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Cris Guterres

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Dilma foi tão atacada por gasolina e Bolsonaro continua sendo mito?

O presidente Jair Bolsonaro (PL) e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) - Adriano Machado/Reuters e Reprodução/Instagram
O presidente Jair Bolsonaro (PL) e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) Imagem: Adriano Machado/Reuters e Reprodução/Instagram
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Cristiane Guterres

Cris Guterres é jornalista, empreendedora e sonhadora. Proprietária do Atrium Restaurante, palestra sobre diversidade, motivação e liderança feminina. Sua especialidade é mostrar o quanto somos fortes e podemos mudar, com competência, qualquer situação opressora ao nosso redor.

Colunista do UOL

30/03/2022 04h00

Uma cena peculiar nos últimos dias me lembrou uma fala de Dilma Rousseff no dia 29 de agosto de 2016, durante o julgamento de seu impeachment no Senado. No decorrer das mais de 13 horas respondendo perguntas dos 48 senadores, a presidente Dilma declarou: "Tem sempre um componente de misoginia e de preconceito contra as mulheres nas ações que ocorreram contra mim".

A cena à qual me refiro e que me lembrou da fala da ex-presidente foi protagonizada no domingo (27) pelo atual senador pelo PROS Fernando Collor de Mello —alvo de processo de impeachment em 1992, que renunciou antes de ser afastado— e o presidente Jair Bolsonaro durante evento do PL, que o próprio presidente afirmou ser o lançamento da sua pré-candidatura à reeleição presidencial.

Em um país falocêntrico como o Brasil, as questões de gênero e, também, de raça perpassam nosso cotidiano e vão cimentando as estruturas das relações entre os cidadãos, chegando ao ponto de a sociedade escolher os homens que serão perdoados e defendidos por seus erros e reservar às mulheres um lugar ardente no fogo do inferno.

Em 2022, completam-se seis anos desde que Dilma Rousseff foi tratada de maneira ofensiva, sendo chamada de louca a incompetente. Viu sua vida sexual se tornar pauta em infindáveis tentativas de desqualificação. Foi xingada, agredida, teve sua capacidade mental e intelectual questionada e vem sendo impedida de tentar retornar à vida política.

No entanto, o mesmo tratamento não foi oferecido a Fernando Collor, que goza de suas articulações para se manter no poder. E o que falar do tratamento dado ao atual presidente quanto à situação econômica do país?

Nem um décimo dos insultos e da violência proferidos contra Dilma se repetem agora, mesmo diante dos vexames políticos, econômicos e dos crimes contra a vida do presente.

A mulher que ousa sair da cozinha é considerada perigosa em uma sociedade onde a misoginia é quem dita as regras, escolhe a música e tenta calar os artistas. Aniquilar Dilma e usá-la como exemplo, tal qual como foi feito com Marielle Franco [vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018], são as mensagens decodificadas enviadas por quem tem a intenção de nos manter caladas, subalternizadas e engaioladas.

Essa violência ganha materialidade em brincadeiras, deboches e piadas. Como esquecer o abusivo e violento adesivo que surgiu colado em tanques de gasolina no Brasil, como "protesto" contra o aumento do produto no governo de Dilma? O adesivo em questão trazia Dilma de pernas abertas e simulava uma penetração sexual quando o carro era abastecido. A maneira escolhida para ofender a dignidade e a honra da presidente foi bem diferente da resiliência e do conformismo com que o brasileiro vem enfrentando os mais de 45% de aumento da gasolina no governo Bolsonaro. Temos a gasolina mais cara de todos os tempos com a complacência e a compreensão da grande maioria.

Não podemos ignorar a perversidade nas relações entre gênero e poder. Nós, mulheres, já sabemos que nosso lugar é onde quisermos, agora precisamos ir além para que a palavra presidenta não esteja presente só no dicionário, mas novamente em nossa sociedade.