Cristina Fibe

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Caso João de Deus é Me Too do Brasil? Promotoria estima mais de mil vítimas

Em dezembro se completam cinco anos desde que João Teixeira de Faria, o então celebrado médium João de Deus, foi denunciado pela imprensa pelos abusos sexuais cometidos no centro espiritual que recebeu Xuxa, Oprah, juízes e governadores.

As acusações, que primeiro vieram à tona na TV Globo e no jornal O Globo, ganharam repercussão mundial e motivaram a primeira força-tarefa no Brasil para investigação de crimes sexuais.

As sobreviventes passaram de 10 a 300 em poucos dias, e então entendemos que as violações sexuais aconteciam na Casa de Dom Inácio de Loyola, com um modus operandi bem claro, havia mais de 40 anos.

Naquele momento, a coragem das vítimas, que colocaram suas vidas em risco ao denunciar o líder da pequena Abadiânia (GO), bebia na fonte do Me Too.

O movimento, que ganhou força após as denúncias contra o magnata do cinema americano Harvey Weinstein, garantia: nenhuma mulher ficaria sozinha, não seríamos mais silenciadas. Seria o fim da era em que, num crime de palavra contra palavra, a do homem sempre teve mais força.

No caso João de Deus, as autoridades foram pressionadas pela imprensa a dar uma resposta contundente às vítimas. O Me Too tinha chegado ao Brasil.

O ex-médium foi preso preventivamente em menos de dez dias, em dezembro de 2018, e mais de 15 denúncias de crimes sexuais foram feitas contra ele desde então.

No fim de 2019, começaram a sair as condenações. Em primeira instância, de lá para cá, João Teixeira foi condenado a quase cinco séculos de prisão em regime fechado: 489 anos e 4 meses de reclusão, pelos crimes de estupro, violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável, cometidos contra 56 vítimas.

Centenas de outras acusações estavam prescritas — o prazo para punição já tinha passado. A promotoria estima que as vítimas, na realidade, passem de mil.

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Apesar da pena alta, João Teixeira segue em prisão domiciliar. Está em sua mansão, em Anápolis, cidade próxima a Abadiânia, onde a Casa de Dom Inácio, local dos crimes, segue em funcionamento.

Depois daquela reposta rápida, há cinco anos, o ex-médium ficou 15 meses na cadeia. Com a pandemia do coronavírus, ele foi liberado para o regime domiciliar, e de sua mansão não mais saiu.

Isso porque as sentenças contra ele não são definitivas, ou seja, não foram analisadas em última instância. A defesa de João Teixeira continua a afirmar que é inocente, e recorre de todas as decisões — o que significa que a pena ainda pode ser reduzida.

Apesar disso, a condenação simboliza uma reparação a todas as sobreviventes — ainda que parcial e insuficiente. As decisões na Justiça significam que aquelas mulheres não estavam loucas, não armaram um complô, não deveriam sentir culpa, vergonha e medo. É um atestado de que estavam falando a verdade, contra a forte corrente de descrédito que enfrentaram.

Depois do caso João de Deus, porém, muitas outras denúncias de abusos sexuais, mesmo que cometidos em série, viram as vítimas serem caladas, terem suas reputações e suas palavras colocadas em dúvida.

Por enquanto, o Brasil está preso a um grande caso que simboliza o combate à violência contra a mulher. O Me Too, até agora, fez um aceno — mas não dá pra dizer que chegou pra ficar.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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