico". Depois de dois dias com o pai, meu caçula chega em casa. Com a camisa do Flamengo. Quanto foi o jogo, filho? "Um a zero. Pro São Paulo". Poxa, Bento, que chato — eu comento, sincera. "Tudo bem, mãe, pelo menos eu não sou Fluminense, que nem você. Não perdi de 4 a 2 pro Vasco".

Bem-vindos à doce selvageria da intimidade. Eu não sei qual é a agência de marketing da vida. Mas tem algo de errado nessas cenas de família que vemos na TV. Aqui, é quase sempre assim. Trabalhamos com humor, nossa ideia de amor, com poucas letras de diferença. Pra gente, funciona.

É claro que às vezes não dá. Mesmo no departamento futebol. Em final de campeonato, por exemplo. Nem pensar. Dois tricolores e um flamenguista, viramos praticamente Pedro e Fernando Collor. Mas na minha ideia de lar, respeito não tem a ver com hierarquia. Nem com cerimônia. Somos do tipo que ainda gosta de dizer as coisas. E treina pra isso.

Semana passada, acompanhei o imbróglio das apresentações de Marina Sena e de Luisa Sonza no The Town. As duas, jovens cantoras de muito sucesso, se pronunciaram sobre as críticas que Marina recebeu de alguns jornalistas em seu show em homenagem a Gal. E foram novamente detonadas.
Muito tem se falado a respeito -- o que, alias, só vende mais disco. Existe a turma do "no meu ídolo ninguém toca". E a outra, do "tá na chuva pra se molhar". Arrisco aqui uma terceira: deixa a treta ser treta, minha gente. Assim como elas podem cantar o que quiserem, também podem ser questionadas. E, igualmente, protestar de volta. Ninguém vai morrer por isso.

Eu, particularmente, gosto muito das duas, tô obcecada pelo clipe da Anitta e também sou louca por Nara Leão e Gal. Tudo junto. E se for pra entrar em briga, vai ser com Claudio Castro, governador do Rio de Janeiro. Com uma polícia que mata crianças. Eloah, Thiago e Heloisa. Cinco, treze e três anos. Esse é o assunto.

Falando em briga, ando apaixonada por "Cangaço Novo", série da Amazon protagonizada por Alice Carvalho. Alice, que também está em cartaz no fime "Angela", é uma das atrizes mais impactantes que vi nos últimos tempos. No último domingo, todos os jornais do país eram seus.

O programa, escrito por Mariana Bardan e Eduardo Melo, nos leva de volta ao Cinema Novo, e mostra um Brasil que vemos muito menos do que deveríamos. A diferença, é que, agora, a protagonista é uma mulher. Forte. Braba. Poderosa. Como Marina, Luisa, Alice e Anitta.

Resta saber se a gente quer essas figuras em casa, dividindo a vida, ou só aplaude no Instagram. É tudo questão de coragem. Que eu posso até perder pro Vasco, mas não perco essas minas.

Vai encarar?

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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