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Débora Miranda

REPORTAGEM

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Martine Grael busca 2ª medalha e cobra exemplo de atletas: 'Usar máscara'

Martine Grael e Kahena Kunze, dupla brasileira da vela - Daniel Varsano/COB
Martine Grael e Kahena Kunze, dupla brasileira da vela Imagem: Daniel Varsano/COB
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Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

30/07/2021 04h00

Embora não seja um esporte tão popular no Brasil, a vela costuma ser motivo de orgulho para a torcida verde e amarela. E quem tenta o segundo ouro olímpico, na categoria 49ers FX, é a dupla Martine Grael e Kahena Kunze. As duas venceram uma das três regatas disputadas hoje e ocupam o terceiro lugar na classificação geral. A 49er FX, porém, prevê mais três regatas amanhã (31), antes da definição dos dez barcos finalistas.

Assim que chegou ao Japão, antes de começar a competição, Martine falou com o Extraordinárias. Contou sobre como passou a pandemia, as dificuldades que enfrentou nesse período. Falou também do grande desafio de competir nesta Olimpíada, especialmente pelas variações de clima.

Martine ainda afirmou que os esportistas são referências e, por isso, é importante que se posicionem e deem bons exemplos. E lamentou o momento político que o Brasil enfrenta. "Parece que o nosso presidente se esforça para ser ruim. Eu não sei para onde foi o bom senso da política brasileira."

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

UOL - Como você passou a pandemia? Passou por algum momento especialmente difícil?

Martine Grael - Estávamos no auge da correria, participando de campeonatos para nos preparar para Tóquio, e chegou a covid. A gente estava na Espanha, e foi aquele balde de água fria na cara, todo o mundo tentando voltar, um desespero, e a gente achando que ia morrer. Mas conseguimos chegar em casa, e tudo foi parando. Quando cancelaram as Olimpíadas, a gente falou: "Bom, mesmo que seja só no ano que vem, a gente precisa continuar treinando".

No começo, eu estava muito empolgada treinando em casa, mas aos poucos fui realmente perdendo a motivação. Tudo em crise, o mundo inteiro focado na covid. Pensava: 'Vou treinar para quê?'.

Foi bom quando finalmente conseguimos voltar a treinar na água. Embora tenha sido difícil para caramba. Sofri com a parte física. Estava com uma tendinite já no começo da pandemia, e o negócio piorou, degringolou Estou sofrendo com isso até hoje. Mas é coisa pequena. Então, assim, teve alguns desafios bons no nosso treinamento nesse período.

UOL - O adiamento das Olimpíadas te ajudou ou atrapalhou em algum sentido?

Acho que, no fim, todos fomos muito prejudicados com o adiamento de alguma maneira. Todos fomos afetados. Não acho que a nossa situação tenha sido pior nem melhor do que a dos outros atletas. A gente soube se segurar, embora tenha sido uma tarefa difícil. Ainda mais vindas do Brasil, um país amplamente afetado pela doença. Ninguém queria receber a gente. Tivemos que nos virar, passamos muitos meses na Europa, viajamos demais neste último ano.

UOL - Estas Olimpíadas têm sido bem atípicas, pela situação do mundo, pelas restrições e pelos protocolos. O que espera do evento em si?

Tem sido sendo realmente muito restritivo, a gente não pode sair do hotel —estamos fora da Vila Olímpica. Se quisermos pedir alguma coisa de mercado, precisamos pedir para entregar. Está sendo bem diferente. Eu odeio burocracia, fila, e todo dia a gente tem que cumprir os protocolos. Mas estou aguentando bravamente aqui.

Martine Grael e Kahena Kunze, no Japão - Phil Walter/Getty Images - Phil Walter/Getty Images
Martine Grael e Kahena Kunze, no Japão
Imagem: Phil Walter/Getty Images

UOL - Qual considera que será o maior desafio de vocês na disputa por medalha?

Eu acho que o maior desafio deve ser as mudanças no tempo. Aqui é um pouco louco. De vez em quando vem uma baixa pressão, pode virar tufão, pode não virar, pode separar em dois. É uma loucura o tempo, ele muda a cada dia demais. Então a gente vai ter um campeonato bem variado de condições, e isso exige bastante atenção e adaptabilidade.

UOL - Você fez 30 anos. O que mudou pessoalmente da última Olimpíada para cá?

Tudo mudou nos últimos cinco anos. É muito tempo, a gente tem uma sensação completamente diferente do barco, são outros focos. Mas fazer 30 anos não foi nada de mais. Na verdade, eu tive mais problemas antes [risos], acho que eu tive a crise dos 30 antes. E quando finalmente chegou o aniversário, eu fiquei supercontente e aliviada.

UOL - O que espera do desempenho do Time Brasil no Japão?

Acho que o Time Brasil vai bombar! A gente tem vários atletas incríveis, que têm se preparado de maneira exemplar. Acho que o resultado será bem satisfatório.

UOL - Você já se posicionou contra o coronavirus, pedindo que as pessoas ficassem em casa durante a pandemia. Acha importante que os atletas falem a respeito?

Esse negócio de posicionamento eu acho superimportante. A gente é referência e tem obrigação de dar o bom exemplo. Tem que usar máscara, é óbvio, entendeu?

Para mim, esse negócio da gripezinha... É um puta de um gripão do caraca! E, se você usar máscara, vai amenizar muito o problema. É o mínimo. Acho que as pessoas não entendem que se elas fizerem o mínimo a situação já fica bem melhor.

UOL - Estão surgindo muitas polêmicas também em torno de questões políticas. Quão importante é falar publicamente sobre esse tema, com a situação delicada que o Brasil vem enfrentando?

Eu tenho bem claro para mim que, do jeito que está indo, não está certo. A política no Brasil deveria se voltar para auxiliar a população, para construir um país longevo. E a política brasileira cada vez mais pensa no curto prazo, no próprio umbigo. Está muito mesquinho. Qualquer presidente no mundo, qualquer líder que tivesse feito o mínimo para guiar o povo durante esse momento de pandemia, distribuindo informação em vez de desinformação, teria se saído muito bem. E, não sei, mas parece que o nosso presidente se esforça para ser ruim. Eu não sei para onde foi o bom senso da política brasileira.