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Débora Miranda

REPORTAGEM

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Superação? Pessoa especial? Medalhista paralímpica explica por que não

Verônica Hipólito é atleta paralímpica - Marcus Steinmeyer/UOL
Verônica Hipólito é atleta paralímpica Imagem: Marcus Steinmeyer/UOL
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Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

30/08/2021 04h00

"Especial é aquela pessoa a quem você paga uma pizza, um açaí, alguma coisa maneira. Então, não me chamem de pessoa especial."

A frase de Verônica Hipólito, atleta paralímpica que conquistou duas medalhas na Rio-2016, é bem-humorada, mas trata de um assunto sério: como o público tende a acompanhar a Paralimpíada com um olhar que acaba desvalorizando o trabalho desses esportistas —que, afinal de contas, esperam ser reconhecidos como os atletas de alto rendimento que são.

Se eu pedir a uma pessoa que cite uma característica do Messi, ela com certeza vai dizer algo como 'rei', 'fenômeno', 'histórico'. Neymar, Simone Biles, Rebeca, Isaquias. Vou ouvir 'forte', 'gigante'. Todos com características assim. Se eu perguntar de Daniel Dias, Petrúcio, ou de qualquer atleta paralímpico, a maioria das pessoas vai dizer superação. A partir do momento que tem uma deficiência, você já é uma superação.

Segundo Verônica, é comum que as pessoas, diante de um esportista paralímpico, imaginem histórias dramáticas de vida. "Mas o que existe ali, e que deveria ser considerado, é o trabalho duro. Ser atleta é uma profissão. A gente trabalha por milímetros, por segundos. Essa história de superação paralímpica é cruel."

É o capacitismo, ensina a atleta. "Quando você acha que alguém não tem capacidade para fazer algo. Ou seja, um preconceito que as pessoas com deficiência sofrem o tempo todo. E, muitas vezes, não é por mal. É quando você pensa: 'Se ele consegue, eu consigo'. Muita gente assiste a competições paralímpicas com esse olhar e acaba inferiorizando os atletas. A Paralimpíada é o maior e mais competitivo evento esportivo do mundo, e a galera vai acompanhar para ver a deficiência."

Verônica não foi para a Paralimpíada de Tóquio. No fim de maio anunciou que havia descoberto a volta de um tumor no cérebro —a primeira vez que enfrentou a doença foi aos 12 anos. Ela ainda tentou a classificação, em junho, mas não conseguiu. Tem brilhado na transmissão do SporTV e diz que já está se preparando para brilhar nas pistas de corrida de Paris, em 2024.

Por causa de um exame de sangue de rotina eu fiquei sabendo que o tumor tinha voltado. Sabia, portanto, que minha chance de ir para Tóquio seria menor, eu tinha que tirar alguns remédios que estavam me ajudando [por causa de doping]. Chorei muito, foi uma dor que não sei explicar, espero que ninguém nunca sinta. Mas sequei minhas lágrimas, me dei umas férias e resolvi que ia treinar muito. O ciclo até Paris é curto e quero conquistar tudo!

O tratamento pelo qual ela passará agora se chama radiocirurgia. "Já fiz três cirurgias, outra não daria certo. A rádio é a maior e melhor possibilidade até o momento."

"Está tudo bem ter dúvida"

Verônica lançou na internet um guia que deve tirar dúvidas das pessoas sobre termos e comportamento. A motivação veio depois de dar de cara com tantos erros nas redes sociais.

"Decidi lançar esse manual e explicar vários termos de uma forma didática. Fiz um vídeo outro dia falando de PCD [sigla para pessoa com deficiência], e as pessoas me escreveram para perguntar o que era isso. Vi também alguém no TikTok usando o termo 'paralítico'. Quero explicar que não existem pessoas normais. Existem as com ou sem deficiência."

Para a atleta, a deficiência é apenas uma característica, não é ela que define a pessoa. "Eu odeio babaca, sou grossa. Mas quando fazem perguntas, eu respondo. Não sou dicionário paralímpico, assim como um preto não tem que falar só de racismo. Mas está tudo bem ter dúvidas. Só não é tudo bem me agredir verbalmente ou fisicamente", destaca.

Verônica criou o Time Naurú, organização focada em apoiar atletas paralímpicos —diversos estão em Tóquio. "Beirou a loucura e coragem, mas prefiro dizer que foi coragem. A gente quer fazer o esporte e a educação acontecerem de verdade. E não é simplesmente criar o nosso clube, a nossa equipe, e esquecer o mundo. Uma das nossas intenções é apoiar outros projetos com material humano, físico e intelectual."

O projeto começou com atletismo, mas hoje trabalha também com natação. Segundo Verônica, até o final deste ano deve abrir ainda tênis de mesa e vôlei sentado feminino. "No momento, o financiamento sou eu", conta a atleta. Mas a equipe está trabalhando para conseguir ser encaixada em leis de incentivo do governo federal.

Enquanto isso, ela torce diante das câmeras de TV pelo esporte brasileiro e espera que esta Paralimpíada seja um marco na história do esporte. "O Brasil é uma das maiores potências, a gente vem crescendo muito. Mas peço às pessoas que não se apeguem somente a medalhas. Às vezes, o atleta pode ficar numa quarta ou quinta colocação, mas ter batido o recorde mundial. Às vezes, ele não venceu por milésimos de segundo. Apoiem o esporte, porque ele está colado na educação e na saúde. Tenho certeza de que as pessoas que acompanharem os jogos, vão se encantar."