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Débora Miranda

REPORTAGEM

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'Maioria, quando pensa em surfista, imagina uma pessoa loira, não negra'

A surfista e jornalista Érica Prado - Divulgação
A surfista e jornalista Érica Prado Imagem: Divulgação
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Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

20/09/2021 13h33

Quando criou o Movimento Surfistas Negras, em 2019, Érica Prado buscava representatividade. "Durante muitos anos, surfei e não tive patrocínio. Sentia que algumas coisas eram diferentes para mim", conta. "E, 15 anos depois, as meninas da geração atual continuam enfrentando os mesmos obstáculos."

O estereótipo da surfista loira, segundo ela, faz com que muitas portas não se abram às esportistas negras —como nas marcas de surfwear, por exemplo. "Foi criado esse estereótipo do surfista, branco, com mechas californianas, que todo o sistema insiste em reforçar. A maioria das pessoas, quando pensa em surfista, não pensa numa pessoa negra. Mas, sim, numa branca de cabelo loiro. As surfistas nordestinas, por exemplo, sofrem para caramba com falta de patrocínio."

A partir de hoje, Érica se une a outras surfistas no programa "Janaínas: Deusas do Mar", que estreia às 21h30, no canal Off. A atração, que conta ainda com Tilamarri Santos, Yanca Costa, Suelen Naraisa e Nuala Costa, vai mostrar relatos sobre as trajetórias dessas atletas e mostrar de que forma elas atuam em suas comunidades, contribuindo para o reconhecimento das mulheres dentro e fora da água.

"Sempre houve surfistas negras, só que as pessoas eram invisibilizadas. Atualmente, tem mais espaço, a bolha está se abrindo. Tem o programa de TV, tem marcas patrocinando pessoas negras e nordestinas, tem mulheres gays assumidas. A gente está evoluindo e conquistando espaço", conta ela, que embora tenha começado no esporte por influência do irmão, teve Suelen Naraisa e Silvana Lima como grandes referências. "Queria surfar como elas."

Brazilian Storm, a nova geração

O Brasil é hoje um dos países mais reconhecidos e campeões do surfe, e seus atletas carregam mundo afora o apelido de "Brazilian Storm" (tempestade brasileira). O termo foi criado há cerca de dez anos pela imprensa americana para se referir à geração de surfistas brasileiros que vem se destacando no cenário mundial.

Em dezembro, Érica estreará, também no canal Off, outro programa: "O Próximo Brazilian Storm", primeiro reality do canal que tem a proposta de descobrir os próximos nomes feminino e masculino do surfe nacional.

"É importantíssimo fortalecer a base, apoiar e dar o suporte para novos talentos. Juntou pandemia e falta de apoio, este ano não tem sido fácil para a galera. Vejo que tem muito talento, muitos surfistas bons homens e mulheres, uma nova geração vindo com força aí. Mas ainda sinto falta de um circuito brasileiro de peso", explica Érica.

Ela afirma que o Brasil está dominando o circuito mundial de surfe, mas que ainda há pouca atenção para a formação da base, de uma nova geração. No programa, 12 surfistas disputarão um prêmio de R$ 50 mil (para o melhor homem e a melhor mulher). "Foi uma experiência incrível, com um elenco muito diverso. Temos talentos que muita gente já conhece, e outros nem tão badalados. Eles deram um show nas gravações."

Érica fala com emoção da estreia do surfe como esporte olímpico, neste ano, e diz que é inegável que o Brasil alcançou um patamar que nenhum outro país tem. "E isso é muito bom, porque estimula o investimento no esporte, nas crianças e em tudo mais", conta. "O surfe transformou a minha vida por todas as oportunidades que ele me proporcionou. Porque eu tive o sonho de ser profissional e campeã mundial. A transformação continua."